Sagas Marvel | Hulk Contra o Mundo

estrelas 4

Hulk Contra o Mundo é a saga resultado do evento Planeta Hulk, publicado na revista mensal O Incrível Hulk entre 2006 e 2007. Lá, aprendemos que o Gigante Esmeralda foi ejetado da Terra pelos Illuminati (precisamente Raio Negro, Reed Richards, Tony Stark e Doutor Estranho) para um planeta deserto, mas acaba caindo em Skaara, planeta para lá de habitado, onde vira gladiador, líder de revolta, rei, marido e quase pai. Quando as coisas iam bem, a nave em que veio explode dizimando o planeta, matando sua esposa e seu filho nascituro (ao menos em tese, he, he, he). Culpando os Illuminati por sua desgraça, Planeta Hulk acaba com Hulk, agora conhecido como Cicatriz Verde – dentre outros vários apelidos – e sua equipe de fieis aliados, voltando à Terra para tirar satisfação com os responsáveis.

Em outras palavras, Hulk Contra o Mundo é uma desculpa para páginas e mais páginas de deliciosas pancadarias entre o Hulk e sua equipe e os mais variados heróis Marvel, especialmente os Illuminati, sendo o primeiro alvo o próprio Raio Negro, que apanha como cão ladrão na Lua, no quintal de Attilan, mesmo com todo seu poder sônico. Em seguida, vem o Homem de Ferro, então diretor da S.H.I.E.L.D. e munido de uma armadura Hulkbuster com esteroides, somente para o Verdão derrubar um prédio inteiro sobre o Latinha. E esses são só os embates inciais, que vão progredindo e se tornando mais complexos na medida em que a trama – que é bem simples e objetiva, na verdade – progride.

Hulk Contra o Mundo capa

A capa do encadernado americano.

Há que se fazer um paralelo com Vingadores vs X-Men, saga mais recente e que é também uma desculpa para pancadaria entre heróis (não traço paralelo com Guerra Civil, pois, nesse caso, há contornos sócio-políticos muito mais interessantes e profundos). Sempre chamei Vingadores vs X-Men de mera “rinha de galo” e, até certo ponto, Hulk Contra o Mundo (só eu que acha que a tradução tupiniquim deveria ter sido Guerra Mundial Hulk?) é a mesma coisa. Mas realmente só até certo ponto. Greg Pak evita os erros que seriam depois cometidos por Bendis e Fraction e continua a inserir elementos muito interessantes à mitologia do Hulk, não só referenciando seu passado com Rick Jones, General Thunderbolt Ross, Doc Samson e outros como até mesmo sua série de TV setentista (no prelúdio, focado na Mulher-Hulk, ela pede carona com a roupa toda rasgada e diz que “até consegue ouvir a música tema” em clara menção aos melancólicos finais de cada episódio da saudosa série com Bill Bixby e Lou Ferrigno), de maneira a produzir algo bem acima da média, especialmente se levarmos em consideração que a premissa em si é básica e que, em mãos menos hábeis, teria um tratamento rasteiro.

Mas Pak sabe não só dar ritmo à sua narrativa como discutir a responsabilidade de quem tem poderes. O Homem de Ferro diz isso claramente ao citar o tio Ben (sim, ele mesmo) e a célebre frase “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” e nós vemos a temática ser repetida de maneiras diferentes a cada embate. Afinal, foram os Illuminati que convidaram a destruição causada pelo Hulk. Eles condenaram o Gigante Esmeralda ao exílio e, querendo ou não, mataram milhões de pessoas. E o Hulk mesmo deixa isso evidente ao colocar todos os heróis na arena depois que diversas pessoas comuns culpam, com microfone aberto, vários heróis pela perda de entes queridos, inclusive o próprio sobrinho de Golias, que é morto pelo clone de Thor fabricado por Tony Stark e  Reed Richards emGuerra Civil. É um momento de clareza, de compreensão de que o que eles fizeram com o Hulk é obviamente muito errado. Mesmo assim, nada justifica a atitude de vingança do Hulk, dispensando os conselhos de sua prima e advogada Jennifer Walters de buscar Justiça, não Vingança (ainda que, claro, secretamente, eu e provavelmente todos os leitores da saga tenham ficado do lado do Hulk a todo momento).

