Sagas Marvel | Vingadores vs. Thanos – Parte Um

Com a sana da publicação de sagas atrás de sagas que praticamente tomaram e afetaram as publicações da Marvel Comics a partir do ano 2000, é muito interessante e refrescante voltar no tempo e perceber que, bem antes das primeiras sagas propriamente ditas serem publicadas (podemos considerar Guerras Secretas, de 1984, como a gênese de tudo, mas é também possível considerar Torneio de Campões, de 1982, como o verdadeiro início), com suas publicações próprias “contaminando” a linha editorial com infinitos tie-ins, elas eram feitas de maneira bem menos marketeira e, portanto, bem menos intrusiva, dentro das publicações normais da editora na forma de crossovers, muitas vezes nem mesmo tendo um nome. É o que aconteceu com a Guerra Kree-Skrull entre 1971 e 1972 e, também, com Vingadores vs. Thanos, designação ampla que aconteceu em dois momentos, entre 1973 e 1974 tendo o Capitão Marvel em seu centro e entre 1975 e 1977, tendo Adam Warlock como personagem central, mas sempre com o roteirista, argumentista e desenhista Jim Starlin envolvido em algum capacidade, ou seja, com ele sendo o fio condutor de toda a ampla história.

Aqui cabe um parênteses importante justamente sobre o nome da referida saga. Como ela não foi nomeada originalmente, ela já foi designada, mais tarde, como Guerra Thanos (Thanos War) que especificamente seria a Parte Um de Vingadores vs. Thanos que é o objeto da presente crítica. A Parte Dois, em separado, já foi batizada de O Retorno de Thanos e, às vezes, Guerra com Adam Warlock. Mas o conjunto completo foi batizado, nos EUA, para fins de publicação de um enorme compilado, de Vingadores vs. Thanos e é assim que eu decidi batizar a presente crítica, separando em duas partes bem definidas.

O começo da saga, portanto, dá-se na edição #55 de O Invencível Homem de Ferro que já abordei especificamente aqui. É nela que tanto Thanos quanto Drax, o Destruidor, são apresentados pela primeira vez nos quadrinhos, além de Mentor e Eros, respectivamente pai e irmão de Thanos. É nessa edição que também conhecemos a origem desses dois personagens e o começo da fantástica mitologia envolvendo Thanos por Starlin que se desdobraria ao longo de décadas. Feita essa introdução magnífica, a história então passa, quase toda ela, a concentrar-se na publicação solo do Capitão Marvel, já com seu uniforme vermelho e azul e dividindo o tempo com Rick Jones com seus braceletes nega, depois da Guerra Kree-Skrull.

(1) A tortura mental de Drax e (2) a obtenção do Cubo Cósmico por Thanos.

Thanos tem um plano, claro, e o primeiro passo, depois do que vemos na história do Homem de Ferro, é capturar exatamente o eterno sidekick Rick Jones para extrair de seu subconsciente algo que nem o jovem sabia que estava lá: a localização do Cubo Cósmico. É de posse dessa poderosíssima arma, que sugira pela primeira vez em Tales of Suspense #79, de julho de 1966, que o Titã Louco começa a montar seu estratagema de dominação universal – começando pela Terra, lógico – como um presente para sua amada, ninguém menos do que a Morte, entidade que está o tempo todo ao lado do vilão, mas que nunca se manifesta. Logo de cara, percebemos a ambição do trabalho de Starlin que, se pensarmos bem, levaria a temática à exaustão com suas sagas “Infinito” anos depois. Mas o embrião está aqui e o desafio é como escrever o super-poderoso Thanos manuseando o super-poderoso Cubo Cósmico sem que a balança não descambasse vertiginosamente uma lado apenas e sem que fosse necessário inventar algo completamente sem sentido para trazer o necessário equilíbrio.

A primeira estratégia usada por Starlin e também por Mike Friedrich, responsável por diversos dos roteiros desta saga, é a famosa “enrolação”. Thanos, ao longo de dois terços (ou quase) das edições fica nos bastidores enviando vilões para fazerem seu trabalho sujo. É o caso do sempre divertido Super-Skrull e do estranho Controlador, que criam problemas para o Capitão Marvel, Rick Jones e também para Lou-Ann Savannah, namorada de Rick. Mas os roteiristas fazem algo mais aqui e focam muito na evolução do Capitão Marvel, sem dúvida o centro das atenções de toda a saga, talvez até mais do que o próprio Thanos.

