Plano Polêmico #28 | Cadê os Super-Heróis Realmente Novos dos Quadrinhos Mainstream?

Se você é leitor de quadrinhos mainstream (ou seja, Marvel e DC Comics), pense por um momento no Homem-Aranha, talvez o super-herói mais famoso da Marvel Comics. Pensaram? Agora me digam aí que outros super-heróis de alguma forma derivados do original de 1962 existem por aí? Uma penca, não é mesmo? Há desde Porco-Aranha e Macaco-Aranha até o Homem-Aranha Miles Morales e Spider-Gwen. Mas há dezenas e dezenas de outros, o suficiente para que a Marvel bolasse eventos inteiros como Aranhaverso somente com esses personagens (e nem vou falar do Venomverso, que é o cúmulo do derivado, depois de um choque de derivação no Derivaverso).

Agora façam o mesmo exercício com o Batman.

E com o Superman.

E com o Hulk.

E, em seguida, com o Flash, Arqueiro Verde, Lanterna Verde, Wolverine, Capitão América  e uma infinidade de outros heróis clássicos.

O resultado será invariável: cada um deles tem praticamente um mini-universo inteiro só de “cópias das cópias das cópias”, como diria o Narrador. Sei que na arte nada se cria, tudo se copia, mas haja o benedito!

O Homem-Aranha reproduz mais do que coelho…

Não quero entrar no mérito se isso é bom ou ruim se analisado isoladamente e reconheço que esses “heróis derivados” são criados desde que o Superman apareceu nos quadrinhos em 1938. Minha questão, porém, é muito simples e mais abrangente: onde estão os NOVOS super-heróis, aqueles que não tem relação ALGUMA com outros já pré-estabelecidos? Para ilustrar, novamente proponho um exercício, este um pouquinho mais complexo. Usem os seguintes parâmetros:

1. Personas super-heroísticas (não a pessoa por trás da “máscara”, mas sim o super-herói uniformizado em si) completamente divorciadas de personas super-heroísticas pré-existentes;

2. Com participação realmente relevante e consistente em determinado universo em quadrinhos (fiquemos circunscritos à Marvel e à DC, pois a proposta é trabalhar os personagens mainstream aqui como o título do artigo e o parágrafo inicial deixam claros), seja com séries solo, seja como líderes de equipe. Em outras palavras, nada de personagens criados para compor equipes e derivações de equipe amplas como X-Men, Inumanos ou Legião dos Super-Heróis e que jamais ganharam algum tipo de relevância maior do que ser “mais um no meio de tantos”;

3. Nos últimos 10 ou 15 anos.

Com isso na cabeça, pensem e digam-me os nomes dos super-heróis que vocês conseguiram achar que obedeçam simultaneamente os três parâmetros acima.

Provavelmente nenhum ou um ou dois gatos pingados, não é mesmo? Como leitor muito antigo de quadrinhos (sério, sou uma velharia aqui no Plano Crítico…), fiz um esforço enorme para achar algum super-herói (super-vilão é bem mais fácil) que se encaixasse nas premissas acima e o resultado foi nulo, mas minha memória é péssima, claro, algo que vem (ou vai…) com a idade. Repeti o exercício com os demais membros aqui do site e nada de grande relevância também. Mesmo que tenhamos esquecido de alguma criação, uma coisa é certa: elas, se existirem, são poucas, muito poucas. E isso é bem preocupante.

O Super-Tudo chegou!

Afinal, mesmo que consideremos que as duas editoras têm seus “heróis-alicerce”, o que é plenamente verdadeiro e faz todo sentido, se fizermos uma breve viagem no tempo, perceberemos até muito facilmente a criação de diversos personagens realmente novos ao longo das décadas. E não vou nem “roubar” usando as prolíficas décadas de 60 e 70 para concluir isso. Basta olharmos para as décadas de 80 e 90, para lembrarmos de Cristal (1980), Elektra (1981), Manto e Adaga (1982), Lobo (1983), Quarteto Futuro (1984), Gladiador Dourado (1986) e Deadpool (1991). Claro que a “queda de criatividade” já é acentuada mesmo nessas décadas, mas ela parece ter se tornado uma doença terminal se pensarmos no novo milênio.

