Sagas Marvel | Guerra Civil II

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estrelas 1,5

Obs: Leia nossa crítica de Guerra Civil, aqui. Não há spoilers abaixo.

Brian Michael Bendis precisa de férias prolongadas. Seu gás criativo parece ter acabado, algo que já vinha se tornando evidente pelo menos desde Era de Ultron, de 2013, ainda que traços de fadiga mental já fossem detectáveis antes. Mas convenhamos, esse grande escritor ergueu quase que sozinho todo um universo paralelo na Marvel, o Universo Ultimate, capitaneando Ultimate Homem-Aranha por 111 edições seguidas juntamente com Mark Bagley, além de construir as fundações para as demais publicações, como Ultimate Quarteto Fantástico e Ultimate X-Men. E esse universo, apesar de não mais existir (oficialmente depois de Guerras Secretas), tornou-se a verdadeira base criativa para todo o Universo Cinematográfico Marvel e, de quebra, retroalimentou até mesmo o Universo Marvel comum, a chamada Terra-616, que ganhou novos e criativos sopros de vida.

Mas Bendis fez muito mais do que “apenas” o Universo Ultimate. Ele escreveu a mais do que fenomenal série Alias, que introduziu Jessica Jones à Marvel, além de ter feito parceria com Alex Maleev nas edições regulares do Demolidor  e do Cavaleiro da Lua, resultando em duas elogiadíssimas séries. E isso só arranha a superfície de todo o trabalho dele, pois, com Guerra Secreta (assim, no singular), em 2004, ele começou uma série de sagas encadeadas diretamente escritas por ele ou apenas coordenadas por ele (como foi o caso da incrível Guerra Civil original, escrita por Mark Millar) que vem sendo o mote da editora até hoje, para o mal ou para o bem.

E porque comecei com essa introdução sobre a carreira de Bendis na Marvel? Simples: Guerra Civil II é seu maior escorregão até agora. Aliás, escorregão é eufemismo. Trata-se de um daqueles tombos de rolar escada abaixo e pelo menos quebrar a clavícula. Uma saga forçada, mal ajambrada, mal escrita e que parece ter como únicas funções usar, de algum jeito, o título “Guerra Civil” no ano de lançamento da versão cinematográfica da saga original e inventar mortes de super-heróis importantes para vender mais, sem que haja qualquer evolução narrativa ou um mínimo de impacto dramático. Bendis, mesmo errando feio aqui, porém, ainda tem crédito, mesmo que minha sugestão de férias longas se mantenha.

Mas vamos à saga em si.

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Mais ou menos o que eu senti lendo a saga…

A premissa é basicamente a mesma trazida à lume por Philip K. Dick em O Relatório Minoritário, conto transformado em filme (Minority Report: A Nova Lei) por Steven Spielberg: se fosse possível prever crimes, seria legítimo proceder com ações preventivas contra os futuros criminosos? Confesso que a transposição do conceito para o mundo dos super-heróis chamou minha atenção, pois poderia realmente ser um questionamento moral válido com efetivo potencial de levar à uma nova cisão entre os personagens. E, de fato, é o que acontece. Logo na edição #0, somos apresentados a um exemplo prático sobre a “intenção de se cometer um crime” como um caso de tribunal em que Jennifer Walters, a Mulher-Hulk, defende um criminoso que conversara com agentes policiais infiltrados sobre o que ele gostaria de fazer. Essa é a forma didática pela qual Bendis escolhe iniciar sua discussão e ela funciona, abrindo as portas para o surgimento de um novo Inumano – Ulisses – com exatamente os poderes de previsão do futuro. Mais do que isso, na verdade: ele vive esse futuro e é capaz de projetá-lo na mente de terceiros, fazendo com que todos à sua volta vivam essas situações como ele.