Como se sabe, Mar-Vell começou como um guerreiro Kree enviado à Terra para uma missão de espionagem/sabotagem que foi traído por Yon-Rogg, de sua própria raça em razão de ciúmes, o que resultou em tragédia para o herói. De um guerreiro praticamente sem poderes próprios, ele evolui para um dos mais poderosos Kree, adotando seu uniforme mais famoso. Depois, ele passa a dividir o “espaço” com Rick Jones, emulando o que acontece classicamente com o Capitão Marvel original da Fawcett Comics. Aqui, Starlin dá um passo além – bem além – e, por meio da entidade conhecida como Eon, atuando sob as instruções do todo-poderoso Kronos, pai de Mentor e um dos seres cósmicos mais importantes do panteão da Marvel, o guerreiro Kree, então, evolui para um ser dotado de consciência cósmica, um conceito maleável que, na prática, o permite uma conexão mais ampla com o universo, sentindo coisas que outros seres não conseguem sentir, como, por exemplo, as fraquezas em seus inimigos. Essa transformação, porém, é magnificamente bem construída por Starlin tanto em sua arte quanto em seu texto, colocando Mar-Vell literalmente contra ele mesmo e redescobrindo-se no processo e é ela que permite a vitória sobre Thanos.

(1) Mar-Vell encontra-se com Eon e (2) Eon inicia a reprogramação do herói Kree.

Aliás, a referia vitória só é mesmo possível em razão da segunda estratégia usada por Starlin em relação ao vilão de sua criação: o freio do poder incomensurável de Thanos é seu próprio ego, seu próprio orgulho. Se pararmos para pensar, no mundo em que vivemos, em que todo mundo praticamente precisa colocar suas vitórias e conquistas – ou qualquer coisa, na verdade – nas redes sociais para que conhecidos e desconhecidos venham dar tapinhas nas costas virtuais, essa “desculpa” de Starlin é absolutamente crível. O Titã Louco quer ser reconhecido como o ser-superpoderoso que é e esse reconhecimento jamais viria se, usando o Cubo Cósmico de maneira ampla, ele apenas estalasse os dedos e matasse seus inimigos ou desfizesse a realidade. Sua hubris é sua queda e Mar-Vell, de posse de seus novos poderes, percebe isso e manobra esse aspecto ao seu favor em um embate obviamente protraído no tempo mais do que era mesmo necessário, mas que funciona dentro da lógica da narrativa.

Outra estratégia usada por Starlin é a de dar dimensões universais à saga, ao mesmo tempo que reduz a quantidade de heróis que realmente são importantes na narrativa. Usando o tal orgulho de Thanos, o roteirista consegue criar uma lógica – razoavelmente forçada, mas que faz sentido – para tirar a grande maioria dos Vingadores do embate, focando seus esforços no Capitão Marvel/Rick Jones (obviamente), Homem de Ferro, por ser o primeiro inimigo de Thanos, Drax, por ter sido criado para matar Thanos, Serpente da Lua, por ser filha de Drax e, finalmente, Mentor e Eros, por seus laços familiares com Thanos e por grande parte da ação passar-se em Titã, lua de Saturno e lar deles. Mas o restante dos Vingadores não é esquecido e há um breve crossover com a equipe que fica na Terra que, dentro da cronologia da época, tinha acabado de derrotar o Zodíaco e o Capitão América, separadamente, havia lidado com a primeira versão do Império Secreto, em uma linha narrativa que o abala muito psicologicamente.

Portanto, logo antes da luta final entre o Capitão Marvel e Thanos, a saga faz um desvio e o foco se vira para a equipe na Terra, com Mantis, Espadachim, Thor, Visão, Feiticeira Escarlate, Capitão América e Pantera Negra, além de uma aparentemente incongruente inclusão do Homem de Ferro, já que ele fora um dos heróis abduzidos por Thanos, mas que é muito bem resolvida em um texto de costura de Steve Englehart com uma daquelas páginas-resumo com arte de John Buscema. O foco, aqui, é na armada espacial que Thanos mandara em direção à Terra para dominá-la (algo que ele não precisava fazer, considerando seu poder divino com o Cubo Cósmico, mas que, novamente, faz sentido se pensarmos em seu orgulho, em seu ego) e os esforços são concentrados nesse conflito, deixando o lado verdadeiramente cósmico da saga restrito ao grupo de heróis em Titã.

(1) Kronos aprisionado e (2) o primeiro confronto direto de Mar-Vell contra Thanos.