hulk contra o mundo reed

Reed e Tony provando um pouco de seu remédio…

E a questão continua, com o Doutor Estranho primeiro se recusando a estalar os dedos para acabar com a ameaça (aqui vi um pouco de preguiça de Pak em justificar a não utilização de poder extremo para encerrar conflito potencialmente letal) e, depois, deixando o demônio Zom tomar seu corpo para que ele tenha poderes brutos suficientes para enfrentar o Hulk no braço. Logo o Doutor Estranho, o Mago Supremo, tomando medidas radicais e impensadas para literalmente se transformar na ameaça que ele, junto com seus colegas Illuminati, tentaram evitar que destruísse o mundo.

Se existe uma fraqueza difícil de ignorar em Hulk Contra o Mundo, essa está presente em seu final. Não que ele não seja satisfatório ou bem construído, pois ele é. O problema está na velocidade em que ele é atingido. Há a interferência de um deus ex machina (chamado de deus inclusive em clara brincadeira narrativa) que, na verdade, não é um deus ex machina totalmente, pois o Sentinela é introduzido ainda cedo na história e seus poderes sem fim também servem de comentário sobre a dicotomia poder x responsabilidade. Essa não é a questão. A questão é que além do Sentinela, muitas coisas cataclísmicas e revelações acontecem condensadas em uma única edição da saga, que poderiam ter sido melhor abordadas de maneira mais orgânica ao longo da narrativa. O mesmo seria possível se a saga tivesse ao menos mais um número, para fechar sem pressa os pedaços literalmente espalhados aqui e ali. Sim, assim como qualquer saga moderna, os cinco números próprios que fazem parte do coração da narrativa são antecedidos e sucedidos de outras publicações crossover (que também correm em paralelo, logicamente) que ajudam no aumento do escopo do trabalho de Pak, mas o fato é que, se há publicações dedicadas, elas devem contar do começo ao fim a história (preferencialmente, claro) de maneira equilibrada.

hulk contra o mundo sentinela

Não queira ficar perto quando Hulk e Sentinela estiverem brigando…

Na arte, no lugar do excelente trabalho de Carlo Pagulayan, entra o irregular John Romita Jr. Sei que ele é adorado por aí, mas particularmente tenho dificuldade para aceitá-lo irrestritamente desenhando em situações “terrenas” (em contraste com a aventura quase lisérgica do Capitão América, Perdido na Dimensão Z). Com isso, suas dimensões corporais estranhas acabam prejudicando alguns heróis, especialmente os mais humanos. O Hulk em si ficou muito bom e a arte do Romitinha funciona particularmente para sequências com alto teor destrutivo, algo que não falta nessa saga. Além disso, a arte final de Klaus Janson firma os traços do desenhista e dá um ar de imponência a diversas sequências.

Hulk Contra o Mundo é uma ótima história do Hulk, que dá prazer em virar cada página. Greg Pak trabalha o Gigante Esmeralda com respeito e reverência, fazendo quase que uma antologia do melhor que o herói teve a oferecer ao longo de décadas desde sua criação. Vida longa ao Cicatriz Verde!

Hulk Contra o Mundo (World War Hulk, EUA – 2007 a 2008)
Conteúdo: Hulk Contra o Mundo #1 a 5
Roteiro: Greg Pak
Arte: John Romita, Jr.
Arte final: Klaus Janson
Cores: Christina Strain
Editora (nos EUA): Marvel Comics (publicado entre julho de 2007 e janeiro de 2008)
Editoras (no Brasil): Panini Comics e Salvat

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.