Sagas Marvel | Guerras Secretas (2015)

estrelas 3,5

Obs: Apesar de a crítica não conter spoilers da saga em si, ela contém spoilers dos eventos que a desencadearam. Portanto, leia sob sua conta e risco. Crítica originalmente publicada em 18 de janeiro de 2016, logo depois do final da saga nos EUA.

Obs 2: Leiam as críticas dos tie-ins da saga, aqui.

O título Guerras Secretas é bastante apropriado para o que a Marvel quis fazer com essa mais nova saga. Ele evoca, lógico, a terrível saga homônima de 1984/5 que tem como mérito ser a efetiva primeira saga desse porte nos quadrinhos, além de sua continuação pior ainda de 1985/6, ambas lidando com um ser mais do que super-poderoso chamado Beyonder. Apesar de serem dois exemplos de como não se fazer sagas, o fato é que, por serem o “começo de tudo”, nada como “acabar tudo” usando o mesmo título, não é mesmo?

Afinal, a nova super-mega-saga Guerras Secretas é, sem ficar pisando em ovos, exatamente o que Crise nas Infinitas Terras representou para a DC Comics em 1985/6: o fim do multiverso. E é interessante notar que, simultaneamente à Guerras Secretas, a DC Comics lançou Convergência que tem como objetivo justamente restabelecer completamente seu multiverso. As duas editoras caminhando na mesma estrada, só que em caminhos opostos. Só o tempo dirá se as empreitadas darão certo.

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O exército de Thors de Deus Destino.

De toda sorte, a mais recente encarnação de Guerras Secretas transporta o conceito da primeira encarnação da saga para um contexto que mimetiza Crise nas Infinitas Terras. São histórias diferentes, claro, mas com o mesmo objetivo final e com a mesma estrutura editoral de uma linha mestra (objeto da presente crítica) composta de nove números (12, no caso da DC) e a “contaminação” de toda a linha editorial, com tie-ins aos borbotões. Aliás, o que a Marvel fez foi um passo além dos meros tie-ins, que normalmente são histórias dentro das publicações normais de cada herói ou grupo de heróis que são afetadas em maior ou menor grau pelo evento principal. A editora, na verdade, paralisou a publicação de sua linha editorial normal e passou a publicar uma pletora de mini-eventos paralelos que refazem outras sagas, eventos e universos paralelos. Assim, temos novas versões de Guerra CivilDesafio Infinito, Cerco, Zmbis Marvel, Era de Ultron, O Velho Logan, Era de Apocalipse, Dinastia M, Planeta Hulk, Aranhaverso, além de uma infinidade de outras e isso sem contar com edições inéditas como Howard the Human, Hail Hydra, M.O.D.O.K. Assassin, Weirdworld e Esquadrão Sinistro, tudo dentro das linhas paralelas Guerras Secretas: Battleworld (Mundo Bélico, como traduzido por aqui) e Guerras Secretas: Warzone (Zona de Guerra). Em poucas palavras, Guerras Secretas é uma espécie de reboot do Universo Marvel em que a editora aproveitou a oportunidade para trabalhar completamente sem as rédeas impostas pela continuidade para, depois, aproveitar do que deu certo para efetivamente partir desse ponto.

Mas então vem a inevitável pergunta: o que é preciso saber para mergulhar nesta saga?

Apesar do fim do multiverso Marvel ser o ápice de um plano que começou com Jonathan Hickman ainda em 2013, quando o autor passou a encabeçar os títulos Vingadores e Novos Vingadores dentro do projeto Nova Marvel, a grande verdade é que Guerras Secretas não é lá muito complicado de se entender. Só parece que é e o primeiro número pode assustar, mas, se o leitor tiver conhecimentos gerais sobre o Universo Marvel, não precisará ter lido todo o trabalho anterior de Hickman, que inclui também a saga Infinito, para entender perfeitamente os conceitos e as consequências (ainda que o trabalho seja muito bom e recomendável por si só). Mas, só para não deixar o leitor muito preocupado, o plano de Hickman é o seguinte: criaturas super-poderosas chamadas Beyonders (que apareceram no mini-evento que se convencionou chamar de Guerras Secretas III), que literalmente criaram todo o multiverso, resolveram “descriá-lo”, colocando Terras de dimensões diferentes em colisão com outras, em uma sucessão infinita de destruições de universos inteiros. A chave é o Homem-Molecular, personagem importante da primeira saga Guerras Secretas, que, como aprendemos, é igual em todos os universos e funciona como uma espécie de bomba aniquiladora.

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O castelo de Destino em Battleworld, construído em volta de Yggdrasil, que também serve de trono ao deus-tirano.

Quando Guerras Secretas começa, o Doutor Destino e o Doutor Estranho, junto com o Homem-Molecular da Terra-616 (o Universo Marvel  normal) encontram-se com os Beyonders. Enquanto isso, as duas últimas Terras encontram-se em choque – a Terra-616 e a Terra-1610 (o Universo Marvel Ultimate), com seus respectivos heróis em pleno combate, já que, se uma Terra for destruída, a outra sobrevive. Corta para o número dois da saga e o status quo já mudou completamente. Estamos em Battleworld, uma versão amálgama da Terra, com elementos e personagens pinçados de diferentes realidades, com o Doutor Destino – agora um deus de armadura, capa e capuz brancos – no epicentro. Trata-se não de uma realidade alternativa, mas sim de um construto criado por Destino para salvar o que ele podia salvar da realidade depois de seu misterioso encontro com os Beyonders. O leitor logo conclui que ele, de alguma forma, roubou os poderes daqueles seres, ainda que a explicação verdadeira – que vem aos poucos – seja apenas um pouco mais complexa.