Quando voltamos para lá, na edição #33 de Capitão Marvel, com Thanos, tendo drenado o Cubo Cósmico e transformado-se literalmente em um deus, enfrenta o Capitão Marvel, somente para, quase que instantaneamente, a ação ser toda transportada para a Terra depois que o Titã percebe que sua armada espacial fora derrotada pelos Vingadores. Lá, descobrimos, em um desenvolvimento completamente fora de compasso, que o objetivo de Thanos ao mandar os Vingadores para o espaço foi deixá-los fora de “fase” em relação ao tempo na Terra, fazendo-os desaparecer. Somente Mantis consegue burlar esse estratagema, avisando Mar-Vell em seguida e levando-o à luta final contra Thanos ao lado de Drax, o Destruidor. Em suma, Starlin “limpa” sua narrativa de interrupções e de excesso de personagens e mantém sua história mais pessoal e, de certa forma, restrita em alcance, sem que ela, porém, perca o semblante de saga.

O final da luta, porém pode desapontar alguns, pois ele é bastante simples e objetivo em sua superfície e poderia ter sido alcançado muito antes e com muito menos esforço. No entanto, Starlin é mestre em trazer questões filosóficas para dentro de sua narrativa e ele usa essa saída realmente simplificada para lidar com deuses e seus adoradores e o que isso realmente significa. A silenciosa Morte é incluída nesse raciocínio um tanto quanto verborrágico ao final, mas tudo se encaixa muito bem, ainda que toda a saga pudesse muito facilmente ser bem mais curta do que é. Além disso, a edição seguinte, normalmente inserida como parte da saga por ter duas páginas que funcionam como epílogo, é, porém, muito importante para a mitologia do Capitão Marvel já que é nela que ele enfrenta Nitro e é exposto ao Composto 13 que, mais tarde, Starlin usaria para justificar a trágica e inesquecível morte do herói cósmico.

Não seria justo acabar a crítica, porém, sem abordar a magnífica arte de Jim Starlin ao longo de toda a saga. Não só o desenhista tem um impressionante controle sobre a fluência narrativa, conseguindo lidar com histórias de origem e recapitulações cheias de texto de forma fácil de ler e cadenciada com imagens muito representativas do que ele tenta explicar. Em termos de criatividade, Thanos – claramente inspirado em Darseid, da DC Comics e que também seria a base para o seu sensacional Lorde Papal, de Dreadstar – é um personagem completo, com uma aparência que rima com sua história pregressa e com seus planos malignos. O mesmo vale para o quase louco Drax e, claro, a forma como ele atualiza o próprio Capitão Marvel, ainda que apenas alterado alguns detalhes. Mas Starlin se destaca mesmo é no detalhamento dos planos de fundo e quando ele lida com o plano cósmico em sua plenitude. Além disso, é impressionante ver sua pegada lisérgica quando o lado psicológico dos personagens é o foco da história, como acontece com Drax e, claro com o Capitão Marvel. Se a saga é longa demais para a pouca história que tem, ela é curta demais para a apreciação da arte de Starlin, fazendo com que uma coisa compense a outra muito facilmente. Starlin continuaria nessa pegada mais para a frente, mas diria que é aqui, nesse início da saga Vingadores vs. Thanos, que ele realmente firma seu estilo artístico.

Servindo de trampolim para um dos maiores vilões da Marvel Comics, a Parte Um de Vingadores vs. Thanos continua sendo um dos mais interessantes e complexos arcos narrativos da editora. Pena que essa pegada mais autoral viria a desaparecer com o tempo mesmo nas sagas futuras capitaneadas pelo próprio Starlin.

Vingadores vs. Thanos – Parte Um (EUA – 1973/74)
Contendo (na ordem de leitura): Homem de Ferro #55, Capitão Marvel #25 a 32, Vingadores #125, Capitão Marvel #33 e 34

O Invencível Homem de Ferro #55
Roteiro: Jim Starlin, Mike Friedrich
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Mike Esposito
Letras: Gaspar Saladino
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro de 1973
Páginas: 21

Vingadores #125
Roteiro: Steve Englehart
Arte: John Buscema
Arte-final: Dave Cockrum
Letras: Tom Orzechowski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho de 1974
Páginas: 21

Capitão Marvel #25 a 34
Roteiro: Mike Friedrich, Jim Starlin, Steve Englehart
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Chic Stone, Dave Cockrum, Pablo Marcos, Dan Green, Al Milgrom, Dan Green, Klaus Janson, Jack Abel
Letras: John Duffy, John Costanza, Gaspar Saladino, Tom Orzechowski, Dave Hunt
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março de 1973 a setembro de 1974
Páginas: 21 por edição

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.