Sagas Marvel | Planeta Hulk (O Incrível Hulk #92 a 105)

estrelas 4

Esta é a história do Cicatriz Verde. O Olho da Fúria. O Quebra-Mundos. Harkanon. Haarg. Holku. Hulk. E de como ele foi finalmente para casa.

Obs 1:spoilers do evento.

Obs 2: Planeta Hulk não pode ser considerada como uma saga Marvel propriamente dita, pois esse termo é, geralmente, descritivo de linhas narrativas que no mínimo afetem diretamente um bom pedaço do Universo Marvel. Mas Planeta Hulk é um evento muito importante não só para entendermos o porquê do Gigante Esmeralda não ter participado da saga Guerra Civil, como também – e mais importante – serve de um longo prelúdio para a saga Hulk Contra o Mundo, essa sim com efeitos amplos. Isso justifica, portanto, sua presença aqui na coluna Sagas Marvel.

Sempre procurei fugir da leitura de Planeta Hulk. Algo na história não me atraía, não sei exatamente o que. Talvez fosse a ideia simplista de mandar o Hulk para fora da Terra para que ele causasse destruição sem limites em outro planeta. Talvez fosse só desinteresse mesmo pelo personagem, que nunca foi um de meus favoritos da editora.

Mas, munido de paciência, encarei os 14 números de O Incrível Hulk, Vol. 2 que compõem esse evento e posso dizer, sem qualquer sombra de dúvidas, que fui pego de surpresa. Expectativas baixas? Talvez, mas Planeta Hulk, apesar de realmente não oferecer uma narrativa complexa, é muito bem escrito por Greg Pak, que consegue fazer do proverbial limão uma gostosa limonada.

planeta hulk capa

A capa do encadernado americano.

Em termos de história, vale recapitular que os Illuminati, grupo formado pela “elite” dos heróis Marvel – Reed Richards, Raio Negro, Tony Stark, Namor, T’Challa, Doutor Estranho e Charles Xavier (esse último ausente) – que age “nas sombras”, decide, quase à unanimidade (a exceção é Namor), mandar o Hulk para um planeta desabitado, para que ele não mais seja uma ameaça à Terra. Temos que aceitar, aqui, um pouco de pulos de lógica, pois o Hulk até pode ser mesmo uma grande ameaça, mas daí a todos perderem a esperança no monstro e bani-lo da Terra, são outros quinhentos. No entanto, se aceitarmos a premissa, o resto é fácil, pois a nave dos Illuminati, que deveria levar Hulk para o tal planeta desabitado acaba sendo tragado por um evento cósmico e ele vai parar em Skaara, que de desabitado não tem absolutamente nada.

Com trama que foi claramente inspirada na trajetória de Spartacus, Hulk passa de monstro furioso para gladiador, para líder de um grupo de rebeldes, para inspiração para um povo e para libertador de um mundo, amealhando, no processo, não só fieis escudeiros – Korg, o Kronano, ser de pedra que foi o primeiro inimigo de Thor; um membro sem nome da Ninhada; Hiroim, o Humilhado; Elloe Kaifi; Miek – como uma esposa, Caiera, a Fortaleza, guerreira que, inicialmente, serve ao tirânico e brutal Rei Vermelho, o grande vilão da história. A trajetória é simples e trágica, uma verdadeira desculpa para criar situações cada vez constantes e maiores de destruição total, com um Hulk não só inteligente como muito mais poderoso do que normalmente o vemos por aí. Nada de errado com isso, que fique claro.

Mas, o que realmente retira a história do lugar-comum que ela, ao menos em tese, deveria se encaixar, é a sagacidade com que Greg Pak nos apresenta à mitologia dos diversos povos que coexistem em Skaara, representados pelo grupo de amigos (uma espécie de Os Sete Samurais) de Hulk, ou Cicatriz Verde, um dos nomes pelo qual ele é chamado. Cada um ganha uma história pregressa, contada em flashbacks óbvios, mas bem inseridos. Além disso, Pak investe tempo no desenvolvimento desses personagens coadjuvantes, tornando-os relevantes para a história de maneira orgânica e não simplesmente deixando que eles formem um bando de personagens estranhos reunidos de qualquer jeito. Isso é particularmente verdadeiro para Miek, ser insectoide que é essencial para a história, com evolução não só psicológica como física. Mas o mesmo vale para os demais, como Caiera e Hiroim (que são da mesma raça). Apenas Korg é mal-tratado, mas o mero fato de ele ter sido um dos gigantes de pedra que aparecem como inimigos de Thor em Journey into Mystery #83, de 1962, que marcou a primeira aparição do Deus do Trovão, já empresta ao personagem uma aura toda especial.

mosaico hulk

(1) o épico confronto entre Hulk e o Surfista Prateado; (2) Hulk esmaga; (3) o Rei Vermelho e sua armadura high-tech.

Do lado dos vilões, o único que realmente importa é o ensandecido Rei Vermelho, que usa uma armadura/exoesqueleto que envergonharia as traquitanas do Homem de Ferro. Ele é completa e irremediavelmente unidimensional, sem qualquer tentativa de evolução por parte de Pak. Ele é terrivelmente mau do começo ao fim, servindo como o grande nêmesis cujos atos impulsionam, de uma forma ou de outra, os acontecimentos desse longo arco, com um resultado final óbvio, mas divertido, ainda que um pouco corrido demais, somente para emprestar o necessário ar trágico que faz parte da gênese e do propósito de existir de Hulk, o que, por si só, levanta questões filosóficas interessantes.

Outro aspecto que acrescenta e muito ao roteiro de Greg Pak é a arte de Carlo Pagulayan e de Aaron Lopresti. Os dois, que trabalharam em todos os números da história, têm um estilo limpo, heroico, que faz Hulk parecer ao mesmo tempo humano e monstruoso, permitindo que ele transite entre alguns momentos de relativa calma e vários outros de muita raiva e pancadaria. Aliás, no quesito “pancadaria”, a dupla demonstra perfeito controle na composição dos quadros, com distribuição de personagens de maneira equilibrada e lógica, além de nos presentear com verdadeiras páginas épicas. E o design de criaturas é muito engenhoso, mas sem arriscar muito. A maioria dos ETs é de aparência humanoide, mas, quando eles partem para trabalhar Miek e seu povo, além de alguns monstros inimigos, como o monstro de lava e o povo conhecido apenas como Espinhos, a arte explode em criatividade contida. E isso sem falar, claro, no já clássico visual gladiador de Hulk, que combina perfeitamente com o conceito do personagem.

Planeta Hulk é uma leitura muita divertida e sobretudo gratificante, que consegue trabalhar tanto o lado completamente selvagem do Gigante Esmeralda, quanto seu lado gentil e humano. A tragédia de Hulk, traído por seus amigos e que encontra outros do outro lado do universo é uma linda homenagem ao personagem e a tudo que ele representa.

Planeta Hulk (Planet Hulk, EUA – 2006/2007)
Conteúdo: O Incrível Hulk, Vol. 2 #92 a 105 e Giant-Size Hulk #1
Roteiro: Greg Pak
Arte: Carlo Pagulayan, Aaron Lopresti, Gary Frank, Takeshi Miyazawa
Arte-final: Jeffrey Huet, Sandu Florea, Jon Sibal
Cores: Chris Sotomayor, Laura Martin, Lovern Kndzierski, Christina Strain
Editora (nos EUA): Marvel Comics (publicado entre abril de 2006 e junho de 2007)
Editoras (no Brasil): Panini Comics e Salvat

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.