Plano Polêmico #4 | Andy Serkis Não Merece Ganhar o Oscar!

Entenda uma coisa logo de cara: por “Andy Serkis” no título eu quis dizer “qualquer ator ou atriz” e, por “ganhar o Oscar” eu quis dizer “nem concorrer a prêmios quaisquer de Melhor Ator ou Ator Coadjuvante junto com atores que atuaram sem o auxílio da captura de performance“. Sim, é abrangente desse jeito. Mas há razões para isso.

E a primeira delas é que, toda vez que um filme relevante que faz uso da tecnologia de captura de performance (mocap como usarei adiante para simplificar) é lançado, como foi o caso do recente Planeta dos Macacos – O Confronto, essa mesma discussão vem à tona, com diversas pessoas caindo de amores pelo maravilhoso trabalho dos atores por detrás da “máscara digital”. Muitos defendem que, se a atuação é boa, ela deve concorrer de igual para igual com as atuações ditas “normais”.

E, assim como César diz em Planeta dos Macacos – A Origem, eu digo um veemente, negritado e em maiúsculas “NÃO!“.

mocap jar jar

NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E não estou dizendo que a atuação de Serkis não é boa. Longe disse. O mesmo vale para outros atores, como o trabalho de Tom Hanks em O Expresso Polar ou o de Jamie Bell em As Aventuras de Tintim. Mas vejam, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E essa minha frase de profundo cunho científico quer dizer simplesmente que não há como tratar as atuações com mocap com as atuações sem mocap. Afinal de contas, mocap não é, como muita gente gosta de dizer e como usei acima propositalmente, uma “máscara digital” ou “maquiagem digital” para usar uma tradução direta do termos digital make-up, em inglês.

A grande verdade é que mocap é muito mais do que tinta digital no rosto de atores reais. Aliás, esse é um reducionismo que me irrita ao extremo e demonstra um completo desconhecimento da técnica e, pior de tudo, reduz o trabalho dos magos dos computadores – e também do diretor em muito casos, como James Cameron – a um mero trabalho de Photoshop. E gente, o mocap verdadeiro, aquele que levou César e seus amigos à vida de forma tão incrível em Planeta dos Macacos – O Confronto é muito, mas muito mais do que só um rímel aplicado com mouse.

Para começar, a brincadeira é cara. James Cameron, que adora brincar com tecnologia, literalmente desenvolveu do zero (ou quase) as técnicas para permitir que Zoe Saldana, Sigourney Weaver e Sam Worthington se transformassem na versão “Terra de Gigantes” dos Smurfs em Avatar. E, por James Cameron, claro, eu quero dizer toda sua equipe técnica, logicamente. E podem escrever aí: Avatar 2, 3, 4, 18, 32, elevarão a tecnologia à enésima potência. O mesmo vale para a Weta de Peter Jackson para permitir que Andy Serkis se transformasse no adoravelmente asqueroso Sméagol/Gollum na trilogia O Senhor dos Anéis (vou ignorar O Hobbit por um momento, pois aquilo é ruim demais – polêmica dentro de polêmica!).

mocap serkis

Nâo adianta me olhar assim. No Oscar for you!

Além disso, a tecnologia permite não só transformar Serkis em King Kong, como, também, alterar as composições faciais da maneira que o diretor – ou os próprios técnicos – quiser. É um sorriso mais largo aqui, um olho mais arregalado ali, um braço mais elevado acolá. Em outras palavras, o mocap, longe de ser só maquiagem digital, é a amálgama perfeita entre homem e máquina, só que entre um e outro, há vários outros homens, os intermediários sem nome responsáveis de verdade pelo milagre tecnológico. E olha que não estou nem falando da participação dos designers de criaturas nesses processo todo, que também têm mérito no resultado final.