Quando o primeiro número efetivo da saga começa, vemos todos os heróis enfrentando uma ameaça cósmica em comum em plena Nova York. A ação é rápida e bem-sucedida graças ao aviso prévio que haviam recebido de Medusa, rainha dos Inumanos. Quando Tony Stark e Carol Danvers descobrem a existência de Ulisses, os dois tem reações diametralmente opostas: Stark acredita que o futuro só é futuro se ele acontecer e Danvers vê todas as possibilidades de se evitar catástrofes prendendo (ou matando…) os futuros culpados preventivamente. Não demora e essas visões inconciliáveis levam a conflitos entre facções de heróis mais uma vez.

Deixe-me parar aqui e reiterar: a premissa e o começo de Guerra Civil II funcionam razoavelmente bem. Seus três primeiros números (contando com a edição #0) estabelecem corretamente – ainda que longe de brilhantemente – a premissa e a lógica por trás de cada lado no conflito. Mas é só. Bendis, então, desliga o modo “coerência narrativa” e passa a se preocupar mais com mortes chocantes do que com qualquer outra coisa. E muito ao contrário de ser contra mortes de super-heróis consagrados, acredito que eles devem sim morrer e permanecer mortos, algo que a Marvel e a DC Comics não sabem fazer. Isso, por si só, já retira o peso dramático do que vemos eu Gerra Civil II. No entanto, a grande questão é que o que acontece na saga é tão raso que a importância das mortes desaparece já na página seguinte em que elas são mostradas. É como ler uma história em que personagens desconhecidos e desimportantes morrem aqui e ali e o leitor nem liga. Faltou alma, faltou construção, faltou drama, faltou basicamente tudo que faz de uma boa HQ uma boa HQ.

E o pior é que Bendis usa de atalhos excruciantes para o leitor que conhece de longa data as personalidades dos heróis. No lugar de caminhar de forma lógica, seguindo as características estabelecidas de cada um, ele simplesmente joga tudo pela janela e parte para alterações radicais que quebram completamente a já pouca imersão do leitor. O primeiro destes momentos está na decisão – idiota, imbecil, estúpida, cretina, impensada – de Tony Stark de invadir Nova Attilan para sequestrar Ulisses para estudar seus poderes, “torturando-o” no processo. Sim, Stark sempre foi cabeça quente, mas ele nunca agiu de maneira tão abertamente ilógica. Nada, absolutamente nada conduz naturalmente a esse momento. Sim, já havia animosidades entre ele e os Inumanos em razões de eventos pré-Guerra Civil II, mas elas não justificam o que ele faz para irritar não só Medusa quanto a Capitã Marvel. Uma conversa e um pedido teria tão claramente resolvido a questão que é dolorosamente óbvio que Bendis estava pouco se lixando em achar algum sentido para começar uma nova guerra entre super-heróis.

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E, da cartola de Bendis, chegam os Guardiões da Galáxia…

Mas esse não é o único exemplo. Na verdade, é o menos sério dos problemas. O raciocínio de Carol Danvers é que realmente não faz absolutamente nenhum sentido. Mesmo sendo uma militar, mesmo sendo uma super-heroína de cabeça quente (mais uma!) e mesmo sendo responsável pela primeira linha de defesa da Terra contra alienígenas, sua crença cega em poderes recém-adquiridos por um adolescente sem que eles sejam estudados antes é inacreditavelmente patético. Ok, os poderes dele previram o tal ser cósmico que começa a atacar Nova York (como se fosse a primeira vez que isso tivesse acontecido…), mas daí ela passar a crer em cada previsão que Ulisses faz mostra que Bendis transformou Danvers naquele estereótipo perverso da “loira burra”. E o pior é que, apresentada uma explicação científica para os poderes do novo Inumano, ela continua turrona e se recusa a alterar sua forma de atuar contra futuros criminosos, que basicamente se resume a mandar a  S.H.I.E.L.D. e todos os heróis que trabalham para ela (Tropa Alfa e Supremos, o que não é pouca coisa) para espancar e capturar qualquer um que possa ser visto como ameaça em potencial, seja alguém com super-poderes, sejam seres humanos normais (o que é mais ridículo ainda…). É o proverbial martelo para matar uma formiga…

