Sagas Marvel | Os Vingadores: A Queda

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estrelas 3,5

Atenção: Há spoilers sobre a trama de A Queda. 

Da mesma forma que com Guerra Secreta, A Queda não é uma saga. Aliás, A Queda é menos saga do que Guerra Secreta, pois essa última teve a vantagem (ou desvantagem, depende se você gosta ou não do conceito de sagas) de ainda ter sido publicada em números próprios, separadamente. A Queda é um arco curto dentro da revista Os Vingadores, a partir do #500, até o #503, com mais um número separado intitulado, unicamente, de Finale.

Avengers-500 finalNo entanto, decidi que A Queda merecia figurar na coluna Sagas Marvel exatamente pela mesma razão que Guerra Secreta: as duas fazem uma espécie de “dobradinha” que pavimentou o caminho para os oito anos de sagas ininterruptas que se seguiram, todas elas, de uma forma ou de outra, comandadas por Brian Michael Bendis e que tiveram encerramento em Vingadores vs X-Men (não que não tenha havido mais sagas depois dessa – basta ver Infinity, por exemplo –  mas é que VvsX fecha, de certa forma, um gigantesco arco de sagas). Assim, a presença de A Queda, aqui, se justifica para o entendimento completo das futuras que serão comentadas na coluna.

Mas entender A Queda exige um pouco de conhecimento do que veio antes. O primeiro evento importante é que, não muito tempo antes, o Valete de Copas havia morrido. Até aí, nada muito especial. O que é realmente importante entender é o que aconteceu com a Feiticeira Escarlate e a história é para lá de complicada.

Ela ficara grávida de gêmeos que nasceram e passaram a ser criados por ela. O detalhe é que seu marido – e pai das crianças – era o Visão, um androide e sua gravidez, em tese, era impossível. E, realmente, era. Toda essa felicidade mostrou-se uma ficção, pois Wanda Maximoff, de forma inconsciente, usara seu próprio poder para engravidar e seus filhos eram, na verdade, “pedaços” da alma do demônio Mefisto. Não entendeu? Pois é. É bem difícil explicar mesmo. Mas basta saber que Agath Harkness, a bruxa mentora da Feiticeira Escarlate apagou as crianças da existência e também a memória de Wanda, com consentimento dos Vingadores.

Pegando esses acontecimentos do passado, Brian Michael Bendis constrói, em A Queda, uma história misteriosa, com os Vingadores sendo atacados brutalmente em sua própria mansão pelo corpo em decomposição do Valete de Copas, que explode matando Scott Lang, o Homem-Formiga. Não demora muito e o Visão aparece, começa a derreter e, no processo, regurgita umas bolas de metal que logo se transformam em cinco robôs Ultron. Simultaneamente, o Homem de Ferro, então Secretário de Defesa dos EUA, faz um discurso na ONU e ataca verbalmente o representante da Latvéria, ameaçando matá-lo e acabar com seu país. Já com a S.H.I.E.L.D. em campo, a Mulher Hulk entra em estado de fúria insana e espanca a Capitã Britânia e o Capitão América. A Vespa fica em estado crítico com o ataque dos Ultron. E, a cereja no bolo é um ataque Kree contra todos os Vingadores (todos mesmo, pois os heróis reserva aparecem para ajudar) em que o Gavião Arqueiro morre heroicamente. Ou seja, um diazinho infernal na vida dos Vingadores.

E, quando o leitor acha que será impossível para Bendis nos apresentar uma razão lógica para ataques tão díspares, eis que ele joga a carta “Doutor Estranho”, que entra na narrativa como um narrador quase, em sua forma astral, para, no alto de sua sapiência, contar que o problema vem de uma fonte só: a Feiticeira Escarlate e seu absoluto descontrole sobre seu poder de alteração das probabilidades e da realidade. Wanda, por uma indiscrição infantil da Vespa, passara a desconfiar de que ela havia tido filhos e seu subconsciente, então, conjurou tudo o que podia conjurar para acabar com aqueles que ela percebeu como traidores: os Vngadores. No processo, ela consegue destruir a credibilidade do grupo perante o governo americano e a ONU, matar alguns de seus membros e desequilibrar outros. Ela coloca o grupo em fragalhos, sem vontade para continuar e sem dinheiro para assim fazer se decidissem.

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A Feiticeira através dos tempos: com uma amiga como essa, quem precisa de inimigos?

É engraçado como as decisões editorias são tomadas. A história que relatei acima é riquíssima e poderia ter dado muito pano para manga em seu desenvolvimento. Mas Bendis e a Marvel trataram de tudo em apenas quatro números da revista dos Vingadores, o que acabou resultando em uma narrativa apressada e que toma muitos atalhos. Para começar, os Vingadores, apesar de extremamente experientes, ficam que nem barata tonta ao longo de toda a história. Sim, os ataques são muitos e variados, mas estamos falando de heróis poderosíssimos como Warbird (a ex-Ms. Marvel), Hércules, Homem de Ferro, Mulher Hulk, Namor, Coisa, Capitã Marvel e mais uma penca de outros. Se, por um lado, o leitor não tem tempo para respirar ou mesmo para pensar, por outro tudo parece muito conveniente demais, por mais poderosa que a Feiticeira Escarlate possa ser.

Além disso, há o atalho do texto extremamente expositivo usado a partir da chegada do Doutor Estranho, o único que parece ter a calma necessária para lidar com a situação. Sim, a trama pregressa é complicada, mas daí a empregar páginas e páginas de explicações em uma publicação que já se ressente de espaço, são outros quinhentos. E, no clímax, quase não há embate. São breves páginas com alguma pancadaria – vale especial destaque para o Capitão América sendo derrubado pelo Caveira Vermelha e soldados nazistas – mas que deixa o gosto de “quero mais”, com tudo resolvido em um estalar de dedos graças a Estranho. Esse é um dos pouco arcos narrativos em que fiquei desapontado por ser curto demais, rápido demais.

David Finch, em seu primeiro trabalho de peso para a Marvel, não desaponta ao colocar no papel o ritmo frenético estabelecido por Bendis. Todos os heróis têm sua própria personalidade e traços e ele consegue, dentro do pouco espaço que tem, criar ótimos painéis com belas cenas de ação. Desenhando o flashback para o começo de carreira da Feiticeira, temos Oliver Coipel, que trabalha de maneira a emular os quadrinhos da Era de Prata. Em Os Vingadores Finale (o epílogo do arco), a arte é de uma enorme gama de artistas que desenham uma narrativa que encapsula diversos flashbacks para momentos marcantes da carreira do super-grupo. Funciona muito mais como um exercício artístico do que narrativo, mas deixa claro que os Vingadores, como eles existiam, acabaram.

A Queda abre espaço de vez para duas vertentes narrativas na Marvel. A primeira delas é o reboot de Os Vingadores como Novos Vingadores e Jovens Vingadores que desaguam em Guera Civil e a outra é Dinastia M, abordando o que mais a Feiticeira Escarlate consegue fazer quando louca, dessa vez com foco nos mutantes. Um começo frenético para muitos anos de sagas e mais sagas Marvel.

Vingadores: A Queda (Avengers: Disassembled, EUA)
contendo Os Vingadores # 500-503 e Finale
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: David Finch, Oliver Coipel
Editora nos EUA: Marvel Comics, de agosto de 2004 a janeiro de 2005
Editora no Brasil: Salvat (2014 – encadernado)
Páginas: 184

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.