Plano Polêmico #27 | Woody Allen: Justiça ou Caça Às Bruxas?

O ressentimento, a única emoção humana que pode durar a vida inteira, provê infinitas justificativas para suas más ações.
Theodore Dalrymple

Em primeiro lugar, um aviso: não, não sou e nunca fui um fã de Woody Allen. Sou até capaz de reconhecer algumas obras-primas ao longo da carreira do cineasta norte-americano, a exemplo de Manhattan, Zelig e o lindíssimo A Rosa Púrpura do Cairo. Mas desgosto profundamente de tantos outros de seus filmes, especialmente os da fase europeia, na qual Woody Allen se converteu em uma espécie de guia turístico para pseudo-intelectuais. Filmes chatíssimos, como o intectualóide Meia-Noite em Paris, e caricaturas delirantes, como a do comedor-vagabundo Juan Antonio, de Vicky Cristina Barcelona, cuja fortuna emana de além-mundos, já que o rapaz passa todo o filme fazendo rigorosamente nada, me fizeram me afastar definitivamente do cinema de Allen. Tornei-me Paulo Francis com relação aos novos filmes do americano – “não vi e não gostei”. Portanto, se há alguém do Plano Crítico que não pode ser acusado de sair em defesa de Woody Allen por ser um de seus fãs inveterados, essa pessoa certamente sou eu.

Feita essa advertência, vamos ao tema do texto em si. A polêmica envolvendo o diretor, sua ex-esposa Mia Farrow e duas filhas adotivas de Mia – Dylan Farrow e Soon-Yi Previn – não parece ter fim. A celeuma se iniciou quando Dylan acusou Allen de ter abusado dela em um sótão quando tinha apenas sete anos de idade. Somou-se a isso o estranho casamento de Woody Allen com Soon-Yi, filha adotiva de Mia Farrow com o ex-marido (o regente André Previn). Concordo que seja bastante estranha e até doentia a união do cineasta com a própria enteada pouco tempo depois de ter se separado de Mia Farrow. Ainda mais repugnante é o fato de que os dois iniciaram seu romance em 1991, quando Allen ainda era casado com Mia. Mas muito se tem criado a partir disso. Por mais questionável que seja, o relacionamento de ambos se iniciou quando Soon-Yi já tinha 21 anos. Portanto, não houve pedofilia. A pecha de “vítima de um homem mais velho e sedutor” que tentaram colar na enteada realmente não funciona aqui.

Já o suposto caso de abuso de Dylan Farrow quando criança não parece menos absurdo, uma vez que o caso foi investigado por uma das polícias mais eficientes do mundo e nenhuma evidência foi encontrada. Repito: nenhuma. Os adeptos da execração pública, que se regozijam ao ver o circo pegando fogo, repetem como um mantra que Woody Allen, como um homem, poderoso e influente, conseguiu esconder essas evidências. Ignoram que outro filho adotivo do casal e testemunha ocular de tudo, Moses Farrow, veio à público defender o pai ao afirmar categoricamente que tudo não passou de uma invenção de sua mãe, que convencera Dylan sobre a autenticidade da história fantasiosa que ela mesma criou para prejudicar o pai. Todos esses fatos, que atestam a inocência de Woody Allen, são desprezados por uma horda de pessoas que pedem a sua cabeça. Alguns atores que trabalharam com ele doaram seus cachês, a exemplo de Rebecca Hall, Timothée Chalamet e Selena Gómez e, agora, foi a vez de a própria Amazon entrar na dança adiando o lançamento do novo filme de Allen – A Rainy Day in New York. Tudo sob forte e incansável pressão de grupos feministas, como o Time’s Up e o Me Too.