E, na medida em que a pancadaria vai escalando, ninguém, nem mesmo Tony Stark ou Steve Rogers faz uma pausa para argumentar que é bem possível que as próprias previsões de futuro estejam precipitando os acontecimentos. Não precisa ser gênio para chegar a essa conclusão. Basta assistir alguns filmes ou ler alguns livros sobre paradoxos temporais para imaginar um cenário em que, justamente por saber que algo acontecerá, os “jogadores” acabam transformando suposição em realidade. Isso fica mais do que evidente quando Danvers e todos os heróis da Marvel (exagero dos exageros…) vão até o laboratório secreto de Bruce Banner para convencê-lo sobre a veracidade de uma das visões e todo esse “futuro causado pela previsão” é o objeto do patético momento “Miles Morales + Capitão América (Steve Rogers, o único Capitão, caso estejam em dúvida)” que toma os dois últimos números quase inteiros da saga.

Aliás, falando em últimos números, a edição #8, que foi adicionada tardiamente à saga e que foi envolta em mistérios, com diversos artistas contribuindo com painéis especiais para sua composição, é, em poucas palavras, um desapontamento. Para começar, a luta climática é rápida, acabando em poucas páginas e, muito sinceramente, com um final banal, simplista demais. O que vem depois são os tais painéis que mapeiam o futuro (que já está acontecendo, aliás) do Universo Marvel, uma longa conversa entre o Fera e Danvers sobre o que aconteceu, depois uma breve conversa entre o Gavião Arqueiro e Danvers sobre o que ele pretende fazer – mas sem nos dar respostas – e, finalmente, uma conversa do presidente americano com, adivinhe quem, Danvers mais uma vez. É um blá, blá, blá mais do que óbvio que resulta em um dénouement completamente aberto e que só estabelece o novo status quo da linha editoral Marvel – que, sinceramente, aconteceria com ou sem Guerra Civil II – e esquece das mortes, do conflito em si ou de qualquer chance de dar peso ao que acabamos de ler. Novamente, é como se Bendis estivesse escrevendo uma longa desculpa para matar heróis, mudar personalidades e pseudo-sacudir o “mundo”, quando, na verdade, Guerra Civil II é um apanhando de acontecimentos episódicos e ilógicos, com um fim ridiculamente deus ex machina para Ulisses e o estabelecimento de um trampolim para o que virá. Sabe aquele conceito bobo de “começo, meio e fim”? Pois é, diria que a saga é só “começo”, pois tem um meio fraco e um fim que não é fim.

E isso tudo vale uma reflexão que se aplica às duas grandes editoras mainstream: essas sagas todas realmente funcionam? Tenho para mim que elas, agora, são muito mais jogadas de marketing do que efetivos artifícios para impulsionar narrativas. Coisas como “descubra quem morreu”, “olha quem vai casar”, “saiba que herói voltou das cinzas”, “fulaninho foi revelado como gay” e coisas assim são meros instrumentos para fazer algazarra nos jornais e sites especializados para impulsionar vendas. Faz parte da indústria dos quadrinhos? Sem dúvida alguma e minha condenação não vem daí. O problema é que a constância das sagas e de seu uso marketeiro martelando acontecimentos e até estragando o prazer da leitura – pois esconder eventos chocantes é um conceito inexistente, não é mesmo? – dilui seu poder. O próprio conceito de saga desaparece e se torna mais uma minissérie qualquer com um monte de super-heróis e às vezes algum super-vilão (pois é cada vez mais raro sagas com inimigos de verdade, vide Inumanos vs X-Men que acabou de começar…) brigando por algo cada vez mais desimportante e cada vez mais “vendedor” de mais revistas. Guerra Civil II e todas as suas dezenas de tie-ins talvez sejam mais um sintoma de uma doença crônica que acometeu especialmente a Marvel nos últimos anos e a cura não está no horizonte.

