Crítica | American Horror Story: Coven – 3X02: Boy Parts

estrelas 4Em seu episódio de abertura, American Horror Story: Coven estabeleceu a promessa de ser a mais radical e intrigante temporada da inovadora série de terror iniciada com Murder House e seguida por Asylum. Com este segundo episódio, Boy Parts, temos a certeza de que esta temporada chegou para extrapolar novos extremismos e elevar o nível de insanidade ao ponto máximo, algo comum dentro da série, e que é exatamente aquilo que esperamos.

Mas American Horror Story nunca foi apenas uma sucessão de exibições visuais feitas apenas para chocar e causar repulsa, mas um dos grandes trunfos da série sempre foi saber brincar, de forma intima e inteligente, com os medos interiores dos personagens e, consequentemente, do público. Se a série sempre nos entregou cenas dignas de figurarem entre o que o melhor do estilo gore possui a oferecer, o lado psicológico das tramas, que sempre visavam atingir os medos mais profundos e pessoais de seus personagens, sempre conseguiu ser tão eficiente quanto.

Boy Parts adquire um tom, digamos, mais contido em relação ao episódio anterior, onde fomos presenteados com sequências perturbadoras (o estupro de Madison) e impactantes (o acidente de ônibus causado pela mesma), embora o momento da “ressureição” de Kyle seja capaz de revirar o estômago. Desta vez, o roteiro de Tim Minear lida com a questão da morte e ressureição e do choque entre culturas, tudo isto, é claro, regado pelo peculiar humor negro que apenas a série carrega.

O interessante é a forma como Ryan Murphy e seus roteiristas sempre conseguem analisar os dois lados da moeda em cada situação: no caso de Zoe e Madison, que se entregam a um ritual macabro para ressuscitar Kyle, temos o envolvimento emocional de Zoe (uma vez que, até o momento, a possibilidade da garota ter algum envolvimento físico permanece nulo) e o cinismo de Madison, que mesmo após “remendar” diversas partes de outros corpos em Kyle, transforma o exagero da situação numa deliciosa sátira/homenagem ao clima trash que a série parece ter adotado nesta temporada.

E a ironia segue adiante. E quando se trata de uma série de Ryan Murphy, a ironia sempre é a chave para abrir as portas da imaginação ilimitada e fora do comum. Lily Rabe dá novamente o ar da graça (e da falsa inocência) como a bruxa Misty Day, que possui o dom da ressuireição a abertura com a ressureição dos jacarés é deliciosamente hardcore, e sua associação com Stevie Nicks é nada menos que brilhante). O flashback de Queenie foi curioso, mas de certa forma acabou ficando fora de contexto, uma vez que é descartado logo em seguida. Mas sempre é válido por acompanhar Gabourey Sidibe em cena. O ritual de acasalamento entre Cordelia e seu marido Hank é visualmente estonteante (impressionante como a série sempre se supera em suas concepções visuais), e a ideia de trazer uma personagem desejosa pela concepção natural da vida, apesar de clichê, não deixa de ser um belo contraponto a todas as ideias insanas pregadas ao longo do episódio sobre morte e renascimento.

Porém, Fiona Goode Madame LaLaurie continua sendo a peça-chave da delícia que é estar assistindo a esta temporada, especialmente pelo fato de serem interpretadas por duas atrizes de calibre mais do que apurado, afinal de contas, ninguém nega que Jessica Lange é a alma de American Horror Story, assim como todos concordam que Kathy Bates deixaria sua Annie Wilkes orgulhosa. Não há como não exibir um enorme sorriso diante das reações díspares das duas personagens diante de um carro passando na rua.

AHS segue como uma dos seriados mais sóbrios e autoconscientes no ar atualmente, entregando exatamente aquilo que se espera ao público, mas sem deixar o fator surpresa de lado. É torcer para que a série mantenha-se nessa linha e continue nos surpreendendo.

American Horror Story: Coven – 3×02: Boy Parts

Showrunner: Ryan Murphy e Brad Falchuk

Roteiro: Tim Minear

Direção: Michael Rymer

Elenco: Jessica Lange, Kathy Bates, Angela Basset, Sarah Paulson, Evan Peters, Lily Rabe, Taissa Farmiga, Emma Roberts, Chiaki Kuriyama, Denis O’Hare, Frances Conroy, Alexandra Breckenridge, Jamie Brewer, Patti Lupone, Gabourey Sidibe

Duração: 43 min.

 

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.