Crítica | American Horror Story – 1ª Temporada: Murder House

Quatro-estrelas

Por mais estranho que possa parecer, os criadores de American Horror Story (2011), sucesso de público e crítica do canal FX, são os mesmos responsáveis por séries tão distantes do gênero horror como Nip/Tuck (2003) e Glee (2009). Essa amplitude de gêneros trabalhados pelos diretores podem ser vistas no modelo antológico do conteúdo de American Horror Story, uma série com inúmeras referências a filmes e histórias populares de terror – como O Bebê de Rosemary (1968), O Iluminado (1981) e macabros contos infantis –, bem como na densa e instigante narrativa em mais da metade dos episódios dessa primeira temporada.

A linha de acontecimentos gira em torno da família Harmon, que ao mudar-se para Los Angeles a fim de tentar seguir em frente com o casamento após uma traição, acabam alugando uma belíssima mansão do início do século XX. O que a família não sabia era que a casa possuía uma longa história de mortes violentas, angústia, medo e maldade.

A premissa da série é realmente muito boa. Ao trazer inúmeros elementos medonhos, a história consegue prender e interessar o público, especialmente quando as personagens mortas na casa começam a desfilar na tela (sendo os episódios Halloween 1 e 2 os melhores nesse ponto): o primeiro casal e seu filho “Frankenstein”, o dentista, a família Langdon, a família Harvey e o casal gay. O terror psicológico é eficaz porque abre janelas para novas possibilidades, e a série tem nessa característica o seu maior trunfo.

Há, no entanto, um único (e grande) problema entre os episódios 6 (Piggy Piggy) e 9 (Spooky Little Girl). Esses 4 episódios são de uma tremenda enrolação e má continuação da trama inicial; por pouco o espectador não perde a paciência e abandona a série. O que faz essa sequência de episódios serem muito fracos é a ausência de força e grandes eventos no roteiro, uma estranha e inexplicável desaceleração da história. Chega um momento em que o espectador não imagina como a série pode continuar, uma vez que faltam elementos e finais abertos para o episódio seguinte. Por sorte, o nascimento dos gêmeos Harmon foi deixado para os dois últimos episódios, de modo que o público tem motivos para ver o que se segue.

O episódio finale, Afterbirth, retoma o brilhantismo do início da temporada, e com ele, mais uma vez, voltam as lembranças de como os “garotos demoníacos” da série se parecem com o protagonista de Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011).

Não é legítimo dizermos que American Horror Story recicla o tema da “casa assombrada”, embora tenhamos essa impressão nos “episódios de isopor” do meio da temporada. Sobre a afirmação de que a série “reciclar o terror”, a verdade é que os criadores e diretores se propuseram juntar a maior parte dos elementos clássicos desse mundo: fantasmas materializados, assassinatos cruéis, vingança póstuma, mutilação e assombração crescente, para arquitetarem uma história de cunho familiar e cheia de intrigas sobrenaturais. Não parecem elementos muito originais, e na verdade não são, mas inseridos no contexto da mansão macabra e de um tempo cronológico tão amplo (dos anos 1920 até 2010), essas pequenas peças se juntaram e formaram um ótimo e assustador quebra-cabeça. Já sobre a incursão da família atormentada, podemos atribuir tanto a um conceito dramático batido quanto a uma série de sintomas contemporâneos, uma vez que temos o espelho do que é a família moderna: desestruturada, reclusa, individualista, amoral e desconexa, uma verdadeira instituição em decadência.

A Produção

A trilha sonora e o elenco são as grandiosas maravilhas de American Horror Story. Os temas musicais de cada período histórico da casa se juntam aos ruídos e temas oficiais da série e formam um dueto belo, macabro e equilibrado durante toda a temporada. Também podemos dizer que esse equilíbrio existe em relação ao elenco, uma vez que todos os atores possuem grande força e rigor no desenvolvimento de suas personagens. O grande destaque vai para Jessica Lange, uma das mais intrigantes, belas e bem construídas personagens da série. O merecido Globo de Ouro deu à atriz o reconhecimento pelo trabalho encantador e odioso em sua Constance Langdon, uma verdadeira Caixa de Pandora na série.

A equipe de maquiagem primou pela surpresa do susto. Não temos na série um desfile de monstros e zumbis desfigurados. Apenas em momentos muito específicos (e como uma cicatriz permanente, no caso da personagem Larry Harvey, maravilhosamente vivida por Denis O’Hare) vemos o uso de implantes e desfiguração de alguém.

A fotografia não foge muito ao esperado dos ambientes escuros, mas trabalha com uma ótima paleta de “cores-mofo/doença”, de modo que os ambientes da série parecem o tempo inteiro hepáticos, pálidos ou doentes de qualquer outra coisa. A troca de lentes em alguns flashbacks não parece em nada fora de propósito, já que apenas a alteração da cor na fotografia deixaria tudo óbvio e cansativo demais para o espectador.

Os produtores da série já anunciaram que o elenco e o local da série serão trocados na segunda temporada (que confirmada pela emissora e definida em 13 episódios, com reestreia prevista para 12 de outubro desse ano). Apesar do sucesso da primeira temporada, não havia mesmo como continuar na mansão, de onde não havia mais história nenhuma para sair.

É provável que a nova temporada siga o modelo dos lugares assombrados em alta no momento, os hospitais psiquiátricos. Se assim for, teremos Jessica Lange (a única do elenco anterior confirmada até agora) no meio de pessoas com mais problemas do que o normal e em um lugar por si só já muito macabro. Espera-se que produtores e roteiristas não diminuam a intensidade dos acontecimentos no meio da temporada e acabem por levarem a série a ser cancelada. Deram muita sorte dessa vez, mas nada garante que os bons espíritos estão do lado deles novamente. O jeito é esperar para ver.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.