Crítica | Doctor Who – 3ª Temporada (2007)

estrelas 4,5

Uma das coisas que mais me impressionam em Doctor Who é a sua característica peculiar no trato com o tema que aborda. Ao manter, pelo menos nesse início de revival (a era Russell T Davies), elementos estéticos e escolhas imagéticas bem parecidas com as da Série Clássica – olhando em perspectiva e comparando com as mudanças tecnológicas alcançadas com a 7º Temporada –, a Nova Série ganha uma característica quase nostálgica, um misto de novas tecnologias e efeitos atropelados em algumas coisas. O charme da série, digamos, reside nisto: não querendo ser um exemplo máximo no uso de efeitos especiais na TV (de novo: pelo menos até a 7ª Temporada) ou veracidade científica, acaba se notabilizando entre as melhores do gênero e fazendo valer sua fama e longevidade.

A 3ª temporada foi realmente um desafio para a produção. Estando Rose presa em uma Terra paralela e tendo a noiva Donna Noble, do Especial de Natal The Runaway Bride, recusado acompanhar o Doutor (pelo menos até a 4ª Temporada), vemos um solitário Time Lord xeretando alguma coisa num hospital de Londres. Em Smith and Jones temos um início de temporada divertido e intrigante, trazendo, além de uma boa história, a primeira aparição dos Judoons, que levaram um hospital inteiro para a Lua a fim de localizar um alienígena disfarçado entre os humanos (um princípio que voltaria na tríade de episódios que finalizam a temporada).

Diferente de Rose Tyler, Martha Jones é mais séria, com maiores expectativas de vida, responsabilidade e mais declaradamente apaixonada pelo Doutor, uma posição que me incomodou de início, mas com a qual me acostumei, até porque veio acompanhada de um outro sentimento bastante incômodo: o ciúme de Martha em relação a Rose. Nesse ponto, porém, falamos de uma armadilha de roteiro. Levando em consideração a forma e o momento em que ela entrou na vida do 10º Doutor, devemos convir que qualquer ser humano normal agiria da mesma forma. Todavia, ver isso colocado na tela é uma coisa realmente chateante. Uma baita armadilha de roteiro…

Dentro dessa parceria mais sentimental, os acontecimentos do final da temporada ganharam um notável significado, resultado que só foi alcançado pelo bom trabalho de Russell T Davies em definir o perfil dessa nova companheira e sua relação com o alien protagonista. Um outro ponto que vem adicionar lenha a essa fogueira é que a 3ª Temporada foi bem mais angustiante que a anterior, além de trazer sequências primorosas de episódios, sem nenhuma grande falha ou abandono da linha narrativa principal, como tivemos no ano anterior.

Acredito que o ponto mais chamativo dessa temporada foi a ligação dos acontecimentos presentes com a já extensa mitologia da série e com o spin-off Torchwood. Explicações como a da mão que Jack Harkness mantinha dentro da base em Cardiff, por exemplo, ajudam bastante o expectador a ligar os pontos entre os dois shows e ter uma visão mais ampla das coisas.

Do Universo canônico da série, tivemos uma pequena explicação do gallifreyano sobre o seu planeta. Imagens do céu alaranjado, os dois sóis, a redoma de vidro e o traje especial dos Time Lords foram um rápido mata-saudade para os fãs da Série Clássica, infelizmente, em pequena dose, o que ajudou a dar espaço às críticas feitas a Davies em relação ao seu abandono de tudo o que se referia mais enfaticamente a Gallifrey.

Além dessas relações externas – que ainda trazem informações valiosas e chocantes sobre Jack Harkness – há uma ligação pontual entre os episódios, uma parte na temática das histórias, outra na sequência de acontecimentos. No primeiro ponto, temos um uso maior da teoria geral sobre viagens no tempo e paradoxos temporais, temas cujos episódios Blink (o estupendo episódio dos Weeping Angels, definitivamente, o melhor da temporada) e o arco do Mestre, composto por Utopia, The Sound of Drums e Last of the Time Lords são os melhores exemplos. Um outro fator que ajudou a intensificar o poder dessas tramas foi a ótima trilha do veterano Murray Gold, que neste ano resolveu apostar em temas com tempos de marcação mais pesados e finalizações orquestrais épicas, como uma verdadeira sinfonia do tempo, intensificada com a chegada do Professor Yana e posteriormente “naquilo” que ele iria se tornar.

O outro ponto a ser citado é como a sequência de acontecimentos criaram uma grande história no final, uma espécie de castelo de cartas erguido episódio por episódio, todos dentro de uma mesma realidade, embora não no mesmo espaço. Essa forma de arquitetar uma trama é algo que não veríamos mais na série a partir da chefia de Steven Moffat, que trabalha com acontecimentos aparentemente desconexos, juntando-os ao final. Sinceramente não tenho uma doentia preferência por nenhum dos dois modelos, mas é impossível negar que o modo como Moffat arquitetou suas temporadas podem se tornar algo megalomaníaco, uma busca incessante por mind-blowings que às vezes sacrificam coisas muito importantes para poderem existir, o que não é algo bom.

Com histórias mais imaginativas e ótimas situações-problema para as aventuras, a 3ª temporada de Doctor Who nos apresentou um Universo cada vez mais perigoso. O maior desses perigos, é claro, foi o reaparecimento do Mestre, um cumprimento da profecia da Face de Boe. Sobre isso, devo dizer que fiquei um tanto decepcionado com o seu “segredo final”. Pela enorme quantidade de anos vividos e por sua sabedoria, imaginei que o segredo fosse algo muito mais chocante. Mas se tratando de Russel T Davies, era de se esperar algo parecido… Todo mundo se lembra da expectativa criada em torno do “Bad Wolf” e no final das contas era apenas uma pista deixada por Rose através dos tempos. Tudo bem que isso é inteligente (da parte da personagem) mas o modo como foi colocado, parecia que o Lobo Mal em questão era algo muito maior.

Neste ano tivemos ainda uma mudança no comportamento do Doutor, que do meio da temporada para frente se tornou compassadamente mais sério e bem mais preocupado com as ameaças e coisas que teria que enfrentar. Como se ele pudesse sentir que as coisas estavam realmente caminhando para um ponto crítico de sua vida.

Entre surpresas, choques e uma ótima sequência de episódios, a terceira temporada de Doctor Who termina com a saída de Martha Jones, uma despedida amigável que ainda contaria com reencontros entre os dois no futuro. O Doutor então estava mais uma vez sozinho. Mas as estrelas de Gallifrey preparavam para ele mais uma companheira, uma mulher que traria à sua jornada final uma carga de sentimentos que explodiram na cara do espectador ao fim da 4ª Temporada, o momento mais inesquecível da série, pelo menos para este que vos escreve.

Doctor Who – 3ª Temporada (UK, 2007)
Showrunner: Russell T. Davies
Roteiro: Vários
Direção: Vários
Elenco: David Tennant, Freema Agyeman, Paul Kasey, Nicholas Briggs, Carey Mulligan, John Barrowman, Derek Jacobi, John Simm, Adjoa Andoh, Gugu Mbatha-Raw, Trevor Laird, Reggie Yates
Duração: 50 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.