Plano Polêmico #9 | A Vergonhosa Fase da Música Pop Atual

“A música pop atual é muito superficial. É divertido ouvir quanto se está no trânsito, mas não acrescenta em nada. Não tem sentido ou significado e eu não estou dizendo isso como um músico do rock de 45 anos e sim como um humano normal.”

Dave Grohl

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“O mundo da música anda mal.” Esta é uma afirmação que se escuta constantemente, assim como a clássica “não se faz mais música como antigamente”. Em um cenário mainstream onde nos vemos cercados por muitos cantores sem talento, músicas que transcendem a imbecilidade humana e um limbo de falta de originalidade fica difícil discordar de tais afirmações. E já vou dizendo que não tratarei de sertanejos universitários, pagodes melosos ou o funk carioca, pois acho que não vale a pena e já estaria fugindo um pouco dos alvos aqui. O fato é que fazer música nunca foi tão fácil, e isso trouxe benefícios, mas MUITOS males. Atualmente o estilo mais presente universalmente é o Pop. Então, antes de começar esse primeiro Plano Polêmico sobre música, melhor definirmos esse estilo tratado aqui, visto que é um conceito um tanto complicado…

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 O conceito e um breve histórico

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Música Pop se entende basicamente por músical com conteúdo bastante comercial. Geralmente direcionada para o público jovem, possuindo melodias simples, duração curta e normalmente algumas características eletrônicas. Se trata de um estilo com um conceito sempre questionado, visto que “pop” nada mais era do que um termo usado antigamente para designar música popular, conceito esse que ainda é usado e por isso causa confusão. Surgiu com maior uso na década de 60 com o estouro dos The Beatles, The Beach Boys, Abba, The Byrds, entre outros. Com o passar do tempo também passou a ser usado para sons bastante harmônicos do Soul e Disco da década de 70, mas foi na década de 80 que adquiriu um modelo mais sólido, se tornando um estilo musical. Nessa década surgiram os primeiros artistas a moldarem um estilo de música pop que se seguiria até hoje, cantores como Madonna, Michael Jackson, Cyndi Lauper e outros que atingiram o auge da popularidade com a ajuda do advento de uma certa emissora chamada MTV. Tudo mudou com o surgimento desse canal, e nisso me refiro a coisas boas e ruins. O fato é que o que você vê na música de hoje começou naquela década, ainda que em sua maioria fosse em um bom nível de qualidade. As coisas começaram a desandar na década de 90, mas isso fica pra nosso próximo tópico…

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Os Primeiros Sinais de Desordem

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A década de 90 foi responsável por trazer muita coisa ruim ao mundo da música. Enquanto aqui no Brasil o cenário já começava a ser dominado pelo sertanejo (o que é dominado quase por completo atualmente), nos EUA começavam a surgir a febre das boybands e girlbands. Na verdade, ela já começava na década de 80 com o sucesso de bandas como Menudo, mas a coisa só recebeu um tom maior na década seguinte. Surgiram aqui Backstreet Boys, Spicy Girls, N Sync, entre outras. Você pode querer se defender caso essas bandas fizeram parte de sua juventude/infância, mas o fato é que pertencem a um limbo de falta de criatividade e constitui uma ofensa a músicos que se dedicam a seu trabalho. Boybands/girlbands nada mais são que grupos de jovens com melodias simples e pegajosas, letras medíocres e um apelo a imagem maior que à música. Vai dizer que se o N Sync fosse um bando de barbudos no estilo do ZZ Top eles conseguiriam a mesma fama? Não. Isso porque eles conseguiram conquistar mais da metade de seus fãs (que eram garotas no auge da juventude) apenas pela beleza e pelas melodias extremamente melosas e letras infanto-juvenis. O mesmo serve para as girlbands, pelo lado dos meninos, estes babavam pelas cantoras, enquanto para as meninas, aquelas eram verdadeiras heroínas e modelos do consumismo.

Junto desses grupos começaram a surgir “divas” do pop de qualidade duvidosa. Entre essas divas estavam Cher, Mariah Carey e a rainha desse pop picareta: Britney Spears. Estava se formando uma indústria da música que não ia cansar de usar a MESMA fórmula que funciona até hoje. O que dizer do hit …Baby One More Time da Britney? A cantora é uma das maiores piadas que a indústria da música já fabricou. Sim, digo “fabricou” pois ela e metade das cantoras pop atuais seguem a ordem de produtores, fazem uso de Auto-Tune e dificilmente tem uma verdadeira liberdade criativa dentro de suas músicas, sendo nada mais que fantoches. Infelizmente, o que uma cantora pop atual mais precisa ser é: sexy, jovem, polêmica e que siga a tendência. Tudo isso ganhou dimensões maiores a partir de Britney Spears.