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Um belo painel de David Marquez. Pena que o impacto dramático seja zero…

Mas eu divago. Voltando para a saga, a arte de Olivier Coipel, na edição #0, é muito eficiente ao traduzir em imagens o lado sombrio da questão moral que permeia de certa forma toda a história. As páginas em que vemos o julgamento de Polichinelo (Jonathan Powers), defendido por Jennifer Walters são sombrias e muito bem estruturadas em termos de distribuição espacial. E o mesmo vale para a conversa seguinte entre o presidente americano e James Rhodes. A partir da edição #1 até o final – com exceção dos já citados painéis da edição #8, cortesia de diversos artistas diferentes – a arte passa ao encargo de David Marquez, que já havia trabalhado com Bendis em Era de Ultron, Novíssimos X-Men, Cataclismo e outras publicações. Apesar de ele ser especialista em páginas duplas e belos painéis lidando com a ação caótica propriamente dita, em que vemos todo o espaço disponível ser tomado de personagens diferentes, cada um muito bem posicionado e desenhado, incomoda-me demais como ele desenha rostos. O problema, aqui, não é que ele não desenhe direito, mas sim que sua escolha – que parece ser um ditame da editora, vale deixar claro – é de rejuvenescer todos os heróis, desde Tony Stark, Steve Rogers e Stephen Strange até Medusa e Carol Danvers. Todos parecem adolescentes ou jovens adultos de não mais do que 21 ou 22 anos, o que transforma os verdadeiramente jovens – como Ulisses, Miles Morales, Kamala Khan e Sam Alexander – em quase contemporâneos dos medalhões. É desconcertante ver que Stark e Ulisses, lado-a-lado, ambos de “barbicha”, só se diferenciam por seus diálogos e figurinos, pois fisicamente são a mesma pessoa. Quer parecer que ter mais do que 40 anos é um pecado mortal e que os adolescentes e jovens não querem ver “velharia” nas páginas de suas revistas.

Essa talvez seja uma reclamação menor, mas tenho para mim que não é. Mostra uma forma de pensar uniformizada e padrão que tem a tendência de servir aos interesses dos mais novos, esquecendo-se que há uma grande massa de leitores que se identificam com os heróis mais “velhos”. É a Marvel querendo dizer que “aqui só tem gente nova e descolada”, o que é uma atitude ridícula e, sim, preconceituosa.

Mesmo com esse problema, a arte de Marquez, é, como disse, poderosa nos combates, ainda que o texto de Bendis não ajude em nada o artista. Cada grande conflito parece algo “separado” da história principal, como se não fosse uma grande saga e sim vários capítulos de histórias diferentes. Mal comparando, parece um apanhado de curtas-metragens de um mesmo diretor costurados debaixo de uma premissa genérica. Uma pena, pois é potencial artístico desperdiçado.

Guerra Civil II é, por toda a pompa e circunstância com que foi vendida, talvez o maior desapontamento da Marvel e de Bendis em termos de sagas nos últimos 10 anos. Expectativas lá no alto, nome tirado da melhor saga da editora (quiçá de todas as editoras!) e premissa interessante jogadas em um liquidificador que torna tudo amorfo e sem nenhum impacto dramático, com a cereja no bolo sendo a “descoberta” de que tudo não passa de uma espécie de “prelúdio” para a nova fase da editora. Brian Michael Bendis realmente precisa “resetar” o cérebro e trazer de volta para a editora as realmente boas ideias que tinha quando estava em seu começo.

Guerra Civil II (Civil War II, EUA – 2016)
Contendo: Civil War II #0 a #8
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Olivier Coipel, David Marquez
Cores: Justin Ponsor
Letras: Clayton Cowles
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: maio a dezembro de 2016
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: ainda não publicado na data da presente crítica
Páginas: 271

RITTER FAN. . . .Sou um carioca rabugento que não faz questão nem de sol (muito quente) nem de praia (tem areia e água salgada). Prefiro o escurinho do cinema onde, sozinho ou acompanhado da família ou de amigos, me divirto - ou não, depende - por horas a fio.