Sagas DC | Crise de Identidade

PLANO CRITICO CRISE DE IDENTIDADE LIGA DA JUSTIÇA

Qualquer um que coloque um uniforme está desenhando um alvo no peito de sua família.

Ralph Dibny

Crise de identidade é o tipo de saga que exige um grande controle emocional do leitor. Escrita pelo romancista Brad Meltzer, a aventura tem uma estrutura familiar e moral que tira os mega problemas da Liga da Justiça de cena — todos o grandes eventos a que o público estava acostumado na época, essencialmente pelas tramas da série LJA Vol.1 — colocando os heróis em um thriller que tem como alvo as pessoas queridas dos medalhões e reservas da famosa equipe. O autor usa o mote de roteiros pensados a longo prazo, com cliffhangers poderosos e colocados em um momento onde a história realmente tinha o seu máximo ponto naquela parte. Uma construção que vemos atingir diferentes nuances ao longo das sete edições e que apenas para alguns leitores pode ter um ponto anticlimático de forte peso negativo, com a revelação de quem é o verdadeiro vilão que os heróis tanto procuram.

Basicamente temos o seguinte: Sue Dibny, membro honorário da Liga, pessoa muito querida de todos e esposa de Ralph Dibny, o Homem Elástico, é assassinada em casa. Inicialmente observamos Elástico e Águia Flamejante fazendo uma patrulha noturna em Opal City. É um dia especial, parte de uma dinâmica e surpresa que Sue faz todos os anos, em datas diferentes, para surpreender o marido no dia de seu aniversário. Cuidadosamente, o roteiro empreende um diálogo entre os patrulheiros e usa um baita McGuffin para nos desviar a atenção. Como a escrita de Meltzer é extremamente focada, vemos pequenas coisas acontecerem ao longo do processo até que, de diferentes veredas narrativas, os eventos rumam para um sentido único e se chocam no momento da tragédia.

Já no final da primeira edição temos uma bela e triste representação familiar diante da morte (o presente que Sue coloca na caixa e diz que “nem Sherlock Holmes descobriria” é de arrancar lágrimas); a primeira indicação de união por parte dos vilões, entre amedrontados e excitados pela possibilidade de uma caçada cega dos heróis; e uma pequena “separação de caminhos” com a parte dois da Liga se unindo para ir atrás de um suspeito diante do qual eles dividem um segredo que fere a moral e a aética de suas personas heroicas e a confiança dos Sete Grandes, especialmente de Kal e Bruce. Estão nesse time o Arqueiro Verde (que do meio da primeira edição para frente assume a narração dos fatos e Meltzer dá a ele “A” voz, como a de um analista centrado, pragmático e, quando necessário, humano o bastante para passar diferentes sentimentos e sugestões para o leitor), Canário Negro, Zatanna, Gavião Negro, Lanterna Verde (Kyle) e o próprio Homem Elástico. Por desconfiança, Flash (Wally) acaba também entrando no grupo, mas ele é alheio ao segredo dos outros, revelado parcialmente na edição #2.

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O emocionante funeral de Sue Dibny.

Utilizando da loucura comportamental da nona arte herdada da década de 90, Meltzer cria uma investigação que, a priori, colocaria esta saga como uma simples “história do Batman“. Os elementos de maldade humana, violência urbana e crescimento da psicopatia em torno dos indivíduos estão aqui. O estupro, a violência contra a mulher (há até indicação do caso Barbara Gordon em A Piada Mortal) e uma série de mortes e momentos densos dos quadrinhos da DC Comics são citados ainda nos três primeiros atos, aumentando fortemente o desespero dos envolvidos e dando para o leitor um senso de urgência perfeitamente arquitetado, não conseguido por explosão, lutas épicas contra gigantes e invasões extraterrestres mas por um fator banal (a ação humana, com traços de serial killer) que à medida que nem os melhores dentre os melhores conseguem descobrir quem é, dá espaço para ações instintivas de quase todos. E como sempre, nesses casos, condenações do passado acabam vindo à tona.

Fora o “arroz de festa” da DC, que é a constante citação da morte de Martha e Thomas Wayne, uma lista de mortes icônicas entram como itens emocionais para diferentes heróis no decorrer da Crise, especialmente quando ações contestáveis encontram-se com a seguinte frase: “fizemos isto apenas para proteger as pessoas que amamos“. Dentre as memórias solenes (e isso, fora as perdas da própria saga) estão as mortes de…

  1. Aquababy, pelas mãos do Arraia Negra (Adventure Comics #452);
  2. Raposa Escarlate I e II (Vivian e Constance D’Aramis), pelas mãos de Maurice Puanteur e Névoa II (Nash), respectivamente (Justice League America Vol.1 #104 e Starman Vol.2 #38);
  3. Flash (Barry), durante Crise nas Infinitas Terras — embora ele depois retorne em Crise Final;
  4. Arqueiro Verde (Oliver), em uma explosão aérea (Green Arrow Vol.2 #101) — embora depois ele volte, em Green Arrow Vol.3 #1;
  5. Lanterna Verde (Hal, como Parallax), sacrificando-se no crossover A Noite Final — embora depois ele tenha assumido o manto do Espectro e apareça aqui para conversar um pouco com o melhor amigo. Eventualmente ele acaba voltando na minissérie Green Lantern: Rebirth (2004 – 2005);
  6. Joanna Pierce (sobrinha do Raio Negro e ex-casinho de Oliver), pelas mãos do mercenário Constantine Drakon (Green Arrow Vol.3 #30);
  7. John e Mary Grayson, pelas mãos de Anthony Gordo Zucco (Detective Comics Vol.1 #38);
  8. K’hym J’onzz, em Marte (Martian Manhunter Vol.1 #3)
  9. Sindella Zatara, sacrificando-se para destruir um poderoso artefato mágico (Justice League of America Vol.1 #165);
  10. Superman, pelas mãos de Apocalypse (Superman Vol.2 #75) — embora ele tenha voltado em Superman: Man of Steel Vol.1 #25.
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A Liga da Justiça em sua versão “tática, fel e desejo de vingança”.