Sim, hoje, aparentemente, há mais representatividade de minorias nos quadrinhos. Mais mulheres, mais negros, mais latinos, mais homossexuais e isso é ótimo sob qualquer ponto de vista civilizado. No entanto, não só essa inclusão é usada como uma ferramenta de marketing pelas editoras (afinal, o mesmo não aconteceu com Manto, um negro e Adaga, uma mulher, à época “vendidos” meramente como uma dupla de adolescentes, sem ressaltar suas etnias e gêneros, além de, por exemplo, os membros dos Novos Mutantes, composto, dentre outros, de um latino, uma asiática e uma nativa americana), como ela acontece de forma potencialmente efêmera justamente porque o que são criados são, em regra, derivados de heróis estabelecidos para que as minorias possam ocupar essa “vaga” momentânea ou paralelamente ao “herói principal”.

Afinal de contas, alguém aqui realmente acha que Riri Williams tinha alguma chance de substituir para sempre Tony Stark como o Homem de Ferro? Que a Thor(a) realmente tomaria o lugar do Thor? Que o Falcão seria mesmo o Capitão América indefinidamente? Coragem MESMO seria se as editoras respondessem essas perguntas afirmativamente. E veja, o papo aqui não é nem na linha de que isso não deveria acontecer. AO CONTRÁRIO, o ponto é que isso deveria acontecer TAMBÉM, mas o que vemos é que derivados substituem o trabalho de criar verdadeiras novas personas super-heroísticas. Passamos um tempo sem o Nova Richard Rider para os holofotes serem apontados para o Nova Sam Alexander, basicamente a mesma coisa que o anterior. Hoje, o Lanterna Verde original (com poderes baseados em magia) é homossexual, mas todos os demais continuam existindo, sendo héteros e são todos praticamente mais importantes que o original na cronologia da DC Comics. E a lista é longa…

Liga dos Vingadores? Ou Vingadores da Justiça?

Portanto, tenho para mim que a VERDADEIRA representatividade virá apenas quando novos heróis – NOVOS MESMO! – forem criados e entregues para personagens negros, latinos, homossexuais, budistas, mulheres e assim por diante, com dinheiro sendo investido em marketing de maneira que essas novas personas super-heroísticas possam firmar-se no panteão de heróis das editoras sem que a velha desculpa das “vendas baixas” cancelem o título com nem bem um ano de vida. O caminho atual é o “mais fácil” e o que “mais chama atenção” e, portanto, traz mais dinheiro a curto prazo. E o caminho mais fácil é, também, o potencialmente menos interessante e o que não deixará a representatividade ser efetivamente firmada. Há exceções? Claro! O Homem Aranha na versão Miles Morales é uma delas em termos de importância, mas não em termos de criatividade (afinal, claro, ele é essencialmente a mesma coisa que Peter Parker era no início de sua carreira) e a Ms. Marvel Kamala Khan é a que mais se encaixaria nos três parâmetros acima se não houvesse a inspiração de nome e uniforme na Ms. Marvel Carol Danvers.

Mas esqueçamos a representatividade e voltemos ao tópico principal: onde estão os novos super-heróis? Enquanto editoras como a Image Comics derramam semanalmente diversos títulos novos com as mais variadas temáticas e os mais variados novos personagens – sejam “super” ou não – a Marvel e a DC ficam na crise da mesmice infinita, querendo nos convencer que mais uma derivação do Superman é um personagem realmente novo. Que a 100ª versão do Aranha, desta vez uma “prostituta católica tendo um caso fora do casamento com uma namorada judia que trabalha em uma clínica de aborto militar” (Capitão América, essa é para você!), é uma revolução conceitual como nunca vista antes. E, com toda essa profusão de “novos velhos personagens”, as duas editoras continuam descansando em berço esplêndido sem nem mesmo tentar nos trazer um novo super-herói para que ele ou ela um dia seja o que hoje o Batman e o Capitão América são para os leitores.

Uma tarefa impossível? Talvez. Mas se Gardner Fox, Joe Gill, Stan Lee, Jack Kirby, Jim Shooter e John Byrne, dentre notáveis outros, não tivessem “queimado a mufa” e criado sozinhos uma grande parte dos personagens que hoje conhecemos, um mais diferente do que o outro, hoje a DC Comics e a Marvel Comics, se existissem, teriam como heróis 136 variedades de Tarzan, 247 variedades de Mandrake, 325 variedades de Flash Gordon e 138 variedades do Fantasma. E não muito mais do que isso.

A bola foi levantada. Agora está na hora de vocês, leitores, cortarem!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.