Sagas DC | A Guerra Darkseid [Como o Universo chegou à fase “DC: Renascimento”]

estrelas 3

SPOILERS!

A Guerra Darkseid (2015 – 2016), saga envolvendo os números #40 a 50 + 7 tie-ins (Batman, Superman, Flash, Lanterna, Shazam!, Lex e Especial) da Liga da Justiça Vol.2, foi um intrigante preparo da DC Comics para abrir as portas à nova fase da editora, denominada DC: Rebirth. A saga foi dividida em Prólogo + Ato 1 (edições #40 a 44); Ato 2 (edições #45 e 46 + os 6 tie-ins de personagens); Ato 3 (edições #47 e 48 + tie-in Especial) e Conclusão (edições #49 e 50). Famosa por fazer uma importante revelação sobre a identidade do Coringa — não o nome, como muito se alardeou pela internet afora — e fazer nascer um Darkseid II, após a morte do primeiro, esta saga ajustou algumas coisas no Universo para que uma geração de antigos e novos personagens e também de algumas realidades se adequassem à novíssima linha corrente da Casa das Sombras. E tudo foi muito épico e emocionante, mas, sinceramente, não muito diferente daquilo a que já estamos acostumados desde Crise nas Infinitas Terras.

Ω

Ponto-Ômega #1: Há referências a todas as Sagas da DC Comics já no Prólogo da história. Elas partem de uma fala de Metron, que nos relembra da lufada de antimatéria que varreu todos os Universos da DC em Crise nas Infinitas Terras. O discurso dá conta de que o Universo nasce, morre e renasce periodicamente. Outras crises são utilizadas como exemplo por ele para exemplificar isso: Zero Hora, Crise Infinita, Crise FinalPonto de Ignição e, mais recentemente, Convergência. Sobre essa última crise, ela não é mostrada como algo estabelecido, mas como ocorrência paralela, pois quando a edição #40 foi lançada, Convergência ainda era publicada. Este é o “medo” de Metron: esse Universo está “novo demais” para suportar outra crise. Ele tem que intervir.

Um Superman negro após ressurgir dos fornos de Apokolips, onde foi "recarregado, por sugestão de Luthor.

Um Superman negro após ressurgir dos fornos de Apokolips, onde foi “recarregado, por sugestão de Luthor.

O título da aventura já deixa qualquer leitor em estado de atenção e dá a entender uma grande guerra capaz de mexer com as engrenagens do Universo, afinal, estamos falando de Darkseid. E para ser sincero, não existe absolutamente nenhum mistério ou dificuldade no estabelecimento da guerra, logo no início do Ato 1. As coisas ficam um pouco nubladas no Prólogo, quando são apresentados Darkseid e Anti-Monitor (Mobius) e também o primeiro motivo para a guerra, mas não demora muito e tudo se ajusta bem.

Já nesse início, colocamos um pé atrás em relação ao motor da guerra. Quando olhamos para o evento no todo, a impressão é que vimos uma “guerra por pouca coisa” ou por ego/incapacidade de solidão por parte de Metron, que não consegue ficar “sem observar nada”. Mas o problema não está só nesse olhar para o todo. Fica difícil não pensar que toda a trama erguida por Geoff Johns é mais ou menos um “muito barulho por nada“, porque seus efeitos estão aquém do que uma guerra desse tipo normalmente geraria. Metron se mete onde não deve; propõe um acordo para trocar os primogênitos de Nova Gênese e Apokolips; a troca não impede a guerra; rancores e medos construídos ao longo das décadas coloca filhos, irmãos e servos em uma busca por vingança e por diversos objetivos, que vão se ajustando ao longo da história.

