Sagas Marvel | Desafio Infinito

estrelas 3,5

Sei que é covardia comparar Desafio Infinito com Guerras Secretas e Guerras Secretas II, mas é inevitável em vista dos pontos de convergência entre essas sagas. Primeiro, Desafio Infinito, publicada em 1991, é, em termos cronológicos, a saga imediatamente posterior a Guerras Secretas II. Houve crossovers e eventos entre uma coisa e outra, mas saga mesmo, no conceito exato da palavra, só mesmo Desafio Infinito.  Além disso, de uma maneira ou de outra, tanto as duas Guerras Secretas oitentistas como Desafio Infinito tratam de poder absoluto, que pode fazer tudo que seu controlador imaginar, ou seja, a temática é substancialmente a mesma, ainda que, claro, as formas de execução tenham sido diferentes.

E é justamente na forma de execução que é covardia comparar Desafio Infinito com as duas Guerras Secretas clássicas.

E o grande diferencial está na preparação. Apesar da saga ser auto-contida, ou seja, ter sido publicada em seis edições com o título Desafio Infinito, além dos inevitáveis, mas não muito intrusivos tie-ins, ela, na verdade, começou antes, no longevo volume 3 da publicação solo do Surfista Prateado, com o arco conhecido como A Ressurreição de Thanos e, depois, uma minissérie de dois números intitulada Thanos: Em Busca de Poder, todos publicados em 1990. Isso deveu-se ao fato que Tom DeFalco, então editor-chefe da Marvel Comics, percebeu em Thanos uma espécie de galinha dos ovos de ouro (ou de joias do infinito…), encomendando a Jim Starlin, que foi convidado a voltar ao personagem que criara em 1973 em O Invencível Homem de Ferro #55, depois de usá-lo em dois mega crossovers (antes do conceito de saga existir e atrapalhar um bocado as linhas editoriais) que colocavam o Titã Louco contra os Vingadores, a primeira tendo o Capitão Marvel original como pivô e a segunda, tendo Adam Warlock como foco. Ainda que a leitura dessas publicações anteriores seja altamente recomendada, por oferecerem o estofo necessário para apreciarmos mais amplamente o trabalho que vemos fluir na saga, nenhuma delas é realmente essencial ao entendimento de Desafio Infinito.

Mesmo assim, porém, em mão menos preparadas, Desafio Infinito poderia facilmente descambar para pancadaria descerebrada. Quem conhece Jim Starlin em seu auge de carreira, que inclui não apenas a criação de Thanos, mas também a do espetacular Dreadstar, sabe que, mesmo com seus defeitos, ele é tudo menos despreparado, ainda que lidando com uma linha narrativa que, como fica claro desde o começo, não poderia ter consequências duradouras para o Universo Marvel. Starlin dá propósito a Thanos, que, ao longo de Em Busca de Poder e ao mesmo tempo traindo e agradando sua amante, a Morte, reúne as joias do infinito na Manopla do Infinito para dominar o universo e entregar oferendas à sua amada. Com esse poder, ele se torna onipotente e faz o que quiser com literalmente um mero estalar de dedos. Basicamente impossível derrotar alguém assim, não é mesmo?

No entanto, é aí que vem a filosofia de Starlin, que passa a lidar com as verdadeiras intenções de Thanos, intenções essas que não são nem conhecidas pelo próprio Titã enlouquecido. É necessário a interferência de Adam Warlock, residente da joia da alma e que ressuscita nesta saga, cumprindo seu papel messiânico, para que tudo se encaixe em seus lugares. Warlock é tratado como o planejador-chefe, que sempre sabe de tudo, convence a todos, mas nunca interfere a não ser no último segundo. É muito interessante ver seus diálogos crípticos com o Surfista Prateado que literalmente não tem escolha se não auxiliá-lo.

Aliás, é com o Surfista que a história começa, quando ele cai na sanctum santorum do Doutor Estranho e cumpre seu papel original de arauto, anunciando que Thanos está chegando. Usando a linha narrativa estabelecida em A Ressurreição de Thanos e Em Busca de Poder, Thanos quer cumprir sua missão, para deixar a Morte feliz (uma contradição em termos?), de aniquilar metade dos seres vivos do universo. Simples assim. Com isso, os dois primeiros números da saga lidam exatamente com as consequências desse ato, com heróis sumindo, guerras intergaláticas começando (os Kree e os Skrull desconfiam uns dos outros, claro) e com os heróis remanescentes tentando entender o que está acontecendo. Quando todos eles e mais o Doutor Destino (com suas próprias intenções escusas, claro) são reunidos sob o comando de Warlock, a luta cósmica então começa.