Analisemos, então, o viés que está em jogo no caso Woody Allen. É bastante claro o vitimismo com que se tenta embalar as figuras femininas nessa história. Dizer que Soon-Yi é apenas uma pobre vítima de um homem mais velho é reduzi-la a uma posição ridiculamente infantil e subalterna. Lembro que a moça já tinha 21 anos quando começou seu romance proibido com Allen e que hoje, aos 47 anos, permanece casada com o diretor. Se o início do relacionamento se deveu apenas a um jogo de sedução contra uma menina inocente, por que até hoje Soon-Yi não se libertou de um homem tão vil e perverso? Quanto ao caso de Dylan e Mia Farrow, chega a ser psicótico imaginar que a mãe, uma atriz de tanto sucesso e tão influente dentro do meio artístico (além de repleta de contatos também fora dele), não tenha provido meios para fazer frente à suposta manipulação do caso por parte do ex-marido. Mais uma vez, parece mais fácil investir na útil figura pré-fabricada da mulher oprimida e vítima das artimanhas de um homem poderoso, maquiavélico e abusivo. Ainda que nada fale a favor disso. Pouco importa.

Não se trata de desmerecer a atuação de movimentos que apoiam a luta de atrizes que sofreram qualquer tipo de abuso por parte de homens no exercício de sua profissão. Casos como o de Harvey Weinstein provam que há sim diretores e produtores mal intencionados não só dentro dos estúdios hollywoodianos como pelo mundo afora. Todos esses abusadores precisam responder ética e criminalmente pelo que fizeram. É certo. Mas a caça às bruxas que se tem empreendido contra Woody Allen nada tem a ver com isso. A polícia o inocentou. Todas as evidências, examinadas racionalmente, demonstram sua inocência no caso de Dylan Farrow. Por mais imoral que tenha sido o começo do relacionamento com Soon-Yi, também não há nenhum crime configurado neste caso. Woody Allen não é um monstro pedófilo. Assim como Mia Farrow e Soon-Yi estão longe de serem anjos vitimados por sua maldade. Toda essa perseguição, que tem resultado na destruição de uma carreira, levanta duas questões. A primeira é sobre o que vale mais: a justiça fazendo o seu trabalho dentro dos trâmites legais ou a pressão de um tribunal de feministas que condena e arruína carreiras baseando-se apenas em acusações?

A resposta a essa primeira indagação parece óbvia demais para que eu me alongue nela. Mas a segunda questão é tão séria quanto a primeira e traz em seu bojo a grande explicação de tudo o que há de mais errado no caso Woody Allen. Por que tamanho afã por condenar previamente, podendo levar inocentes à absoluta ruína? Não acho que a coisa se resuma à mera existência de pessoas maldosas dentro de grupos feministas como o Me Too e o Time’s Up (afinal, o mau caratismo existe em qualquer lugar). Acho que a palavra mais exata para explicar a caça às bruxas contra o diretor nova-iorquino é o ressentimento. Seria loucura negar o sofrimento da mulher ao longo dos séculos, alijada de direitos e de reconhecimento. Mas a cruzada contra um homem inocentado por todos os meios legais só pode pertencer a uma narrativa selvagem, que sempre vilaniza a figura masculina. A qualquer custo. Esse é o ponto mais grave dessa história, que parece até retirada de uma tragédia alleniana. Ele demonstra que muitos que tentam levar Woody Allen ao cadafalso realmente acreditam que fazem o certo. Que promovem o bem e a justiça. Afinal de contas, o ressentido jamais nota o próprio ressentimento como uma falha.

O linchamento público de um dos mais importantes cineastas norte-americanos (sei reconhecer isso, ainda que, nem a peso de ouro, aceitasse o convite para um de seus fã-clubes) continua a todo vapor. A Rainy Day in New York corre riscos reais de ser engavetado. Atos covardes como o dos artistas que renegaram Woody Allen não surpreendem. Eles simplesmente tentam preservar a própria imagem frente à opinião pública e à indústria. Tão abjeto quanto previsível. Por isso, o que há por baixo da ponta desse iceberg me preocupa muito mais exatamente por emular o bem. Esconder-se por detrás de uma justiça postiça e torta. Como alguém tão pouco interessado no cinema de Woody Allen, eu diria que, se fosse para vê-lo declinar, que fosse então como artista. Não assim – como réu inconfesso em um tribunal de ressentidos.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.