Crítica | Doctor Who – 5ª Temporada (2010)

Quatro-estrelas

O recomeço da cinquentenária série Doctor Who, depois de um hiato de 16 anos apenas interrompido brevemente por um longa metragem incapaz de reviver a série, foi um enorme sucesso pelas hábeis mãos de Russel T. Davies como showrunner. A 1ª Temporada repaginou o Doutor com a escalação de Christopher Eccleston no papel principal e de Billie Piper no papel de uma de suas mais memoráveis companions e reapresentou Doctor Who a uma nova geração de fãs, respeitando ao máximo o legado.

As , e temporadas, que formaram a chamada Era David Tennant, enraizaram novamente a série no imaginário popular, apresentando situações, companions e episódios memoráveis. E isso sem contar com o próprio Tennant, que é normalmente reconhecido como o melhor ator da Nova Série.

E, em time que está ganhando, não se deve mexer, não é mesmo?

Não é bem assim que a BBC pensa. Afinal de contas, Doctor Who, fundamentalmente, trabalha o conceito de regeneração, renovação, recomeço. E é isso que aconteceu quando Davies e Tennant anunciaram suas respectivas saídas da série em 2008 ainda e toda uma era acabou sendo fechada com especiais mais longos no decorrer dos anos de 2008 e 2009 (leiam sobre eles, aqui). No lugar de Davies, entrou o showrunner Steven Moffat e, no lugar de Tennant, entrou Matt Smith.

Mas quem mesmo são esses caras? Bem, os fãs da série certamente lembrarão que Moffat não caiu de paraquedas em Doctor Who. Ele já havia escrito o sinistro episódio duplo The Empty Child/The Doctor Dances para a 1ª Temporada e o lindo, mas melancólico The Girl in the Fireplace para a 2ª Temporada. Além disso, e talvez mais relevante, tenha sido o fato que ele escreveu Blink para a 3ª Temporada, reconhecido e admirado como o melhor episódio da Nova Série, quiçá da série inteira. Moffat também havia sido o responsável pela criação da inesquecível River Song no episódio duplo Silence in the Library/Forest of the Dead na 4ª Temporada. E isso sem contar que Moffat é o co-criador e showrunner de Sherlock, com Benedict Cumberbatch e Martin Freeman (leiam as críticas das e Temporadas).

Assim, com essa bagagem de absoluto sucesso, Moffat passou a ser o homem que carregaria a série nas costas por toda a Era Matt Smith, seguindo adiante para a vindoura Era Peter Capaldi (o 12º Doutor). Aliás, falando em Matt Smith, o ator era um ilustre desconhecido, com pouquíssima experiência na TV. Seu papel de maior destaque havia sido em Party Animals, série dramática da BBC. Ele até mesmo foi testado para o papel de Dr. Watson em Sherlock. Acontece que sua audição para Moffat e Piers Wenger, produtor executivo, impressionou imediatamente e ele foi basicamente escolhido naquele momento, passando por cima de muita gente graduada, para se tornar o mais novo Doutor até hoje. No entanto, Matt Smith é um ator que faz o Doutor mais histriônico até aqui ao ponto de David Tennant parecer o carrancudo William Hartnell em comparação. Não é fácil se acostumar com Smith e suas meias frases, constante uso genérico da chave de fenda sônica e sofreguidão. Ele é um ator que precisa ser engolido em doses homeopáticas, mas o que recebemos logo a partir do primeiro episódio são doses cavalares dele, doa a quem doer. Considerando que a comparação imediata é Tennant, Smith sai perdendo, ainda que, com o tempo, seja possível adaptar-se às exigências que ele demanda do espectador.

Mas as mudanças não pararam por aí e Moffat criou uma nova companion – Amy Pond ,vivida por Caitlin Blackwood e Karen Gillan (mais sobre isso adiante) – uma nova abertura e encomendou uma repaginada na música tema da série. Tudo novo para uma era nova.

O trabalho de Moffat é substancialmente diferente daquele que vinha sendo feito por Davies. Para começar, a forma como a nova companion é introduzida e utilizada ao longo da temporada não havia sido tentada ainda. Ela não só não é uma companion na qual o Doutor simplesmente “esbarra” em suas andanças, como ela é peça fundamental para o desenrolar da narrativa, ao ponto da temporada não acontecer com ela, mas sim por causa dela. Não é que as demais companions também não tenham sido peças-chave, vide Rose Tyler, Martha Jones e Donna Noble. Mas Moffat consegue criar uma organicidade para a presença de Amy Pond que simplesmente não existe em nenhuma temporada anterior da Nova Série.

