Sagas Marvel | Infinity

estrelas 4

Escrever sobre a mais recente saga da Marvel com alguma profundidade é, sem dúvida alguma, uma tarefa hercúlea, uma que tentei adiar ao máximo possível. O grande problema – ou qualidade, depende – dessa saga é que Jonathan Hickman, seu criador, provavelmente sofre de megalomania e ele talvez tenha conseguido fazer a narrativa de maior escopo que já vi até hoje, talvez com exceção de Crise nas Infinitas Terras, da DC.

Se você não vem acompanhando o semi-reboot da Marvel conhecido como Marvel NOW! conforme publicado originalmente nos EUA, mas somente pela publicação da Panini no Brasil, que acabou de começar, saiba que a crítica que segue conterá inevitáveis SPOILERS. Nada muito gigantesco, pode ficar tranquilo, mas, mesmo assim, se você preferir entrar em estado virginal na leitura do trabalho de Hickman, sugiro parar de ler agora e ficar com esse resumo: essa saga, apesar de alguns soluços aqui e ali, realmente vale a pena e tem potencial de ser game changer no Universo Marvel 616 (o normal), diferentemente da fraca Era de Ultron.

Mas por que eu chamei Hickman de megalômano? Bom, para começar, ele, em preparação à saga, escreveu histórias levemente cruzadas dos dois títulos mais importantes dos Vingadores desde seu recomeço: Avengers, Vol. 5 e New Avengers, Vol. 3.

Em relação ao primeiro título, Hickman saiu enlouquecidamente escrevendo mês a mês, ampliando absurdamente o escopo de atuação e a formação dos Vingadores. Essa preparação levou “meros” 13 números (Avengers, Vol. 5, # 1 a 13), com mais quatro prelúdios propriamente ditos (Avengers, Vol. 5, # 14 a 17).

Em relação a New Avengers, Hickman trabalhou um pouquinho mais devagar, produzindo, ao todo, sete números (New Avengers, Vol. 3, # 1 a 7), entrando em Infinity a partir do oitavo número. É, em poucas palavras, muito material e todo ele de certa forma muito interligado um com o outro.

Assim, para facilitar a vida dos leitores, resolvi contar, em brevíssimas linhas, o que acontece nesses vários números dos dois títulos para, então, entrar na saga propriamente dita. Se você já os conhece, então pule diretamente para o capítulo em que falo sobre Infinity.

Vingadores, Vol. 5, # 1 a 17

Em complicados 17 números, Hickman parte de uma premissa básica: Tony Stark, em conversas com Steve Rogers, conclui que os Vingadores precisam expandir, indo além da formação básica de cinco ou seis heróis. Usando vários exemplos, Stark mostra que o grupo de heróis mais poderoso da Terra passou por um triz em vários momentos, ameaçando nosso planeta desnecessariamente no processo.

Mas, em narração em off, Hickman também deixa evidente que essa mesma sugerida expansão dos Vingadores levaria à derrocada da Terra. Fica essa mensagem apocalíptica permeada por todos os números.

Obviamente, que, não demora muito e a teoria de Stark é colocada a teste. Seres desconhecidos começam a terraformar Marte e os Vingadores partem para lá em sua formação básica: Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Gavião Arqueiro, Viúva Negra e Hulk. Chegando por lá, eles encontram os responsáveis pelas mudanças no planeta vermelho: Ex Nihilo, Aleph e Abyss.

Se um ponto de interrogação se formou sobre sua cabeça, não se espante. São todos genuínas criações de Hickman que está literalmente com a macaca em termos de expansão da lista de vilões e aliados dos Vingadores.

O que acontece? O de praxe: os Vingadores apanham que nem condenados e apenas o Capitão consegue voltar para a Terra. O resultado é evidente: ele chama um exército de super-heróis, muitos deles que já foram Vingadores, outros não. Entram, então, Wolverine, Homem-Aranha (o Superior mesmo), Capitã Marvel, Mulher-Aranha, Falcão, Shang-Chi, Mancha Solar, Míssil, Manifold, Smasher, Capitã Universo e Hyperion.

Eles todos, juntos, conseguem reverter o quadro, mas Ex Nihilo acaba conseguindo contaminar a Terra com catalisadores planetários e os heróis têm, então que se dividir em grupos que se espalham por toda a superfície do planeta. Depois de um longo processo, que envolve até o Alto Evolucionário, a Terra Selvagem, a criação de novas raças em nosso planeta e a I.M.A., além do nascimento de Night Mask e da reutilização de Starbrand, herói oriundo do New Universe, de Jim Shooter, criado por ocasião dos 25 anos da Marvel, tudo mais ou menos fica sob controle.

