Sagas Marvel | Vingadores vs. Thanos – Parte Dois

You’re missing that one final screw
You’re simply not in the pink my dear
To be honest you haven’t got a clue
I’m going slightly mad
I’m going slightly mad
It finally happened, happened
It finally happened, ooh woh
It finally happened, I’m slightly mad
Oh dear
– Queen

Adam Warlock definitivamente não é o tipo de super-herói que se espera encontrar em publicações mainstream de quadrinhos. Apesar de ter surgido, ainda apenas chamado de “Ele”, de maneira bastante simplória em Quarteto Fantástico e não evoluído quase nada em seu encontro posterior com Thor, quando ele foi finalmente aproveitado por Roy Thomas, sendo rebatizado para seu nome atual e tornando-se uma impressionantemente complexa figura messiânica, com paralelos diretos com a Bíblia e Jesus Cristo (leia, aqui, esse início do personagem), Adam Warlock realmente deslanchou. De posse da joia da alma (ainda no início do desenvolvimento das Joias do Infinito), a figura torturada do herói passou por uma breve aventura de apenas oito edições em The Power of Warlock (de agosto de 1972 a outubro de 1973), sua primeira revista própria que praticamente tinha como objetivo desenvolver e encerrar a linha narrativa da Contra-Terra e do Alto Evolucionário iniciada por Thomas.

Dois anos depois, essa publicação foi renomeada para apenas Warlock e sua numeração foi mantida, ou seja, ela “começa” com a edição #9. Mas uma grande modificação foi feita: Jim Starlin passou a ser a mente criativa por trás dos roteiros e da arte, como parte de seu projeto megalômano de expandir a mitologia de Thanos, o Titã Louco, que protagonizara uma das primeiras grandes sagas da Marvel Comics, tendo o Capitão Marvel (outra alma torturada da editora) no epicentro. Starlin, porém, estava no ponto alto de sua criatividade e ele não se contentou em apenas usar Warlock como veículo para trazer Thanos de volta. Primeiro e com muita calma, ele tratou de desenvolver Warlock ainda mais, abraçando ainda mais completamente a sua figura de Cristo, mas acrescentando fascinantes camadas para o personagem que se tornaria o grande opositor do vilão que criara anos antes.

Com isso, Jim Starlin começou uma nova saga que acabaria colocando Thanos contra os Vingadores mais uma vez, começando em 1975 em Strange Tales que abriria espaço para a mencionada publicação solo de Warlock, que ele usou da edição #9 até a 15, a última, ou seja, mantendo a narrativa quase que integralmente ao redor do herói dourado. Somente em 1977 é que a história seria então expandida para três outras publicações (uma edição cada), que aumentaria o escopo do plano de Thanos e envolveria, em escala maior, outros heróis Marvel, notadamente os Vingadores, resultando em uma segunda saga que consegue ser ainda melhor que a primeira.

Em Strange Tales #178 a 181 e depois em Warlock #9 a 11, Starlin conta uma história razoavelmente fechada em que Warlock tem que enfrentar Magus, o fundador da Igreja da Verdade Universal, que dominou milhares de mundos à força, em um mortal jihad religioso galático. Mas o autor não criou apenas mais um super-vilão. Ao contrário, Magus é o próprio Adam Warlock, ou melhor, sua versão futura e distorcida pela corrupção da joia da alma que ele carrega em sua testa. Em outras palavras, o herói tem que enfrentar ele mesmo, em uma narrativa que o coloca no inexorável caminho da loucura, mas uma loucura auto-consciente e, por isso mesmo, agoniante e torturante, literalmente deixando-o em uma situação sem saída aparente, esmagado entre cometer atos que o levam na direção de Magus ou literalmente suicidar-se para evitar que Magus surja. Quando disse que Adam Warlock, especialmente depois da pegada de Starlin, não é um super-herói típico de uma editora mainstream de quadrinhos, não estava brincando!

Mas há mais. Starlin aproveita para usar Warlock como um trampolim para o detalhamento de como funciona a joia da alma também, uma verdadeira entidade vampírica que absorve almas para dentro de si, acumulando personalidades que batalham com a do próprio super-herói. É essa joia o jogo final de Thanos que aparece fisicamente somente ao final de Warlock #9, apesar de ele estar espiritualmente presente desde um pouco antes por intermédio de Gamora, que se junta a Warlock e também a Pip, o Troll, que havia sido salvo antes pelo Messias Galático. Thanos opõe-se a Magus que, em uma jogada de mestre de Starlin, representa a vida, enquanto ele, Thanos (nome que vem do grego Tanatos  e que literalmente significa Morte ou o Deus da Morte) representa a morte ou, ainda mais especificamente, é amante da Morte. Magus, então, é a ameaça efetivamente aos planos do Titã Louco e Warlock, a versão “anterior” do líder da Igreja da Verdade Universal, é, apenas, alguém que pode ser manipulado para evitar que Magus surja.