Brevíssima - e incompleta - história da captura de performance

Se formos bem para trás mesmo, chegaremos em 1938, com o lançamento de Branca de Neve. Calma, não se desesperem, pois não estou maluco. A grande verdade é que os rudimentos do que hoje conhecemos como captura de performance vieram da técnica conhecida como rotoscopia, que consiste no desenho feito por artistas em cima dos frames físicos dos filmes. Essa técnica foi criada pelo grande Max Fleischer em 1915, no desenho Out of the Inkwell e o grande lançamento nos cinemas ainda antes da metade do século XX usando essa técnica foi mesmo Branca de Neve. Exemplos mais recentes, já com o auxílio do computador são: Waking Life e O Homem Duplo, ambos de Richard Linklater.

mosaico roto

Em sentido horário: (1) Out of the Inkwell; (2) você adivinha que filme é esse; (3) Waking Life e (4) Homem de Ferro… não, brincadeirinha, O Homem Duplo.

Mas a tecnologia de captura de performance só andou de verdade lá para a década de 90, já com uma ampliação muito grande do uso dos computadores para a geração de efeitos visuais. E a grande responsável pelo avanço foi a indústria de videogames. No cinema, a grande virada veio no ano 2000, só 14 anos atrás e certamente não de onde você imagina que veio. Afinal, você por acaso já ouviu falar do filme animado Sinbad: Beyond the Veil of the Mists? Pois é, nem eu antes de pesquisar para esse artigo. E olha que eu ainda vi a desgraça somente para recomendar que você não chegue nem perto. Trata-se de um pérola indiana terrível, mas que foi integralmente feita com o que à época se chamava somente de captura de movimentos.

Só no ano seguinte, em 2001, é que o filme que você está pesando finalmente surgiu: Final Fantasy: The Spirits Within. Foi um fracasso, mas se você, como eu, o assistiu no cinema, tenho certeza que seu queixo caiu em vários momentos. Era  a prova de que os atores são inúteis… não, peraí, deixa eu corrigir: era a prova que a tecnologia veio para ficar.

mosaico mocap 2

Se eu tiver que dizer qual dos dois é o filme do Sinbad, você não merece ler esse artigo…

E filmes live-action com personagens criados pela tecnologia que viria a ser conhecida como captura de performance já estavam também acontecendo e, aqui, novamente uma surpresa: o primeiro personagem assim não foi Gollum, mas sim Batman no excremento cinematográfico chamado Batman Eternamente. Val Kilmer foi “duplicado” usando a tecnologia para algumas cenas (todas elas pavorosas, óbvio). Isso foi em 1995. Aí veio nosso amigo James Cameron que usou a tecnologia ainda de maneira discreta, com personagens digitais correndo para não se afogarem em Titanic, em 1997 e, dois anos depois, o tio George criou aquela belezura de personagem que queimou minha retina e assaltou meus ouvidos chamado Jar Jar Binks.

mosaico mocap 3

A relação entre captura de performance e naufrágios de toda a espécie me fez indagar como é que essa tecnologia perdurou…

Mas é claro que o grande momento da captura de performance – e aí performance mesmo, não mais só “movimento” – veio com o desenvolvimento, pela Weta Digital, empresa de Peter Jackson, do que eles batizaram de The Volume, tecnologia que, apesar de seu progresso desde que foi usada pela primeira vez em 2001, continua basicamente a mesma: o ator veste um macacão com sensores em pontos específicos e as câmeras então capturam cada “pedaço” de imagem, remontando o personagem em uma modelagem 3D em computador que, depois, é alterada em programas de animação. Ainda havia muitas limitações do que efetivamente era capturado, mas o impacto na indústria cinematográfica já podia ser sentido em todo canto.

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Serkis é Gollum ou Gollum é Serkis?

