Sagas Marvel | Monsters Unleashed!

estrelas 3

Sabem aquele desenho clássico do Pato Donald em que ele é influenciado por um anjinho e um diabinho, cada um em um ombro? Pois me senti exatamente assim ao terminar de ler as cinco edições que formam mais essa saga da Marvel Comics com título retirado de clássica, mas breve publicação da editora da década de 70.

O diabinho queria que eu descascasse o trabalho de Cullen Bunn, com artes de um medalhão da editora a cada número, por ser bobo, sem consequências diretas para o futuro do Universo Marvel, tumultuado e leitura para não mais do que meia hora (tudo). O anjinho queria que eu elogiasse o trabalho da equipe justamente por Monsters Unleashed! ser  boba, sem consequências diretas para o futuro do Universo Marvel, tumultuada e leitura para não mais do que meia hora. Características idênticas. Reações diametralmente opostas.

Mas, aos poucos, fui entendendo a proposta com um pouco mais de cuidado, ainda que essa compreensão nem de longe resolva todos os problemas da história. Depois de várias sagas sérias seguidas que, em seu agregado, talvez tenha mais deixado a desejar do que deslumbraram (vide a recente Guerra Civil II só para começo de conversa), Monsters Unleashed! é como um antídoto para o leitor relaxar os músculos e ter uma meia horinha (porque sim, apesar de ter 30 páginas por edição, dá para ler tudo muito rapidamente) de divertimento completamente descompromissado que será esquecido no momento seguinte em que a última página da última edição for virada. Se Guerras Secretas e Guerra Civil II prometiam mudanças profundas nos heróis e vilões e abordavam suas questões filosóficas, morais e políticas com enorme seriedade, a nova saga é uma Sessão da Tarde básica, para ser lida comendo pipoca.

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Uma das páginas duplas de Salvador Larroca.

A história – ou o fiapo dela – é algo que pode se descrita apenas com um “monstros que caem do céu são enfrentados pelos heróis e monstros Marvel, enquanto um novo inumano, capaz de convocar monstros com desenhos, surge”. Aos que potencialmente ligarão o tal novo inumano com Ulisses, catalisador de Guerra Civil II, podem ficar tranquilos. A abordagem é bem mais leve e o garoto – Kei Kawade – tem participação muito mais relevante aqui do que Ulisses jamais teve. Portanto, há uma fluidez maior em toda a narrativa que, muito longe de parecer fragmentada, algo que poderia ser o resultado com a troca dos artistas a cada edição, parece uma tapeçaria bem costurada, ainda que básica, sem firulas ou maiores pretensões. A participação dos heróis por todo o mundo é reduzida a dezenas de pontas, sem que um tenha mais relevância sobre outro, talvez com exceção do Homem-Aranha Miles Morales e do Capitão América Sam Wilson (esse negócio de ter mais de um herói com o mesmo nome ao mesmo tempo é irritante…). O mesmo vale para os monstros gigantes do Universo Marvel. O mais reconhecível para os leitores é o dragão Fin Fang Foom, mas há vários outros que Bunn tira do fundo do baú da editora, como Gorgilla, Zzutak, Goom, Googam, Moomba e Rommbu, muitos saídos da grande mente de Jack Kirby, o maior homenageado aqui.

A maior participação fora Kei Kawade, porém, fica mesmo com a recém-criada Moon Girl (Lunella Lafayette) e a dupla que faz com o clássico (e também criação de Kirby) Dinossauro Demônio, além de Elsa Bloodstone, mas mesmo os três são usados mais para ocupar páginas do que para realmente impulsionar a narrativa. Afinal de contas, a narrativa não precisa de impulsionamento, já que ela bebe de vários tokusatsu clássicos, não passando, portanto, de uma sucessão de “destruições em massa causadas por monstros gigantes” seguidas de “destruições em massa causada por monstros gigantes” com alguns super-heróis no mix. O leitor que souber o que está esperando tem chance de se divertir com o resultado final.

E muito dessa diversão vem da arte. Afinal, há para todos os gostos. Steve McNiven, Greg Land, Leinil Francis Yu, Salvador Larroca e Adam Kubert formam o time, cada um se divertindo de sua maneira, em seu próprio estilo, criando majoritariamente páginas duplas que tornam a leitura um trabalho mínimo. No lugar de texto, há só pancadaria em larga escala, normalmente com uns 20 personagens (por baixo) por painel quebrando prédios, pontos turísticos e arremessando carros em diversas cidades do mundo, inclusive São Paulo. É como um campeonato de quem desenha os monstros mais feios e maiores e consegue juntar tudo em quadros minimamente coerentes, mas sempre extremamente tumultuados e de certa forma repetitivos. Cabe ao leitor, então, passear os olhos por cada uma das edições e decidir, por conta própria, quem fez melhor seu trabalho (meu preferido foi Salvador Larroca, se quiserem saber!).

Monsters Unleashed! não tem história, não tem consequências maiores para o Universo Marvel, não tem mortes (que não sejam dos monstros, claro), não tem senso de perigo. Mas tem bobeira, relaxamento, despreocupação com continuidade, auto-contenção e muita arte bonita. Uma coisa não necessariamente compensa a outra, mas, às vezes, é bom só mergulhar de cabeça em algo simplista – com qualidade – para então voltar para a seriedade do dia-a-dia.

Monsters Unleashed! (EUA – 2017)
Contendo: Monsters Unleashed! #1 a #5
Roteiro: Cullen Bunn
Arte: Steve McNiven (#1), Greg Land (#2), Leinil Francis Yu (#3), Salvador Larroca (#4), Adam Kubert (#5)
Arte-final: Jay Leisten (#1 e #2), Michael Jason Paz (#3)
Cores: David Curiel (#1 a #5), Michael Garland (#5)
Letras: Travis Lanham (#1)
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março a maio de 2017
Páginas: 30 aprox. (por edição)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.