Tentar explicar os detalhes dessa fascinante história é cair na armadilha do reducionismo. Esta é, sem dúvida alguma, uma das melhores (diria Top 3) narrativas evolutivas de personagens em todos os quadrinhos mainstream, ficando lá em cima mesmo considerando todos os quadrinhos como um todo. Há, sem dúvida, muita repetição, muita explicação, pois, à época, era comum que cada edição resumisse os eventos da anterior, o que gera um certo cansaço, mas Starlin até nisso consegue diferenciar-se, encontrando saídas criativas para lidar com essa necessidade. E isso sem falar em sequências absolutamente memoráveis como o julgamento de Warlock por Kray-Tor que é kafkiano em todos os sentidos e incrivelmente crítico do sistema Judiciário em geral.

Quando essa primeira parte acaba, Starlin cria um interlúdio. Dois, na verdade. O primeiro deles (Warlock #12) é uma história centrada em Pip, o Troll, em que ele, por puro interesse próprio (a única coisa que o motiva) aceita a missão de libertar uma cortesã de sua prisão de prazeres. Mesmo aqui, Starlin não brinca em serviço e oferece uma história que arrisca muito, especialmente considerando a vigência do famigerado Comics Code à época (é hilário como o letrista Tom Orzechowski famosamente alterou o logo do Comics Code em uma edição para Cosmic Code e ninguém percebeu…).

O segundo interlúdio (Warlock #13 e 14) é bem mais complexo e coloca Adam Warlock, ainda em busca de controle sobre a joia da mente, vagando pelo espaço até perceber que as estrelas estão desaparecendo. O vilão é o Ladrão de Estrelas, ou, apenas, Barry Bauman, um homem da Terra de 24 anos que nasceu sem nenhum dos cinco sentidos e, vivendo dentro de si mesmo, desenvolve um vastíssimo poder que o corrompe e que ele usa como vingança por sua condição. A história é fascinante por seus conceitos e pela forma como ela acaba – de maneira simples e melancólica -, mas Starlin falha com verborragia excessiva e uma estrutura cansativa de testes pelos quais Warlock tem que passar.

É somente em Warlock #15 que a Saga de Thanos (ou Vingadores vs Thanos – Parte Dois) realmente recomeça. Mas a edição final da publicação solo do herói funciona apenas como um prelúdio para os eventos seguintes, com um alienígena prevendo o trágico (mais trágico!) futuro do herói, que o veria sozinho, com todos aqueles por quem ele já se importou mortos, além de reintroduzir Thanos, Gamora, Pip e, muito rapidamente, Drax. Além disso, pela primeira vez vemos Warlock entrar na joia da alma e enfrentá-la em sua sana vampírica, descobrindo que ela é uma de seis joias, algo apenas “jogado” nos quadros finais da edição.

Sem uma casa fixa, Warlock volta à Marvel Comics somente em março de 1977, em uma improvável aliança com o Homem-Aranha (Marvel Team-Up #55) que é arremessado da Terra em um foguete que o herói messiânico consegue manobrar e fazer pousar na Área Azul da Lua, onde mora o Vigia. Lá, os dois enfrentam o Estranho, um dos Anciões do Universo e possuidor de outra joia da alma (àquela época, as joias do infinito era todas chamadas de joias – ou gemas – da alma). Com a ajuda de outro Ancião, o Jardineiro, possuidor de uma terceira joia, eles o derrotam. A história, escrita por Bil Mantlo é daquelas básicas, feitas para reintroduzir Adam Warlock e avançar um pouco nos detalhes das joias para abrir espaço para a volta efetiva de Thanos.

E essa volta acontece em Vingadores Anual #7, de abril de 1977, uma publicação com um pouco mais de espaço para Jim Starlin terminar o que começou, entregando um final filosófico e romântico para Adam Warlock (pelo menos até esse ponto). Com o herói sem publicação própria, esse encerramento de seu longo arco funciona perfeitamente bem e retornando aos conceitos introduzidos por Starlin na revista solo do herói. Mas, claro, a inclusão dos Vingadores torna-se necessária para justificar o encaixe da história na edição especial anual do grupo e essa inclusão, infelizmente, é burocrática e, basicamente, um auto-plágio, já que Starlin faz, aqui, exatamente o mesmo que fizera com os heróis em seu primeiro encontro com Thanos: colocá-los contra uma armada intergalática vindo em direção à Terra.