A moral da história é que Ex Nihilo e Abyss representam a vida e a morte e Aleph é um robô muito poderoso que tem como missão manter os dois na linha. No entanto, os três foram criados pela raça mais antiga do universo, filhos diretos da entidade Universo (que povoa o corpo da Capitã Universo), chamados de Builders, ou Construtores, que se dividem entre Creators (Criadores) e Engineers (Engenheiros). Night Mask é uma criação de Ex Nihilo, uma espécie de filho que descobre que sua missão é ajudar os terráqueos e Starbrand é uma espécie de arma de defesa planetária. Entenderam? Nem eu, mas isso não importa muito. O que vale é o cenário geral que determina que o universo está morrendo.

Novos Vingadores, Vol. 5 # 1 a 7

Os Novos Vingadores são formados pelos Illuminati, ou seja, os auto-intitulados mais importantes heróis do Universo Marvel: Professor X (falecido, pelo momento, em Vingadores vs X-Men), Doutor Estranho, Senhor Fantástico, Pantera Negra, Raio Negro, Namor e Homem de Ferro. O Capitão América também faz parte do grupo no início, mas sua moral inabalável acaba sendo premiada com uma memória devidamente apagada pelos demais e sua substituição pelo Fera, que literalmente entra de gaiato no navio. Cada um deles é detentor de uma Joia do Infinito que, juntas, formam o poder maior do universo.

Mas a grande razão da nova reunião do grupo, que é convocada por T’Challa, o Pantera Negra, é que ele dá de cara com um outro universo (sim, isso mesmo!) se chocando com o nosso, tendo como ponto focal, claro, nosso pequeno planeta azul. No processo, ele tem que enfrentar seres que querem liquidar com a Terra liderados por uma bela mulher albina chamada Cisne Negro (não, nenhuma relação com Aronofsky), outra criação de Hickman, que fala na misteriosa ameaça de Rabum Alal.

Devidamente capturada e com os Illuminati convocados, ela passa a ser interrogada e, aos poucos, vamos entendendo que esse choque de universos só pode ser retardado se uma das Terras que estiverem para se destruir seja explodida antes. Em outras palavras, os Illuminati, para salvar nosso planeta, têm que repetidamente cometer genocídios dimensionais. Haja peso para esses ombros, não?

Ao tentar cometer o primeiro genocídio com as Joias do Infinito, os Illuminati são bem sucedidos, mas perdem as joias, pois elas aparentemente se autodestroem, com exceção de uma, a Joia do Tempo. A alternativa às joias, então, passa a ser bombas de antimatéria que os heróis, então, não tardam a construir, tornando-se, literalmente, a maior ameaça que a Terra pode ter.

Infinity

Ufa! Conseguiram me acompanhar até aqui?

Pois bem.

Reunindo as duas linhas narrativas, Hickman, então, monta a saga Infinity tendo como linha mestra uma publicação própria, de seis números, que precisa ser lida de forma intercalada com os outros dois títulos. A ordem exata é:

Infinity # 1, Avengers # 18, New Avengers # 9, Infinity # 2, Avengers # 19, New Avengers # 10, Infinity # 3, Avengers # 20, Infinity # 4, Avengers # 21, New Avengers # 11, Infinity # 5, Avengers # 22, Avengers # 23, Infinity # 6 e, finalmente, New Avengers # 12.

Trata-se, assim, de um legítimo crossover em que as três publicações são absolutamente essenciais para o entendimento do que está acontecendo. Há, ainda, os famosos tie-ins, mas esses são completamente inúteis para a saga e podem ser literalmente ignorados (e serão, na presente crítica).

Tudo começa a 60 mil anos-luz da Terra, na Galáxia Dourada, no planeta Galador, lar dos Cavaleiros Espaciais (lembram deles?). Os Builders soltam “jardineiros” (seres como Ex-Nihilo) e Alephs contra o planeta e mesmo a defesa dos Cavaleiros não conseguem impedir a destruição de seu lar. Corta para a Terra e vemos o Capitão e o Gavião Arqueiro enfrentando Skrulls na Terra, disfarçados em Palermo, Itália. Eles estão fugindo da mesma ameaça que levou ao fim de Galador.

Aos poucos, os Vingadores vão percebendo que alguma raça vem sistematicamente aniquilando sistemas planetários inteiros. Ajudados por Ex-Nihilo, os Vingadores, então, partem para o espaço para tentar deter a ameaça que parece rumar para a Terra.

Como se a aniquilação do Universo já não fosse o suficiente, entra Thanos. Sim, o titã louco que tem como amante a própria Morte volta para a Terra – agora sem a proteção dos Vingadores – para descobrir, entrando na mente de Raio Negro, onde estão as Joias do Infinito. Começam a perceber com Hickman faz as narrativas convergirem?