Para começar, ao vermos Amelia “Amy” Pond no primeiro episódio – The Eleventh Hour – nós a vemos com sete anos de idade (Caitlin Blackwood). Uma garota sonhadora que encontra um ser mítico que chega para ela em uma caixa azul. O próprio Doutor está desnorteado, pois acabou de se regenerar. Sua TARDIS está com defeito e não demora para sua chave de fenda sônica também quebrar. A garotinha mostra ao Doutor uma sinistra rachadura em sua parede que ele identifica como uma fenda espaço-temporal que o leva a uma prisão dos Atraxi que mandam uma mensagem psíquica para o Doutor afirmando que o “Prisioneiro Zero” havia fugido. Sem resolver o caso, o Time Lord volta para sua TARDIS prometendo para a pequena Amelia que voltaria em 5 minutos.

Corta para 12 anos depois. O Doutor volta como prometido, sem saber que esse tempo todo se passou (sua TARDIS está quebrada, lembram?) e encontra uma Amelia Pond já crescida e na (bela) forma de Karen Gillan. Estupefata, aprendemos que, nesses anos todos, Amelia criou uma obsessão pelo Doutor, desenhando sobre ele, falando sobre ele como se fosse seu amigo imaginário. Um laço entre os dois imediatamente se forma e eles, então, enfrentam o “Paciente Zero”.

No entanto, Moffat mantém a narrativa coesa nos 12 episódios seguintes, tendo como ponto em comum a tal rachadura espaço-temporal que ressurge em diversos outros momentos e influencia o caminho da dupla principal, levando a momentos trágicos. Mesmo assim, apesar de o arco maior somente ser semi-resolvido ao final da temporada (ele só tem resolução definitivamente mesmo na temporada seguinte), Moffat trabalha com alguns episódios quase que completamente soltos.

Esse é o caso, por exemplo, de The Beast Below, que transporta o Doutor e Amy Pond até o futuro distante quando a Inglaterra está toda ela em uma espaçonave chamada Starship UK. O episódio tem um fim em si mesmo, ainda que a personagem de Liz X venha, mais para frente, a aparecer novamente. Só que a rachadura também está presente e ele acaba já engatando em Victory of the Daleks.

Nesse terceiro episódio, vemos o primeiro dos desconfortáveis traços, digamos, mais comerciais de Moffat e da BBC. Querendo aproveitar o máximo a possibilidade de merchandising do show, o episódio que, de outra forma poderia ser sensacional (afinal, tem Daleks, se passa na Segunda Guerra e tem Churchill – Ian McNeice – como um semi-companion), se esborracha no chão. O que nos é apresentado é um constrangedor “Novo Paradigma dos Daleks”, maiores e, pasmem, multicoloridos, com a evidente intenção de vender mais brinquedos e de tornar os “Saleiros do Mal” mais amigáveis para crianças. É como se George Lucas tivesse pegado Darth Vader e o transformado em um adolescente reclamão. Opa, peraí…

Essa tendência de vulgarizar personagens marcantes acontece também os Weeping Angels, criados pelo próprio Moffat em Blink. As aterradoras estátuas ganham quase que um retcon no episódio duplo The Time of Angels/Flesh and Stone, que só não é completamente descartável por estar fortemente associado com o arco da rachadura espaço-temporal.

Mas um pouco de redenção vem no sexto episódio, quando o “outro Pond” é introduzido: o noivo de Amy, Rory. Os dois são levados pelo Doutor para uma aventura na bela Veneza para enfrentar vampiros extraterrestres que vieram para a Terra em razão da rachadura. É também nesse episódio que, pela primeira vez, ouvimos falar misteriosamente do “silêncio”, elemento importantíssimo para toda a temporada seguinte, o que já demonstra o raciocínio de longo prazo de Moffat.

Em seguida, em Amy’s Choice, a trinca de heróis tem que enfrentar o Dream Lord e duas realidades diferentes: uma em que os Pond pararam de viajar com o Doutor há cinco anos e outra não. Entre uma realidade e outra, o tom da narrativa vai ficando incrementalmente séria e vemos mais uma previsão sombria do futuro quando o antagonista chama o Doutor de Oncoming Storm (“Tempestade Vindoura”), apelido que os Daleks já haviam dado a ele em The Parting of the Ways, episódio final da 1ª temporada.

Começamos, então a ver um padrão: Moffat vai sacudir o status quo do Doutor, tornando-o a própria ameaça ao universo.