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As evidências

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Certo, mudemos para um outro tópico. Vamos evidenciar os erros e motivos pela qual a música pop vem se tornando de péssima qualidade. Bem, vamos começar citando uma coisa: inovação. Não caia nessa, muita gente já veio com a ideia de “Messias da música pop” (Lady Gaga enganou milhares com essa), mas a verdade é que – com algumas poucas excessões – não houve ousadia de inovar no mundo do pop. As letras continuam falando de romantismo barato e com o mesmo papo materialista e cheio de imbecilidades egocêntricas com letras “tirando onda”. Quanto a melodias, elas continuaram as mesmas, abandonando cada vez mais a música mais orgânica e utilizando efeitos e batidas eletrônicas pra tudo.

Bem, para os céticos que acham que esse papo é mentira, o periódico Nature Scientific Report publicou um estudo que corrobora com tais afirmações dizendo que a música pop está cada vez mais alta e mais repetitiva. O estudo liderado por Joan Serra do Conselho Nacional de Pesquisas da Espanha usou um arquivo chamado Milion Song Dataset, que analisa letras e áudio de músicas, pra computar canções de 1955 a 2010. O resultado constatou que a música aumentou de intensidade e se tornou mais pobre em termos de acordes, melodias e arranjos, diminuindo a diversidade e se tornando cada vez mais parecida.

A respeito do que foi citado sobre a música ter ficado mais alta, isso é perceptível quando se olha para o electropop, por exemplo, onde os artistas tem procurado deixar suas canções com as batidas mais pesadas possíveis, claramente em um tom maior com o objetivo de impactar o ouvinte. O fato é que isso vem sendo pauta de discussão da famosa “guerra dos sons” que as gravadoras vem travando, deixando a música cada vez mais alta, artificial, menos autêntica e mais danosa aos ouvidos. Veja no vídeo a seguir uma interessante explicação sobre essa “Loudness War”.

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Auto-Tune: Um Passo Pra Trás No Mundo da Música

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Nenhum modo melhor de começar esse tópico do que explicando o que é, de fato, o Auto-Tune. Bem, o Auto-Tune é um programa que “ajuda” cantores a chegar ao tom certo, lançado em 1997 pela empresa Antares. Seu uso pode ser desde discreto – com o objetivo de enganar o ouvinte escondendo notas erradas e desafinações – ou como um efeito ostensivo, como você costuma ver nas vozes do Daft Punk ou do Black Eyed Peas. O programa foi reconhecido pelo mundo em 1998, quando Cher o usou pela primeira vez na canção Believe (o que rendeu ao aplicativo o apelido de “Efeito Cher”). Um ano depois, Britney Spears lançava o hit que a faria se tornar uma estrela, além de uma das maiores usuárias do Auto-Tune. Além da cantora, muitos outros artistas já passaram vergonha interpretando canções ao vivo sem essa “ajudinha” e demonstrando como são péssimos cantores. A lista de “trapaceiros” sem dons vocais que se beneficiaram dele é enorme, entre eles estão Ke$ha, Katy Perry, Justin Bieber e muitos outros que mostraram o quanto são incapazes de se apresentar dignamente ao vivo.

Esse tema atingiu proporções épicas desde que uma adolescente chamada Rebecca Black totalmente desprovida de talento musical lançou em 2011 aquele que pode ser chamado de um dos piores hits da história, abusando ao máximo do programa. Uma verdadeira piada pronta. Involuntariamente, Rebecca fez uma sátira aos rumos que a música pop tomava.

O mais triste da indústria musical é que ela vem tentando enganar seus consumidores e transformando os artistas em produtos facilmente controláveis. Seja Myley Cyrus que possui um timbre de voz totalmente diferente de sua gravação de Party In The U.S.A. (confira a versão ao vivo, aqui) ou Lady Gaga e Rihanna, que precisam recorrer a playback pra cantar algumas músicas em seus shows visto que suas vozes foram totalmente editadas nessas faixas do estúdio. Vale ressaltar que ambas as cantoras possuem talento vocal, o problema é que viraram brinquedos da indústria.

Isso porque estamos falando de cantores e Auto-Tune. Se expandirmos um pouco mais essa discussão podemos falar de alguns DJs “malandros” da música pop. Apenas pra citar um exemplo: David Guetta. É triste ver como pessoas desembolsam muito pra assistir a apresentações de DJs que simplesmente sobem ao palco e deixam sua playlist tocar. David não possui nenhum processo criativo ou conquista musical de que mereça verdadeiros méritos. O DJ já passou vexames por isso, como em sua apresentação em Recife, onde esbarrou em seu suposto pen drive com o repertório de músicas do show, sem nenhuma interferência ou mixagens feitas por David ao vivo. O resultado foi que a apresentação parou e o DJ sumiu do palco procurando seu pen drive. Vale afirmar que existem muitos DJs de qualidade, entretanto, muitas farsas também. E, definitivamente, David Guetta é uma delas.