Com isso, o grupo, neste caso composto por Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Visão, Feiticeira Escarlate, Fera e dois convidados especiais, Serpente da Lua e Capitão Marvel, acaba enfrentando diretamente o Titã Louco em sua Arca espacial com a ajuda – o sacrifício, na verdade – de Adam Warlock. Não é uma história particularmente memorável em sua evolução, mas, como já mencionei, seu final é belíssimo para Warlock, Gamora e Pip, os improváveis amigos galáticos cuja aliança vinha sendo formada desde o começo desta parte da saga.

Mas esse final não é o final efetivo. Ele só vem em maio de 1977, com Marvel Two-in-One Annual #2, em uma história envolvendo o Homem-Aranha e o Coisa, que são manipulados pelo Caos e pela Ordem a juntarem-se em uma missão galática que, confesso, nunca combinou bem com esses dois heróis. De toda forma, é Starlin que, na verdade, nos manipula, pois ele, inteligentemente, converte o final do anual dos Vingadores em uma ilusão de Thanos para livrar-se de Warlock, que é absorvido pela joia da alma. Cabe, então, ao Aracnídeo e ao Coisa, libertar os Vingadores da estase imposta pelo amante da Morte para que o combate recomece. Warlock participa da luta em uma brevíssima e definitiva ponta que põe fim ao conflito e fecha com chave de ouro esse seu primeiro grande ciclo.

Não poderia deixar de encerrar a presente crítica sem falar da arte de Jim Starlin que, com exceção de Marvel Team-Up #55, é toda dele. Não só o vemos em sua forma máxima em termos de roteiro, mas também em criatividade, começando pela espetacular nova – e definitiva até onde me consta – versão – do uniforme de Adam Warlock, mantendo a padronagem clássica de cores, mas acrescentando elementos góticos belíssimos, além de mudar um pouco a fisionomia do herói, aprofundando os arcos escuros ao redor de seus olhos. Magus, por sua vez, é um problema, já que ele é a versão sombria do herói e ele foi desenhado com cabelo afro (algo diretamente mencionado na história) e com uma tonalidade mais escura, lilás. As implicações são particularmente complicadas aqui, pois parece haver uma espécie de racismo velado que eu prefiro acreditar que foi sem querer.

Não obstante esse problema, as criaturas e os mundos reais ou não, notadamente do início da saga, integralmente focada em Warlock e também a progressão dos quadros, foram diretamente inspirados no trabalho lisérgico de Steve Ditko e são um triunfo do começo ao fim. Starlin injeta vigor e atleticismo em cada personagem sem que eles pareçam artificiais, mesmo quando completamente alienígenas. É um trabalho para se observar com calma e tranquilidade no maior formato possível.

A segunda e última parte da saga Vingadores vs. Thanos é uma obra-prima dos quadrinhos Marvel. Adam Warlock nunca seria tão bem representado como aqui e Starlin nunca alcançaria o mesmo nível de qualidade, nem mesmo em sua famosa Trilogia do Infinito. Um trabalho indispensável da Nona Arte.

Vingadores vs. Thanos – Parte Um (EUA – 1975/77)
Contendo (na ordem de leitura): Strange Tales #178 a 181, Warlock #9 a 15, Marvel Team-Up #55, Vingadores Anual #7, Marvel Two-in-One Annual #2

Strange Tales #178 a 181
Roteiro: Jim Starlin
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Jim Starlin
Cores: Glynis Oliver Wein
Letras: Annette Kawecki, Tom Orzechowski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro a agosto de 1975
Páginas: 21 por edição

Warlock #9 a 15
Roteiro: Jim Starlin
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Steve Leialoha
Cores: Petra Goldberg, Steve Leialoha, Michele Wolfman
Letras: Tom Orzechowski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro de 1975 a novembro de 1976
Páginas: 21 por edição

Marvel Team-Up #55
Roteiro: Bill Mantlo
Arte: John Byrne
Arte-final: Dave Hunt
Letras: Susan Fox
Cores: George Roussos
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março de 1977
Páginas: 18

Vingadores Anual #7
Roteiro: Jim Starlin
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Joe Rubinstein
Letras: Tom Orzechowski
Cores: Petra Goldberg
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: abril de 1977
Páginas: 35

Marvel Two-in-One Annual #2
Roteiro: Jim Starlin
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Joe Rubinstein
Letras: Annette Kawecki
Cores: Petra Goldberg
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: maio de 1977
Páginas: 35

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.