Sagas Marvel | Desafio Infinito

estrelas 3,5

Sei que é covardia comparar Desafio Infinito com Guerras Secretas e Guerras Secretas II, mas é inevitável em vista dos pontos de convergência entre essas sagas. Primeiro, Desafio Infinito, publicada em 1991, é, em termos cronológicos, a saga imediatamente posterior a Guerras Secretas II. Houve crossovers e eventos entre uma coisa e outra, mas saga mesmo, no conceito exato da palavra, só mesmo Desafio Infinito.  Além disso, de uma maneira ou de outra, tanto as duas Guerras Secretas como Desafio Infinito tratam de poder absoluto, que pode fazer tudo que seu controlador imaginar, ou seja, a temática é substancialmente a mesma, ainda que, claro, as formas de execução tenham sido diferentes.

E é justamente na forma de execução que é covardia comparar Desafio Infinito com as duas Guerras Secretas.

E o grande diferencial está na preparação. Apesar da saga ser auto-contida, ou seja, ter sido publicada em seis edições com o título Desafio Infinito, ela, na verdade, começou antes, na revista do Surfista Prateado (vol. 3, #34 a 38) e uma minissérie de dois números chamada The Thanos Quest (A Busca de Thanos), com publicações em 1990. Ainda que a leitura dessas publicações anteriores não sejam essenciais ao entendimento de Desafio Infinito, elas oferecem todo o estofo necessário para apreciarmos o trabalho que vemos fluir na saga.

Mesmo assim, porém, em mão menos preparadas, Desafio Infinito poderia facilmente descambar para pancadaria descerebrada. Jim Starlin, criador de Thanos e autor de Dreadstar, é tudo menos despreparado, mesmo lidando com uma linha narrativa que, como fica claro desde o começo, não poderia ter consequências duradouras para o Universo Marvel. Starlin dá propósito a Thanos, que, ao longo de The Thanos Quest e ao mesmo tempo traindo e agradando sua amante, a Morte, reúne as joias do infinito na Manopla do Infinito para dominar o universo e entregar oferendas à sua amada. Com esse poder, ele se torna onipotente e faz o que quiser com literalmente um mero estalar de dedos. Basicamente impossível derrotar alguém assim, não é mesmo?

No entanto, é aí que vem a filosofia de Starlin, que passa a lidar com as verdadeiras intenções de Thanos, intenções essas que não são nem conhecidas pelo próprio titã enlouquecido. É necessário a interferência de Adam Warlock, residente da joia da alma e que ressuscita nessa saga, para que tudo se encaixe em seus lugares. Warlock é tratado como o planejador-chefe, que sempre sabe de tudo, convence a todos, mas nunca interfere a não ser no último segundo. É muito interessante ver seus diálogos crípticos com o Surfista Prateado que literalmente não tem escolha se não auxiliá-lo.

Aliás, é com o Surfista que a história começa, quando ele cai na mansão do Doutor Estranho e diz que Thanos está chegando. Quase que literalmente ao mesmo tempo, Thanos resolve, para deixar a Morte feliz (uma contradição em termos?), matar metade dos seres vivos do universo. Simples assim. Com isso, os dois primeiros números da saga lidam exatamente com as consequências desse ato, com heróis sumindo, guerras intergaláticas começando (os Kree e os Skrull desconfiam uns dos outros, claro) e com os heróis remanescentes tentando entender o que está acontecendo. Quando todos eles e mais o Doutor Destino (com suas próprias intenções, claro) são reunidos sob o comando de Warlock, a luta cósmica então começa.

Starlin, usa os três números seguintes para focar nas mais variadas lutas contra Thanos, desde ataques poderosos do Hulk, Drax, Thor (Eric Masterson, não o Thor normal), Quasar e Firelord até ataques menos potentes como os de Cíclope, Capitão América e Wolverine. Os heróis que conhecemos são meros coadjuvantes nessa saga cósmica e não poderia ser diferente, pois uma congregação dos seres mais extremamente poderosos do Universo Marvel é convocada: Eternidade, Cronos, o Tribunal Vivo, Galactus, as irmãs Amor e Raiva, Estranho, Lord Caos e Mestre Ordem. Diante dessa magnitude, quem é o Capitão América?

Assim, diante da dimensão do que vemos, não esperem de Desafio Infinito nada que vá lidar com aspectos psicológicos dos heróis comuns. A saga é muito mais ampla e abrangente, além de extremamente ambiciosa. Dá a impressão que os “heróis comuns” estão lá apenas para justificar o selo Marvel na publicação.

Mas o trabalho de Starlin funciona muito bem, ainda que ele teime em repetir por vezes demais os mais diversos embates e narrar as estratégias de cada grupo desnecessariamente usando Eros (irmão de Thanos) e  Uatu (o Vigia), além de exagerar nos segredos de Adam Warlock justamente para ampliar a quantidade de páginas. O acerto de Starlin está na preparação que descrevi, dando relevância à loucura de Thanos, como também na brilhante explicação para as seguidas derrotas do titã nas mãos de seus inimigos. Aí sim o embate psicológico acontece de forma satisfatória, envelopando um final muito interessante e, de certa forma, imprevisível. Além disso, Starlin faz um ótimo uso de foreshadowing com a terrível manipulação que Thanos faz em sua neta, Nebula, por intermédio de seu enquadramento ao longo de toda a narrativa.

Aliás, esse foco em Nebula é particularmente interessante graças ao cuidadoso trabalho de George Pérez na arte. Com uma atenção cinematográfica, ele consegue sempre deixar em algum lugar de seus planos pistas para o que vai acontecer em seguida. É como um bom diretor de fotografia trabalhando em uma obra de arte. Aliás, que obras de arte são os quadros de Pérez! Diria que poucos artistas de quadrinhos são capazes de trabalhar tantos detalhes de tantos personagens em um mesmo quadro ou sucessão deles sem deixar tudo muito confuso ou mal acabado. E ele ainda tem tranquilidade para inovar na fusão de quadros e para focar em sua sucessão e composição. Em termos de desenhos, Desafio Infinito é irretocável.

Desafio Infinito, com sua preparação detalhada e execução inteligente, apesar de problemas de repetição e muito texto expositivo, satisfaz como uma grande saga cósmica da Marvel e a primeira saga verdadeiramente boa da editora, considerando-se as duas tenebrosas Guerras Secretas. Apesar de ter poucas consequências duradouras, isso não pode ser visto como falha, pois pouquíssimas sagas as têm. Starlin, com isso, acerta mais uma.

Leiam a crítica da continuação de Desafio Infinito, Guerra Infinita, aqui.

Desafio Infinito (Infinity Gauntlet, EUA)
Roteiro: Jim Starlin
Arte: George Pérez
Cores: Max Scheele
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editora (no Brasil): Editora Abril
Lançamento (nos EUA): julho a dezembro de 1991
Lançamento (no Brasil): março a maio de 1995
Páginas: 238

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.