Importante dizer que atualmente existem diversos programas com a mesma finalidade do Auto-Tune, além de outros que facilitam demais a vida do músico, como Pro-Tools e o recente ATG-6, um Auto-Tune pra guitarras (sim, existe até isso). Confira abaixo uma matéria internacional sobre o funcionamento do Auto-Tune e um vídeo sobre alguns artistas que precisam e artistas que não precisam do programa (vale dizer que sempre depende da canção).

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O mercado e sua demanda

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Lembra quando falei acima que o que uma cantora pop mais precisa atualmente é ser sexy, jovem e polêmica? Bem, vamos analisar o mercado por esse ponto de vista. Lá nos anos 80, a rainha do pop já era ousada dançando sensualmente com santos e aprontando outras polêmicas mais. E isso não mudou nesse aspecto, mas pelo contrário, se intensificou. Pare pra pensar nas últimas cantoras pop a dominarem o mercado e nas polêmicas que provocaram. Tudo bem, vamos limitar um curto período e analisá-lo. Esqueça Britney Spears, Lindsey Lohan, entre outras, e vamos analisar apenas cantoras que surgiram nos últimos 5 anos.

Vamos começar com Lady Gaga. A cantora surgiu com ideias um tanto interessantes, mas errou apresentando um pop que só era novo no papel, pois na prática vinha seguindo o mesmo fluxo e mesma sonoridade. A verdade é que a cantora se tornou muito mais famosa por suas bizarrices (quem vai se esquecer daquela roupa de carne?) e polêmicas do que por alguma mudança no pop, algo que de fato não existiu (Gaga possui as mesmas características de outras cantoras pop). Pegue a imagem de Lady Gaga nesse seu auge e segure por um momento.

Acho que a próxima que poderíamos falar é Myley Cyrus. O que passou na cabeça da ex-Hannah Montana é uma pergunta que permeia a mente de todos, penso eu. O truque que a cantora usou em 2013 pra atrair os holofotes ao lançar seu quarto álbum é um dos fatos mais embaraçosos do gênero. Todo um falso visual bad ass, clipes onde se encontra nua, performance mais que bizarra no MTV Awards, além de discursos mais que polêmicos foram as cartadas da cantora pra se manter na mídia sem que o público desse atenção a sua péssima música. Isso te lembra algo do parágrafo acima?

Agora vamos para o recente 2014. Taylor Swift – a queridinha do pop country – resolveu mudar também! Mas que coincidência! Taylor usou a mesma estratégia de marketing pra divulgar seu álbum, 1989, bancando a menina má e se tornando mais uma cópia de um modelo de pop. Hoje, Taylor Swift não apresenta nada que a diferencie do resto do pop fabricado. Por sorte, a menina tem bom senso e não entra em polêmicas como as anteriormente citadas, conseguindo se destacar com suas músicas até mais que a maioria do cenário atual.

Entre outras palavras, o mercado tem uma demanda a suprir, visto que o retorno vem sendo grande e todos esses artistas vem vendendo milhões e parando no topo da Billboard. Também não se engane culpando apenas os artistas, os verdadeiros vilões aqui são as gravadoras, que verdadeiramente ditam as ordens do mercado (que, por sinal, somos nós que consumimos).

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Existe salvação?

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É preciso ressaltar que existe muita coisa boa no mercado pop, basta procurar e usar discernimento. Um ponto importante a se tratar é que a industria vem buscando recuperar sonoridades de anos dourados da música. Um dos grandes exemplos é o Random Access Memories do Daft Punk que fez a leva no Grammy de 2014. O álbum é uma visita retrô ao soul e dance music da década de 70 e 80. Esse passo dado pela dupla francesa fez com que muitos outros DJs como Duck Sauce e Mark Ronson embarcassem na mesma vibe retrô e ainda inserindo com estilos mais modernos da música pop eletrônica, oxigenando bastante o estilo. Isso sem contar artistas do mainstream como Justin Timberlake e Kanye West que já vinham fazendo isso e não deixam morrer a melhor sonoridade do pop.

Quanto as divas do pop, sim, existe muita coisa boa que o público poderia dar mais atenção. Seja La Roux com seu synthpop com uma aura que moderniza o melhor do pop oitentista de Madonna, as irmãs californianas do Haim e seu excelente indie pop (que poderiam servir de modelo pra girlbands)o soul com tonalidade pop da sempre sensacional Adele, a voz impecável de Beyoncé, ou o pop genuíno e simples de Sara Bareilles.

A música modernizou, e isso trouxe muita coisa boa, mas também um lado ruim que parece se sobressair mais. Isso é parte da deturpação da arte como um todo, que vem sofrendo em suas demais áreas. Em uma sociedade onde o dinheiro passou a valer mais que originalidade e autenticidade, a coisa ficou difícil de fluir. Mudanças estão acontecendo, quem sabe a situação não fica melhor no futuro? O grande ponto é que, por enquanto, a culpa é de todos nós que mantemos essa indústria, você querendo ou não.

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.