Ω

Ponto-Ômega #2: O atrativo central da saga é a luta entre essas duas forças colossais do Universo. A questão é que não se trata de uma luta honesta e existe forte caráter de anticlímax (acredite) quando chegamos ao final do Ato 1. Isso gera algo que abordarei dentro de um contexto maior e mais brevemente logo a seguir, mas os membros da Liga e uma vilã em específico têm suas vidas reformuladas como consequências imediatas dessa luta. Desse modo:

  1. Batman se torna do Deus do Conhecimento;
  2. Superman se torna o Deus da Força;
  3. Flash se funde ao Corredor Negro, um dos Novos Deuses (e fica com um uniforme preto sensacional!) e se torna o Deus da Morte;
  4. Shazam perde contato com os deuses antigos e é conectado aos novos, tornando-se o Deus dos Deuses;
  5. Lex Luthor recebe os raios-ômega de Darkseid e se torna o Deus de Apokolips;
  6. Hal Jordan absorve as formas de Oa e se torna o Deus da Luz;
  7. Graal, uma das vilãs da história, filha de Darkseid, absorve a Equação Anti-Vida quando é extraída do Anti-Monitor e se torna Deusa da Anti-Vida.
Darkseid e Anti-Motor lutando. Um deles sairá morto...

Darkseid e Anti-Monitor lutando. Um deles sairá morto daí…

Quanto à última observação, não se trata necessariamente de uma falha. Geoff Johns entende perfeitamente que precisa dar espaço para cada um membro da Liga da Justiça e consegue guiar satisfatoriamente uma história em vários blocos; histórias que, por sua vez, terão objetivos próprios. O impasse em relação a isso não está nesse fio de dinâmica narrativa. Não há outra forma de escrever uma história da Liga que não a forma episódica ou semi-episódica. O problema é que o texto gira constantemente em torno de um “motivo para a guerra” que, na verdade, nunca se fixa.

Nós entendemos que cada uma das facções em luta (e são muitas, é preciso ler com atenção para não se perder) quer uma coisa para si — embora o objetivo principal seja o domínio da Equação Anti-Vida, por motivos óbvios — e também entendemos que cada um age sob um parâmetro ético, moral, político e até social específicos. Ainda aqui, temos expostos princípios de anarquismo, de revolução popular, de discussão problematizada sobre pacifismo e belicismo. Mas parece que mesmo sabendo e entendendo todas essas referências externas e os motivos de cada grupo para adotá-las, o roteiro roda como um cachorro atrás do rabo tentando alcançar os “porquês definitivos da contenda”, o que justifica ainda mais a fragilidade da proposta e a sua também frágil defesa completa. Para uma saga que pretende polir a chave que abrirá as portas de uma nova era, adotar um motivo e desenvolvimento menos intricados e menos “atira-para-todos-os-lados” seria mais interessante, até porque o Universo Final aqui nem é tão diferente daquele que era antes de tudo começar…

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Ponto-Ômega #3: Há uma [quase?] história de origem para o Anti-Monitor, que na verdade se chama Mobius e que criou a cadeira de Metron (desde a edição #41, usada pelo Batman). Este é um dos pontos fracos da história, porque perde uma oportunidade de ouro para trazer com maiores detalhes e real importância para a saga essa origem de peso… Como já dito anteriormente, a Equação Anti-Vida é retirada do Anti-Monitor em dado ponto da história e ele “renasce” apenas como Mobius.

Um Deus morre, o Universo abre vagas para outros Deuses. E nesta saga, nossos heróis se tornam "deuses de alguma coisa" por um breve período de tempo.

Quando um Deus morre, o Universo abre vagas para outros Deuses. Nesta saga, nossos heróis se tornam “deuses de alguma coisa” por um breve período de tempo.

Na edição #41 ocorre um dos eventos mais inusitados da saga (e que gerou sorrisos de cumplicidade meio escrachada em batmaníacos de plantão), que foi  a posse do Batman da Cadeira de Mobius, que já na edição seguinte dirá a ele um segredo sobre o Coringa (no número #50 sabemos que a Cadeira afirmou haver 3 Coringas, não apenas um!) e que fará do Morcegão um Deus do Conhecimento. Ao longo da guerra, assim que Darkseid morre, o Universo precisa se reajustar, então brechas são abertas e certos espaços são preenchidos pelo “caos da ordem natural“, então, alguns heróis se tornam deuses na história. O efeito vale apenas por algumas edições, mas acontece e chega até ter sua importância para o enfrentamento dos vilões, todavia, a proposta é forçada, assim como boa parte de todo o aparato épico da trama… A história e seu desenvolvimento são bem enredados, possui bons temas paralelos, criam novas possibilidades no Universo, mas simplesmente deixam no leitor a incômoda sensação de estar lendo pela terceira ou quarta vez a mesma coisa. E mesmo assim, a incompletude permanece…