Em termos galácticos, temos os Vingadores juntando-se ao Império Sh’iar, ao Império Skrull, ao Império Kree e ao Aniquilador em uma gigantesca campanha interplanetária contra os todo-poderosos Builders. Em termos terráqueos, temos Thanos atrás de suas Joias do Infinito e de um misterioso “tributo”, tendo como ponto chave o Rei dos Inumanos, Raio Negro que, por sua vez, também tem um plano misterioso em conluio com seu irmão maluco Maximus.

Assim, cada título desenvolve sua própria linha narrativa – galáxia de um lado, Terra do outro – enquanto que o título Infinity reúne e alavanca as duas linhas ao mesmo tempo. Tudo funciona muito bem, mas o entendimento completo do que está acontecendo tanto de um lado quanto de outro exige paciência e, talvez, Ph.D em astrofísica, duas qualidades que me faltam.

De toda forma, é refrescante ver uma ameaça intergaláctica que efetivamente retire os Vingadores de seu trabalho na Terra e coloque-os ao lado de ex-inimigos e aliados também super-poderosos. As últimas duas sagas intergalácticas, Aniquilação e Aniquiliação: Conquista eram, as duas, muito fechadas em si mesmo e envolvendo apenas os heróis cósmicos da Marvel (Nova, Guardiões da Galáxia, Adam Warlock e outros). Infinity, por seu turno, envolve um grande número de Vingadores, mas não os heróis cósmicos, o que é estranho, mas compreensível.

Com isso, Hickman consegue seu objetivo, que parece ser restabelecer os Vingadores como seres de atuação intergaláctica, claramente caminhando em linha com o raciocino de expansão que Tony Stark menciona no primeiro número de Vingadores, Vol. 5.

Mas a saga tem seu problemas, claro.

O primeiro deles se chama motivação. Tanto a motivação dos Builders como a motivação de Thanos não ficam claras, pelo menos não dentro da própria saga.

Os Builders querem destruir a Terra para impedir a destruição do universo, mas, aparentemente, no processo, precisam também destruir uma penca de outros mundos, matando trilhões. É esporte? Diversão? Ou eles querem mesmo irritar o maior número possível de impérios e seres super-poderosos para terem menos chance de ganhar? Afinal, se eles fossem direto para a Terra, duvido que os Skrulls ou mesmo os Sh’iar se opusessem.

Thanos usa as Joias do Infinito como engodo, pois seu objetivo primário é achar e matar esse tal “tributo”. Vou revelar aqui quem ele é, mas aviso, novamente, que é SPOILER dos grandes. Trata-se de seu último filho, um meio-inumano chamado Thane. Um médico pacato que salva vidas até que as Névoas Terrígenas soltas por Raio Negro no mundo todo o transforme na encarnação da morte.

Acontece que não fica claro o porquê de Thanos querer matar seu último filho. Ele apenas quer e ponto final.

Outro problema está justamente nas Névoas Terrígenas. Raio Negro tem um plano mirabolante, que inclui a destruição completa de Attilan (que cai sobre Nova Iorque) e o fingimento de sua morte. Por que ele solta as Névoas por todo o mundo, catalisando alterações genéticas nos humanos que têm um pouco de DNA inumano? Também não fica claro.

A razão editorial para isso, porém, é muito clara: os direitos cinematográficos dos mutantes não estão com a Marvel, mas sim com a Fox. Assim, a Marvel não pode fazer filmes com mutantes e a saída clara é usar algo parecido, os Inumanos.

Onde é que isso vai dar em termos narrativos e cinematográficos, não faço ideia, mas a questão é que Infinity, apesar de seu gigantesco tamanho, escopo e ambição, parece ser apenas a ponta do iceberg para planos muito maiores da Marvel, planos esses que já engataram na próxima saga, batizada de Inhumanity, que lidará com as transformações iniciadas pelas Névoas Terrígenas. Fica aqui meu desejo nerd de ver uma ligação próxima com a clássica trilogia de sagas X – Terra X, Universo X e Paraíso X – que trata justamente desses efeitos.

De outro lado, provavelmente também teremos uma sensível expansão no alcance dos títulos dos Vingadores, com a formação de diversas equipes diferentes com atuação tanto dentro como fora da Terra.

É, Hickman e a Marvel definitivamente têm um plano e um plano capaz de modificar a dinâmica do Universo Marvel. Infinity parece ser um teaser de vindouros eventos. Normalmente gosto de mudanças quando elas fazem sentido e esse parece ser um desses casos. Mas só o tempo dirá se estou certo.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.