A arte de Rags Morales e a finalização de Michael Bair seguem a linha do realismo pautado por exageros, especialmente nos rostos dos heróis e vilões. Como o roteiro realiza um brilhante trabalho de contextualização dos bandidos aqui, dando motivações sólidas e fechando todas as portas centrais que os envolvem e à Liga reserva mais os times aliados na caça ao assassino, coube aos artistas transmitir essa atmosfera de perturbação psicológica. A finalização é um pouco suja, com traços fortes e algumas hachuras marcando contornos e sombras nos fazem mergulhar neste Universo ainda mais facilmente e a coloração, a cargo de Alex Sinclair, termina o trabalho com paletas majoritariamente frias. Também é importante destacar que por ser esta uma saga de conteúdo bastante pessoal, há um destaque grande para os primeiros planos e, nessas ocasiões, alguns leitores podem achar estranhas as expressões dos heróis (meio bobas ou deformadas, por assim dizer), mas notem que o foco aqui é o destaque às emoções e a gente sabe que as feições de qualquer um, super-herói ou não, mudam quando há muita coisa à flor da pele para ser processada.

É bem difícil um leitor não se emocionar ao menos uma vez ao longo de Crise de Identidade. E a questão não vem apenas com uma fácil “novela de lágrimas”, intencionalmente sentimental mas sem algo que vá além disso. Não. A saga passa por conflitos familiares e de geração, mostra o lado não tão elogiável dos heróis e abre espaço para uma longa discussão a respeito do segredo que guardaram por muito tempo, após o estupro de Sue pelo Doutor Luz. Afinal, é lícito que usem de magia para apagar memória ou concertar a personalidade de alguém? Lembremos que a primeira vez que isso acontece na história do grupo é em Superexilados da Terra!, uma história de 1963 onde eles revelam as suas identidades secretas e o grupo também descobre quem são mas, no final, Superman usa Amnesium para apagar a memória dele, dos colegas e também das pessoas que de alguma forma os viram. Ou seja, o conceito não é novo para a equipe mas aqui é colocado em pé de guerra e com os heróis já com muita coisa para defender e entender.

E então temos as resoluções finais. Como já citado, o autor não apenas adiciona mortes passadas mas também cria outras, além da morte de Sue que iniciou todo o inferno investigativo, criando um mistério meio Agatha Christie, meio Georges Simenon, ora elencando unicamente coisas triviais e daí tirando a essência que torna a história boa, ora finalizando alguns blocos com todo o vigor possível e, nesses casos, com direito a batalhas icônicas, como aquela contra o Exterminador ou no uso do Capitão Bumerangue na história.

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Uma aulinha básica de narrativa visual, com a chegada do Eléktron para um dramático resgate.

Como o foco se manteve nas grandezas e baixezas humanas, seria incoerente da parte do autor se o vilão tivesse uma justificativa megalomaníaca para agir ou se fosse alguém fora desse grupo de pessoas. Entendo perfeitamente os leitores que enxergam a finalização da saga com uma pitada de anticlímax, mas na minha visão a escolha não poderia ser melhor, do ponto de vista narrativo (ocultar um personagem todo esse tempo foi algo bem pensado ao longo do enredo, por isso o resultado final deveria condizer com a dificuldade de os heróis encontrarem o assassino… deveria ser alguém “de dentro”!), do ponto de vista simbólico (uma ex-esposa louca dá início a um efeito-dominó onde membros centrais de diversas famílias irão morrer) e do ponto de vista da proposta central da Crise, que é a relevância da camada existencialista do homem, exatamente o tipo de análise final para a qual nos leva a história.

Até o epílogo tem o tom correto de tratar grandes dores para diferentes pessoas. O tempo é colocado como um remédio que age de maneira distinta em relação à morte e ao difícil processo de aceitação e superação daqueles que ficam. A crise de identidade aqui também é em relação ao próprio espírito heroico, que passa por reajustes de confiança e, após muitos julgamentos e (novamente) tempo para processar determinadas informações, o entendimento se faz. Alguns heróis ouvem e descobrem o que querem ouvir e descobrir. A vida segue.

Com um lirismo doloroso, mas realista, a saga termina nos mostrando que não importa em qual Universo estejamos, a fuga de um presente caótico, mesmo que seja no faz-de-conta, é um remédio essencial para se acostumar com os enormes vendavais de uma nova era e com a ressaca da era que terminou. Quando utilizada em doses certas, a fuga nos faz lidar melhor com a dor. Até que a ferida sare e só restem mesmo as cicatrizes… memórias de um momento de crise que moldou, para sempre, a nossa identidade.

Crise de Identidade (Identity Crisis) — EUA, 2004
No Brasil:
Panini (de forma serial, entre 2005 e 2006 e em encadernado, em 2007)
Roteiro: Brad Meltzer
Arte: Rags Morales
Arte-final: Michael Bair
Cores: Alex Sinclair
Letras: Ken Lopez
Capas: Michael Turner, Peter Steigerwald, Aspen Studios
Editoria: Mike Carlin, Valerie D’Orazio
42 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.