Da arte, o público não vai se decepcionar em nenhum momento. A primeira edição da saga e o Ato 1 possuem uma arte grandiosa, que se aproveita bastante das páginas duplas e batalhas para seus melhores momentos de representação. Mas é no miolo da saga, justamente quando o roteiro apresenta os melhores envolvimentos em consequência da primeira fase da guerra, que encontramos o esplêndido trabalho de Francis Manapul… aí, meus caros, a coisa muda de figura. É maravilhoso como o artista consegue criar uma diagramação inteligentíssima, alternando dimensão e ritmo interno dos desenhos (cenas de lutas são poucas, sob seu lápis, mas todas incríveis) e com finalização que faz este ser o melhor momento da arte de toda a saga, mesmo sem a tag épica que está nas outras edições, também interessantes, mas não tão artisticamente belas. Ainda vale citar que o trabalho de letras de Rob Leigh é ótimo em toda a jornada e que a equipe de coloração faz um trabalho exemplar, com maior destaque para as cenas no Espaço e durante as lutas.

Doutor Manhattan, é você?

Dr. Manhattan, é você?

Há uma certa controvérsia sobre o final da Guera. À primeira vista, tudo parece ter voltado ao ponto que era antes, salvo pequenas “involuções” (Darkseid renasceu, cresceu mas voltou a ser bebê de novo e agora vai ser criado como pai, pela própria filha) e pontas soltas que nos levam diretamente para Rebirth. É na edição #50 que praticamente todas as informações necessárias para entrar na nova fase da DC estão expostas, especialmente no final, quando o Coruja do Sindicato do Crime, que havia fugido da Terra com a Cadeira de Mobius depois desta de ter sido deixada por Batman (a muito custo), é destronado com sangue pelo Dr. Manhattan, que não aparece, mas sabemos ser ele que faz aquilo com o Coruja (ironia, não?). Visto unicamente por este ponto, A Guerra Darkseid é apenas um capricho que poderia ser resumido em uma única edição Especial. Claro que esta visão é simplista, porque a saga acaba estabelecendo, em seu miolo, novos objetivos e revelações (estou particularmente intrigado com o irmão gêmeo da Mulher Maravilha e as “mentiras da ilha”) e novos personagens também, como Jessica Cruz, ex-Anel Energético, sendo escolhida como mais uma Lanterna Verde para este setor do Universo; mas o que de fato é importante para DC: Rebirth está na conclusão. E nem preciso dizer que os tie-ins dessa saga são um luxo desnecessário, não é mesmo?

Uma coisa é certa: não há reboot anterior ao Renascimento. Houveram alguns ajustes, mas o Universo continua [quase] o mesmo. O que A Guerra Darkseid faz é abrir com maior facilidade algumas portas para que o leitor entre facilmente nesta nova era que já chegou para a DC Comics.

Liga da Justiça #40 a 50: A Guerra Darkseid – Novos 52 (Justice League: Darkseid War – New 52) — EUA, junho de 2015 — maio de 2016
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Kevin Maguire, Phil Jimenez, Dan Jurgens, Jerry Ordway, Scott Kolins, Jason Fabok, Jim Lee, Francis Manapul
Arte-final: Kevin Maguire, Phil Jimenez, Jerry Ordway, Scott Kolins, Jason Fabok, Scott Williams, Francis Manapul
Cores: Brad Anderson, Alex Sinclair, Francis Manapul, Brian Buccellato
Letras: Rob Leigh
Capas: Jason Fabok, Brad Anderson, Jaime Mendoza, Francis Manapul
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.