Crítica | Doctor Who – 1ª Temporada (2005)

estrelas 4

Desde que me conheço como gente, ouço falar em Doctor Who. Também, pudera, essa série sci-fi britânica existe, de uma forma ou de outra, desde 1963, seguindo ininterrupta até 1989. Depois de um hiato de 16 anos, com uma fracassada tentativa de ressuscitá-la em 1996, a série voltou com força total em 2005, tendo Russell T. Davies como showrunner, estando, agora, a caminho da oitava temporada e comemorando 50 anos em 2013. Tamanha foi a projeção da série nova que ela ganhou, ainda, duas séries spin-off, Torchwood (que está em hiato depois do final da quarta temporada em 2011) e Sarah Jane Adventures, que acabou no final de 2011, na quinta temporada, tendo em vista que a atriz principal – Elisabeth Sladen – faleceu em abril de 2011.

Doctor Who é, literalmente, uma delícia de série, mas ela não é de fácil digestão e exige uma certa tenacidade do espectador. Provavelmente com exceção daqueles já familiares com a série antes de 2005, os demais espectadores devem ter torcido o nariz para o primeiro episódio do revival de Doctor Who. Nele, somos apresentados imediatamente à Rose Tyler (Billie Piper), uma vendedora de loja de departamentos que passa a ser atacada por manequins plásticos que, subitamente, ganham vida. Diante do perigo e sem nenhuma explicação, surge o Doutor (o nome dele não é Doctor Who, mas sim só Doutor ou Doctor; o título é uma brincadeira com a pergunta que aparece na cabeça de todo mundo a quem ele é apresentado: Doctor who? ou Doutor quem?) para salvá-la no último minuto, carregando, apenas, um sorriso estranho, poucas explicações, muitos trejeitos e histrionismos e a inseparável “chave de fenda sônica”, uma espécie de ferramenta que tem mais utilidade do que Bombril.

Mas o que nos faz torcer o nariz não é a história em si pois, apesar de amalucada, está dentro do conceito sci-fi. O grande problema é que nós já ficamos desacostumados com efeitos especiais baratos, daqueles que obviamente são falsos e que parecem que foram feitos por um estudante de computação gráfica. Confesso que demorei para sair do estupor que é ver algo assim tão, digamos, trash, em plenos anos 2000, mas segui adiante, vagarosa e valentemente.

Além disso, o Doutor é vivido na primeira temporada pelo estranhíssimo Christopher Eccleston que, à época de sua escalação, era um ilustre desconhecido do público em geral, mas já um veterano de séries e filmes de TV britânicos. Criando um Doutor único, Eccleston exige costume e perseverança na mesma proporção do costume e perseverança necessários para se adaptar ao estilo da série. Além dos trejeitos exagerados e das caras e bocas que “assustam” no começo, ele não tenta ser simpático. De certa forma, a aposta de Davies nessa encarnação do Doutor e em Eccleston no papel foi algo arriscado, mas que acabou se pagando com juros e dividendos. A produção barata, aliada a conceitos sci-fi universalmente adorados como viagem no tempo, ameaças extraterrestres e misteriosos eventos costurados por toda a temporada, conseguiram retirar Doctor Who de um limbo criativo, catapultando-o para seu oposto, uma espécie de histeria coletiva em torno de tudo relacionado a esse universo.

Mas Davies tinha um plano, pois ele e sua equipe acabaram criando uma primeira temporada tão pegajosa – no bom sentido! – que é literalmente impossível não se apegar ao ator, seu personagem e sua parceria inusitada com Rose Tyler.

O Doutor é sim teatral, mas tão característico e diferente que é quase como uma lufada de ar fresco em termos de caracterização de personagens. Rose Tyler é outro personagem incomum. Para começar, Billie Piper não é uma daquelas atrizes que estão lá para serem meros atrativos ao público masculino. Apesar de ela ser simpática, está longe de ter rosto e corpo de modelo. É uma pessoa comum, com quem podemos facilmente nos identificar, especialmente diante da esquizofrenia cinética que é o Doutor.

Mas quem é, afinal de contas, o tal “Doutor Quem”? Bom, essa resposta eu não tenho com precisão e qualquer detalhe que eu passar pode estragar o prazer que é ver essa série, mas posso dizer que ele é o último sobrevivente de uma raça alienígena chamada Time Lords, cuja característica, aparentemente, é viajar pelo tempo salvando o dia. O Doutor que conhecemos é o último de sua raça, pois houve, há muitos anos (séculos?), uma guerra, bem obviamente intitulada de Time War, entre os Time Lords e uma raça bio-robótica chamada Dalek cujo resultado foi o extermínio total dos dois lados. Essa guerra, pelo que sei, nunca foi mostrada na série (mesmo nas temporadas antigas) e ela é apenas mencionada aqui e ali pelo Doutor, quando lhe convém.

E como o Doutor viaja? Bem, ele tem uma nave espacial aparentemente com capacidade de camuflagem cujo nome é T.A.R.D.I.S. (sigla para Time and Relative Dimension in Space). Conforme fui aprendendo, há décadas, desde que a nave foi camuflada no formato de uma cabine azul para chamar a polícia (algo muito comum na Inglaterra da década de 60 quando a série foi ao ar pela primeira vez), ela ficou “enguiçada” assim e não muda mais de formato. Mas não se enganem: a nave é muito maior por dentro do que por fora, graças à tecnologia avançada dos Time Lords.

Essa história, aparentemente bobinha, gera episódios sensacionais, cada um mais original que o outro, mas sem que o espírito das temporadas antigas seja traído. Daí o uso de efeitos especiais mais para o lado de “defeitos especiais”. Há um tom retrô bacana e nostálgico na série, inclusive com o uso de inimigos antigos do Doutor sem que eles sejam re-imaginados ou evoluídos. Por exemplo, os Daleks que aparecem são iguais aos Daleks da década de 60, ou seja, bem toscos e risíveis, iguaizinhos a saleiros. Mas sabem por que a série acaba funcionando mesmo assim? Pela razão que já expliquei logo acima: as histórias são muito bem construídas, com personagens cativantes.

Outro aspecto interessante é que Christopher Eccleston foi a 9ª encarnação do Doutor. Com uma série tão antiga, era de se esperar que o ator mudasse, mas a grande jogada da BBC foi manter o personagem e inserir no roteiro essa “alteração de corpo”. Tudo é explicado pelo poder regenerativo dos Time Lords (não fica claro como é que os outros Time Lords então morreram, mas isso fica para uma outra discussão). Eccleston, porém, só fez essa primeira temporada, pois já há a mudança para o 10º Doutor – David Tennant – no último episódio dessa primeira temporada. De certa forma, é um banho de água fria, pois, no momento em que finalmente nos acostumamos com um Doutor, outro nos é empurrado garganta abaixo.

Se a série tem um defeito, ele talvez seja a duração de seus episódios. Com mais ou menos 45 minutos cada um (são 13 episódios), muitos acabam se estendendo demais, criando ou epílogos longos e lentos ou cenas de ação com muito pouca ação. Em determinados episódios isso fica mais latente, deixando claro que o roteiro foi imaginado para um episódio mais curto. No entanto, diante das várias outras qualidades da série, essa é uma reclamação menor.

Quem já viu Doctor Who tenho certeza que se transformou em um whovian de carteirinha. Quem não viu, dê uma chance a essa série cinquentenária, pois ela não desapontará.  Ela tem de tudo, começando por histórias excelentes e personagens que te prendem, passando por ameaças originais, desfechos surpreendentes e mensagens estupendas. Os “defeitos especiais” fazem parte da brincadeira.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.