Depois disso, com as porteiras tecnológicas abertas, Robert Zemeckis surtou e basicamente largou sua carreira decente para fazer desenhos animados ruins, todos eles com captura de performance: o resultado foi o lançamento de O Expresso Polar em 2004, A Lenda de Beowulf em 2007, Os Fantasmas de Scrooge em 2009. Apesar de fracos, Zemeckis contribui para a tecnologia, mostrando sua versatilidade e ampliando os pontos de “captura” de performance.

mosaico mocap 5

Zemeckis maculando sua carreira com desenhos desalmados…

E, com isso, chegamos a James Cameron que, também com a ajuda da Weta, pegou o que já existia antes e aplicou boas doses de sintonia fina, deixando seu Avatar em 2009 como um dos grandes exemplos do uso do mocap de maneira fotorrealística. Mas a tecnologia continuou a se desenvolver a passos largos, com seu uso para criar César em Planeta dos Macacos – A Origem, em 2011 e para recriá-lo com assombrosos detalhes, além de dar a ele diversos companheiros e uma família em Planeta dos Macacos – O Confronto, em 2014. É difícil imaginar onde é que isso vai parar, não é mesmo?

“Ah, mas então o ator que trabalha debaixo de maquiagem física pesada não deveria ser premiado também”.

Hum, bem, se você realmente acha isso, beleza, mas isso quer dizer que você então nem considerei o que disse acima. Em primeiro lugar, maquiagem é maquiagem. Uma vez feita, cabe ao ator se virar para ter uma performance digna de premiações. Usando o caso da franquia dos macacos novamente, vejam o filme original, de 1968: lá, Roddy McDowall e Kim Hunter (além de vários outros) trabalhavam debaixo de sufocantes máscaras que complementavam a maquiagem também pesada. Mas seus olhos são seus olhos, seus movimentos são aqueles mesmos e suas fisionomias permanecem intactas. A maquiagem é, nesse caso, um inibidor de performance o que tornam os atores bem-sucedidos apesar delas verdadeiros gênios em atuação. É muito diferente de vestir um macacão cheio de pontinhos e sair fazendo macaquices. E, novamente, sem desmerecer a técnica nova, mas eu – leigo que sou (pero non troppo) vejo muito mais valor agregado à atuações debaixo de maquiagens físicas do que debaixo de camadas de bits e bytes. Portanto, sim, os atores “simplesmente” maquiados à moda antiga devem concorrer a prêmios de melhor atuação, mas não os atores que são “maquiados” com pancake quântico.

mocap avatar

Sei não, mas o cara da direita atua bem melhor que o da esquerda…

“Ah, mas estão você concorda que ao menos uma categoria especial em premiações deveria ser criada para laurear os atores de mocap, não é?”

Não, não concordo coisíssima nenhuma.

Novamente, você não leu o que escrevi (sim, eu converso comigo mesmo!). Se criarem uma categoria de “melhor ator digital”, então o prêmio não deverá, nunca, ir só para o ator. Ele/ela deverá ser chamado(a) ao palco juntamente com pelo menos o responsável pela equipe técnica. O prêmio obrigatoriamente precisa ser conjunto, sob pena de se estar desvalorizando todo um grupo de pessoas que suou a camisa para transformar a atuação do fulano em um monstrengo incrível. E se você considera que se o prêmio for dado ao ator somente e os técnicos se sentirão realizados, considere novamente! Uma coisa é você ser especificamente premiado, outra é ser genericamente premiado. Serkis sobe e leva a estatueta, agradece a quem tem que agradecer e pt saudações. Ninguém vai nem se lembrar de quem marretou os dedos noites a fio para transformar caretas em bichos insanos. Ou isso ou a estatueta de efeitos especiais deve ir obrigatoriamente para a equipe técnica do filme em que o ator ganhe pela atuação digital e nós sabemos que isso nem sempre acontecerá.

Mas não se enganem. Eu vejo os méritos das atuações com mocap. Trata-se de uma tecnologia que, provavelmente, veio para ficar. No entanto, no frigir dos ovos, apenas considero que não dá para colocar atuações “mocapeadas” no mesmo saco de atuações tradicionais.

A bola foi levantada. Agora está na hora de vocês, leitores, cortarem!

p.s. Se alguém estiver se perguntando que imagem é essa em destaque, ela é do sensacional Holy Motors. Assistam já!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.