Sagas Marvel | Pecado Original

estrelas 1,5

Quando acabei a leitura de Pecado Original, confesso que olhei para meu tablet com enorme desânimo. Soltei um suspiro e pensei muito sobre o que escrever sobre essa saga Marvel que de “saga” não tem nada. Aliás, Pecado Original não tem nada de nada, talvez apenas os desenhos bonitos de Mike Deodato, mesmo assim nada que salve o conjunto.

Li mais de 200 páginas de um material absolutamente patético, com uma história mal ajambrada que é uma desculpa para Jason Aaron martelar mais um retcon apressado, bobo e infantil, além de completamente desnecessário. É como ler um roteiro de novela da Globo, mas com super-heróis no lugar do elenco abissal e sem anúncios.

pecado original marvel capaImediatamente, ao final, me veio à cabeça o magnífico trabalho de Ed Brubaker em trazer Bucky Barnes de volta à vida como o Soldado Invernal em um dos mais inteligentes retcons já feitos. Brubaker trabalhou com vagar, costurando uma narrativa relevante, com perfeita lógica interna, criando e recriando um personagem atormentado e tornando extremamente difícil sua reintegração à vida super-heroística. Havia, ali, uma razão de ser. Um porquê. Um propósito. Em Pecado Original, Jason Aaron e a Marvel (não posso culpar só Aaron por isso) não têm absolutamente nada que preste. Não têm história. Não têm reviravoltas inteligentes. Não têm uma narrativa minimamente cativante ou surpreendente. Raios, eles não têm nem mesmo sequências de ação razoáveis!

Acho que já deu para perceber em que direção vai essa crítica, não? Mas podem ficar tranquilos que não haverá spoilers, só um longo desfile de reclamações…

A trama é um whodunit clássico que investiga a morte de Uatu, o Vigia da Terra, morador do Setor Azul da Lua. Depois de uma preâmbulo (Pecado Original #0) em que, por intermédio do jovem Sam Alexander, o Nova atual, aprendemos o porquê de o Vigia fazer o que faz, a coisa começa de verdade. É um começo enganosamente interessante cuja revelação jamais é usada na saga em si, caindo no vazio do esquecimento. Durante os oito números da história, vemos dois grupos de heróis investigando o assassinato, que destruiu a base do silencioso ser, deixando-o morto com um tiro na cabeça e sem os dois olhos. O primeiro grupo é os Vingadores, formados aqui por Capitão América, Homem de Ferro, Wolverine, Viúva Negra, Homem-Aranha, Thor e Coisa, além de Nick Fury (aposentado, mas que aceita ajudar) e, o segundo, arregimentado por uma figura misteriosa, é formado por Doutor Estranho, Justiceiro, Soldado Invernal, Gamora, Cavaleiro da Lua, Pantera Negra, Emma Frost e Homem-Formiga (Scott Lang).

As investigações paralelas revelam que alguém (ou “alguéns”), há muitos e muitos anos, vem fazendo trabalhos sujos nos bastidores de todo o Universo Marvel. Essas descobertas ficam ao encargo do segundo grupo, que é dividido em duplas improváveis, com apenas uma realmente explorada na narrativa, a que é formada pelo Doutor Estranho e pelo Justiceiro e que gera bons momentos cômicos diante do inusitado da situação. Os Vingadores, por sua vez, se vêem às voltas com o “conhecidíssimo” vilão Orbe que, no lugar da cabeça, tem um grande olho (perceberam a conexão brilhante – vilão olhudo e Vigia sem olhos? Hummm…) e que não fala lé com cré. É lógico que, não demora, e as duas narrativas acabam convergindo, gerando os mal-entendidos de rigueur e ações e revelações que só pegarão de surpresa os mais inocentes leitores.

Mesmo se consideramos a história como minimante interessante (o que, definitivamente, não é o caso deste crítico), o desenvolvimento que Aaron imprime à saga é, para usar um eufemismo, claudicante. Ele claramente não tinha material para montar uma saga, muito menos uma que tem oito números (nove, tecnicamente) como fio condutor e mais uma série spin-off em formato de antologia batizada de Pecados Originais e crossovers com publicações mensais comuns, todas elas dando cabo de um momento logo no início da saga principal em que o Orbe faz com que o “olho do Vigia” revele segredos secretíssimos em relação a todos os heróis na luta e vários outros em um raio de alguns quilômetros. Já adianto, porém, que, apesar de a série extra e os crossovers não serem objeto da presente crítica, elas também não apresentam nada de verdadeiramente relevante além de um excesso de “poluição” no passado de vários heróis com acontecimentos retconados até não poder mais.

O que se pode dizer de bom do trabalho de Aaron é que, por mais imbecil que seja a narrativa, ela, ao menos, segue uma lógica interna (o que é diferente de simplesmente “lógica”) e tem um final que realmente encerra a saga, sem penduricalhos e sem grandes elucubrações e que, pelo menos em tese, altera o status quo para alguns heróis (pelo menos três deles são afetados mais claramente pelos acontecimentos). Em outras palavras, a história é auto-contida e não exige nem grandes conhecimentos prévios da continuidade do Universo Marvel nem de muitos detalhes sobre os heróis. Em compensação, Aaron exagera nos textos expositivos por páginas e páginas, especialmente quando vem a grande revelação final, que mais parece um final de livro de Agatha Christie, com a diferença que nada do que é revelado é inteligente, surpreendente ou bem feito.

Como disse acima, a arte de Mike Deodato é bonita e detalhada. Como muito da ação (vamos fingir por um momento que há ação…) se passa no espaço ou em lugares exóticos, ele tem oportunidade de criar belíssimos detalhes de fundo, além de imagens de meia página chocantes e eficientes. Os heróis são desenhados a costumeira eficiência do artista, mas a necessidade de se dar um aspecto “realista”, com semi-armaduras usadas por quase todos no espaço, acaba pasteurizando-os.

Aaron tinha em mãos, no máximo, uma história em duas partes dentro de Vingadores ou Novos Vingadores, nada que justificasse realmente uma saga abordada e anunciada com toda a pompa e circunstância. Pecado Original é um desperdício de tempo, papel e tinta. Realmente um pecado! (sim, se Aaron pode fazer sagas ruins, eu posso fazer trocadilhos infames…)

Pecado Original (Original Sin, EUA – 2014)
Contendo: Pecado Original #0 a 8
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Mike Deodato
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: abril a setembro de 2014
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: a partir de julho de 2015
Páginas: 240

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.