Starlin, usa os três números seguintes para focar nas mais variadas lutas contra Thanos, desde ataques poderosos do Hulk, Drax, Thor (Eric Masterson, não Odinson), Quasar e Senhor do Fogo até ataques menos potentes como os do Capitão América, Cíclope e Wolverine (os dois últimos foram os únicos mutantes “autorizados” a participar pelo editor dos X-Men à época). Os heróis que conhecemos são meros coadjuvantes nessa saga cósmica e não poderia ser diferente, pois uma congregação dos seres “mais extremamente” poderosos do Universo Marvel é convocada: Eternidade, Cronos, o Tribunal Vivo, Galactus, as irmãs Amor e Raiva, Estranho, Lorde Caos e Mestre Ordem. Diante dessa magnitude, quem é o Capitão América e seu escudo colorido?

Assim, diante da dimensão do que vemos, não esperem de Desafio Infinito nada que vá lidar com aspectos psicológicos dos heróis comuns. A saga é muito mais ampla e abrangente, além de extremamente ambiciosa. Dá a impressão que os heróis menos poderosos do que algo alguém como a Fênix estão lá apenas para justificar o selo Marvel na publicação e não muito mais do que isso.

Apesar dos pesares, o trabalho de Starlin funciona muito bem, ainda que ele teime em repetir por vezes demais os mais diversos embates e narrar as estratégias de cada grupo desnecessariamente usando Eros (irmão de Thanos) e Uatu (o Vigia), além de exagerar nos segredos e mistérios de Adam Warlock justamente para ampliar a quantidade de páginas. O acerto de Starlin está na preparação que descrevi, dando relevância à loucura de Thanos, como também na brilhante explicação para as seguidas derrotas do Titã pelas mãos de seus inimigos. Aí sim o embate psicológico acontece de forma satisfatória, envelopando um final muito interessante e, de certa forma, imprevisível. Além disso, Starlin faz um ótimo uso de sequências que pressagiam a terrível manipulação que Thanos faz em sua neta, Nebulosa, por intermédio de seu enquadramento ao longo de toda a narrativa (há menos surpresa para quem leu a revista solo do Surfista Prateado, porém).

Aliás, esse foco em Nebulosa é particularmente interessante graças ao cuidadoso trabalho de George Pérez na arte, sempre o mestre absoluto nos enquadramentos com quantidades colossais de personagens. Com uma atenção cinematográfica, ele consegue sempre deixar em algum lugar de seus planos gerais pistas para o que vai acontecer em seguida. É como um bom diretor de fotografia trabalhando em uma obra de arte. Aliás, que obras de arte são os quadros de Pérez! Diria que poucos artistas de quadrinhos são capazes de trabalhar tantos detalhes de tantos personagens em um mesmo quadro ou sucessão deles sem deixar tudo muito confuso ou mal acabado. E ele ainda tem tranquilidade para inovar na fusão de quadros e para focar em sua sucessão e composição. Em termos de desenhos, Desafio Infinito é irretocável, como fora seu trabalho na mega-saga Crise nas Infinitas Terras, da Distinta Concorrência.

Desafio Infinito, com sua preparação detalhada e execução inteligente, apesar de problemas de repetição e uma quantidade enorme de texto expositivo, satisfaz como uma grande saga cósmica da Marvel Comics e a primeira saga verdadeiramente boa da editora, considerando-se as duas tenebrosas Guerras Secretas. Apesar de ter poucas consequências duradouras, isso não pode ser visto como falha, pois pouquíssimas sagas as têm. Starlin, com isso, acerta mais uma, ainda que seu trabalho, aqui, já esteja aquém das outras vezes que lidou com Thanos em tamanha escala.

Desafio Infinito (Infinity Gauntlet, EUA)
Roteiro: Jim Starlin
Arte: George Pérez, Ron Lim
Cores: Max Scheele
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editora (no Brasil): Editora Abril
Lançamento (nos EUA): julho a dezembro de 1991
Lançamento (no Brasil): março a maio de 1995
Páginas: 238

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.