Sagas Marvel | Guerra Secreta

estrelas 4,5

Não considero Guerra Secreta (não confundir com as duas terríveis Guerras Secretas) como uma saga propriamente dita. No entanto, essa minissérie em cinco edições, publicada entre 2004 e 2005 e escrita por Brian Michael Bendis pode muito bem ser considerada como a precursora da era moderna das sagas da Marvel juntamente com Vingadores: A Queda, já que ela pavimenta o caminho, gostem ou não, para o trabalho da editora em encadear sagas relevantes (ou talvez não…) uma atrás da outra ao longo de praticamente oito anos, encerrando o ciclo com Vingadores vs X-Men.

secret-war-bendis finalE trata-se de um trabalho muito interessante de Bendis. Um que realmente se destaca em sua prolífica carreira na editora. Usando uma temática adulta que, à época, era a marca registrada do universo Ultimate da Marvel e com o qual Bendis contribuída com sucesso (o Homem-Aranha Ultimate era escrito por ele), o roteirista começa a transpor o trabalho do universo então recém-criado da editora para o universo padrão, chamado 616, movimento esse que se intensificou ao longo dos anos, tornando o universo Ultimate quase que completamente irrelevante hoje em dia.

Com isso, a temática “do mundo real”, recheada de espionagem, traições, mentiras, equipes secretas e missões não sancionadas toma de assalto Guerra Secreta. A narrativa, se espremermos, é muito simples: Nick Fury reúne um grupo de super-heróis para derrubar o governo democraticamente eleito da Latvéria (o Doutor Destino, nessa época, não era mais o governante do país), pois ele tem provas de que ele vem patrocinando os equipamentos tecnológicos de diversos vilões nos Estados Unidos.

Mas Bendis dá uma “tarantinada” do roteiro e nos conta essa história de forma não-linear, começando no presente com um atentado a Luke Cage em seu próprio apartamento que o deixa em coma (em uma jogada inteligente, Bendis revela o óbvio: a pele invulnerável de Cage impede os médicos de operarem seus órgãos internos). O atentado chama a atenção de Fury que, de maneira inusitada, vai visitar o herói comatoso, levantando suspeitas por parte de Jessica Jones e Danny Rand. Afinal, Fury não é de ficar visitando gente em hospitais, não é mesmo?

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Nunca brinque com o Demolidor!

Então, a narrativa corta para um ano antes, quando os agentes Sitwell e Quatermain estão interrogando o vilão de meia-tigela Açor Assassino e indagando “muito delicadamente” como é que raios ele consegue manter os equipamentos dele em bom funcionamento se ele acabou de roubar pouquíssimos dólares de um banco. Descobrimos, em seguida, que esse interrogatório faz parte de uma investigação bem mais ampla, por parte da S.H.I.E.L.D., sobre o financiamento de super-vilões. Quando Fury leva o resultado diretamente ao presidente do EUA e sua junta de conselheiros, acusando Lucia von Bardas, a primeira-ministra eleita da Latvéria, de patrocinar a vilania em solo americano, ele é sumariamente descartado. Como Fury é Fury, ele não deixa as coisas quietas e sai para montar o já mencionado grupo de heróis para derrubar o governo da Latvéria.

Mas o interessante é que vemos pouco da missão no exterior. São as consequências dos acontecimentos em terras estranhas em Nova Iorque que são abordadas e catalisam a verdadeira ação em Guerra Secreta. Os diversos heróis que participaram da missão “suja” de Fury na Latvéria – Luke Cage, Demolidor, Homem-Aranha, Capitão América, Wolverine e Viúva Negra – não fazem ideia do que participaram e não entendem porque estão sendo atacados. Afinal, se a missão é secreta, ela é secreta até para quem participou, pelo menos segundo o livro de guerra de Nicolas Fury! Assim, Nova Iorque se transforma em um campo de batalha quando vilões tecnológicos – todos eles de 15ª categoria no panteão Marvel – atacam, em conjunto, os heróis.

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Bando de vilão porcaria na majestosa arte de Dell’Otto.

Apesar do desfecho mais para o lado simplista, as reverberações de Guerra Secreta se fizeram sentir no Universo Marvel. Essa é uma daquelas minisséries (ou saga, se você quiser simplificar logo) que realmente funcionam como fundamento para a construção de um novo status quo.

SPOILERS a seguir!

Nick Fury sai da S.H.I.E.L.D. e começa a operar secretamente, Maria Hill se transforma na nova diretora, uma nova e bem intrigante super-heroína é criada – Tremor (Quake) – que é chave na minissérie e continua sendo utilizada em diversas séries seguintes. Além disso, as ações dos super-heróis passa a ter um maior escrutínio do governo americano, com fortes tendências a desgostar da independência deles. Além disso, Bendis deixa pistas muito de leve sobre a invasão Skrull que traria Fury de volta para os holofotes mais para frente em Invasão Secreta. Assim, vemos a estrutura completamente pavimentada para as sagas vindouras da Marvel, especialmente a que citei e, também, Guerra Civil, talvez a que mais tenha transformado o status quo do Universo 616 em todos os tempos.

Fim dos SPOILERS.

Com isso, o entendimento efetivo da situação atual do Universo Marvel passa obrigatoriamente por Guerra Secreta. Aliás, mesmo que essa minissérie não fosse tão essencial assim, sua leitura apenas por divertimento já seria algo extremamente recomendável, diante de um texto inteligente e engado de Bendis, que não se preocupa em pintar os super-heróis como símbolos do altruísmo.

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Não subestimem essa menina!

Mas eu não poderia encerrar essa crítica sem rasgar elogios à fenomenal arte de Gabriele Dell’Otto. Adepto da arte realista pintada, lembrando muito o extremamente hypeado, mas sumido Alex Ross, o italiano Dell’Otto consegue até superar Ross. Ele empresta detalhes a cada personagem tornando suas expressões vívidas e guturais, com leves redesenhos nos uniformes clássicos dos heróis que dão um ar de enorme seriedade a cada um deles. O Homem-Aranha, por exemplo, ganha olhos menos esbugalhados e um vermelho escurecido que chama atenção pela ousadia. E falando de vermelho, o uso dessa cor no uniforme do Demolidor é de assombrar, uma das melhores versões do demônio cego que já vi. Mas Dell’Otto, eu seu trabalho solo de estreia para a Marvel, vai além ainda e apresenta designs excelentes também para a trupe de vilõezinhos que recheia essa história e também para os próprios heróis que, por apenas alguns quadros e com cores emudecidas, aparecem com uniformes 100% novos na missão da Latvéria. Um gigantesco trabalho para não aparecer quase nada. Um verdadeiro testemunho da qualidade e dedicação desse grande desenhista.

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Podem babar com a arte…

Guerra Secreta é uma minissérie Marvel acima da média, que respeita o material base, mas vai além, muito além, mostrando-nos uma faceta rara de se ver em quadrinhos mainstream de super-heróis. É um começo excelente para oito longos anos de sagas atrás de sagas da Marvel, com resultados bastante irregulares.

Guerra Secreta (Secret War, EUA)
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Gabriele Dell’Otto
Editora (nos EUA): Marvel Comics (5 edições, de fevereiro de 2004 a dezembro de 2005)
Editora (no Brasil): Salvat, 2014 – republicação
Páginas: 256

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.