Em Battleworld, o mundo é dividido em baronatos controlados por personagens como Senhor Sinistro, Hipérion, James Braddock (o irmão mais velho do Capitão Britânia), Madeleine Pryor, Apocalipse e outros que normalmente vivem em paz, mas volta e meia têm contendas que são decididas pelo Xerife Estranho, braço direito de Deus Destino que tomou Susan Storm como esposa, tendo os filhos Valéria e Franklin Von Doom (vale salientar que ninguém, a não ser Destino e Estranho, se lembra dos eventos pré-Battleworld). Como seu exército, Destino tem Os Dignos, formados por Thors de realidades diferentes. Esse mundo artificial é todo cercado por um altíssimo muro chamado de Escudo que impede que os Zumbis Marvel invadam o mundo dito civilizado. Toda essa delicada estrutura, então, é sacolejada quando duas naves “salva-vidas” da realidade pré-Batteworld chegam: uma contendo Reed Richards, Pantera Negra, Homem-Aranha (Peter Parker), Capitã Marvel, Senhor das Estrelas, Cíclope como Fênix e Thor (Jane Foster) e outra contendo a Cabala, grupo formado por Thanos, Cisne Negro, Terrax, Namor, Proxima Midnight, Maximus, Corvus Glaive e a versão Ultimate de Reed Richards, conhecido como Criador, além de Miles Morales, o Homem-Aranha Ultimate como um passageiro clandestino.

Logo, cada um desses heróis e vilões começa a fazer ruir a criação de Destino e a pancadaria em escala titânica começa, em números e mais números escritos e desenhados muito mais para deslumbrar do que para efetivamente avançar a história, que poderia ter sido muito mais curta. Afinal, a trama não é nada complexa e o que poderia ser trabalhado com mais vagar – o que é ser um deus, as responsabilidades, etc. – ficam para comentários perdidos, pouco desenvolvidos e que abrem espaço para “revelações” surpreendentes (ou pelo menos em tese surpreendentes) e para mais pancadaria. Mal comparando, o trabalho de Hickman lembra o de Brian Michael Bendis em Dinastia M, onde a Feiticeira Escarlate usou seus poderes descontrolados para criar sua própria realidade utópica. Lá, como aqui, há um ser todo-poderoso controlando tudo. Lá, como aqui, há um grupo de heróis que começa a perceber que as coisas não deveriam ser assim. Lá, como aqui, a resolução é bastante simplista, rápida mesmo, ainda que as consequências ao Universo Marvel sejam potencialmente muito maiores em Guerras Secretas.

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Não falta pancadaria!

Digo potencialmente, pois, ainda que a narrativa tenha um efetivo fim, ele deixa portar abertas para a Marvel continuar experimentando com a mescla de universos, agora todos concentrados em apenas um local. O que isso pode significar a longo prazo, só os deuses – ou Destino – sabe. Assim como a DC Comics voltou com seu multiverso anos depois, pode ser que a Marvel também desfaça os acontecimentos em Guerras Secretas, mas também pode ser que não, tudo dependerá dos números de venda dos títulos pós-Guerras Secretas.

Os nove números que compõem o evento principal contam com a arte do croata Esad Ribic. Quem não o conhece precisar ler os primeiros volumes de Thor: O Deus do Trovão da Nova Marvel desenhados por ele, pois ele exibe artes deslumbrantes pintadas que dão um tom incrivelmente épico à jornada de Thor. Em Guerras Secretas, porém, muito provavelmente pela velocidade em que os números tiveram que ser desenhados e pela complexidade em se juntar a vasta quantidade de personagens que aparecem, suas habilidades artísticas não são utilizadas em todo seu potencial. Há páginas visivelmente ainda sem arte-final, dando aspectos mal-acabados para diversos momentos. Mas não se enganem: ainda é uma beleza apreciar o trabalho de Ribic, que traz majestade a todos os personagens que desenha, com especial destaque, claro, para o perturbado Victor Von Doom.

Guerras Secretas, como a maioria das sagas dessa magnitude, é mais marketing do que substância, mais fogos de artifício do que discussões relevantes. A ideia de ela ser uma “saga de sagas” é divertida, mas, no evento principal, esse aspecto não tem muita relevância. Há uma construção lenta da estrutura de Battleworld e uma finalização rápida demais, fácil demais criada apenas para colocar seres super-poderosos contra seres super-poderosos em combates cada vez mais extravagantes que por vezes lembram a mediana saga Vingadores vs X-Men (mais conhecida como Rinha de Galo Super-Heroística).

A nova Guerras Secretas poderia ser inesquecível. Poderia ser realmente algo diferente para “acabar” com o Universo Marvel como prometido. Mas, no final, das contas, é só mais uma saga…

Guerras Secretas (Secret Wars, EUA – 2015/6)
Contendo: Guerras Secretas #1 a #9 (saga principal)
Roteiro: Jonathan Hickman
Arte: Esad Ribic
Cores: Ive Svorcina
Letras: Chris Eliopoulos, Clayton Cowles
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: julho de 2015 a março de 2016
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: em publicação no Brasil a partir de agosto de 2016
Páginas: 24 (cada número)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.