No episódio duplo seguinte – The Hungry Earth/Cold Blood – Moffat desencava os Silurians, raça de lagartos humanoides que já conviveram com os humanos há tempos imemoriais e que, hoje, vivem hibernando no centro da Terra. A raça, introduzida na mitologia whoviana na 7ª Temporada da Série Clássica (3º Doutor), é trabalhada, aqui, como uma nova ameaça para os humanos, o que cria um dos mais tocantes episódios da temporada, com o Doutor desesperadamente lutando pela paz, apesar do estado de beligerância das partes.

Mas o final da dupla de episódios traz acontecimentos ainda mais fortes e importantes para o arco principal, com o Doutor descobrindo a razão da existência da rachadura e a morte de um importante personagem, que é simplesmente apagado de toda a existência. Novamente, vemos Moffat nos dando pistas de eventos futuros e fazendo crescer o embrião que ele planta no primeiro episódio.

O 10º episódio – Vincent and the Doctor – vem, porém, para aliviar um pouco a carga pesada deixada por Cold Blood, o que acaba resultando no melhor da temporada e certamente um daqueles que ficará por muito tempo na lembrança de quem o assistir. Amy e o Doutor vão investigar uma mancha estranha em um quadro de Van Gogh indo, claro, se encontrar com o próprio, vivido por Tony Curran. Ao lidar com a oposição da loucura com a realidade, medo do desconhecido e coragem, o episódio consegue ser dramaticamente perfeito, além de ser um exemplo de uma fantástica produção, com o tratamento dos cenários, da luz e da fotografia de forma a emular os quadros do pintor holandês.

O 11º episódio – The Lodger – separa o Doutor de Amy completamente e funciona como o prelúdio do fim. Tendo que viver na Terra sem sua TARDIS e sua companion, o Doutor aluga um quarto na casa de Craig Owens (James Corden) que, de certa forma, se torna o companion para esse episódio. Mais uma vez vemos a rachadura espaço-temporal ao final do capitulo e observamos uma contemplativa Amy Pond lembrando de um passado que parece não ter vivido.

Em The Pandorica Opens/The Big Bang, o episódio duplo que encerra a temporada, muita coisa acontece, todas as elas referenciando os eventos que se passaram até esse momento e com a sensacional volta da misteriosa River Song (Alex Kingston) como ninguém menos do que Cleópatra no ano 102 d.C. em um acampamento romano nos arredores do Stonehenge. Moffat é esperto demais aqui e usa a pintura de Van Gogh para criar a conexão necessária e ainda, de quebra, trabalha absolutamente toda a mitologia do Doutor, principalmente a que envolve seus maiores inimigos, para criar um ambicioso fechamento que não só traz de volta um personagem sumido da temporada como resolve parcialmente o mistério da rachadura espaço-temporal ao ponto de até mesmo trazer de volta a Amy de sete anos de idade que vimos no primeiro episódio.

Moffat claramente tinha um plano desde o início e esse plano, apesar de alguns soluços, é concretizado de maneira muito satisfatória, com suficiente energia cinética para servir de trampolim para a temporada seguinte. E, meio que como quem não quer nada, o showrunner ainda consegue fazer um semi-reboot orgânico da série toda – raios, de todo o universo whoviano, na verdade! – um feito que muito pouca gente teria coragem de tentar.

Para uma temporada com tudo novo, fazer algo tão amplo assim poderia ter sido um risco, mas a costura segura os episódios se forma bastante coesa e racional, dentro, claro, da lógica de “um extra-terrestre de dois corações que se regenera e viaja pelo espaço-tempo em uma nave no formato de uma cabine de polícia azul”. Se há alguma dificuldade em se acostumar como Matt Smith no papel de um Doutor mais nervoso, ansioso e, provavelmente, carente de uma dose de Ritalin na veia, ela acaba desaparecendo pela história cativante, por uma companion de se tirar o chapéu e pela ampliação da já gigantesca mitologia do personagem.

Em termos de qualidade da produção, a 5ª temporada traz uma marcante evolução nos efeitos especiais que chegariam ao seu ápice na 7ª temporada. Particularmente, não sou muito favorável a esse movimento, ainda que eu entenda que ele permita maior liberdade criativa, pois ele retira um pouco daquilo que faz a série ser o que é: o ar de nostalgia, de um trabalho que vale muito mais pelas atuações e pelos roteiros do que por uma computação gráfica de cair o queixo. Doctor Who funciona, pois foge da roupagem sci-fi tradicional e já muito batida e nos traz inovações minuto a minuto sem fogos de artifício, sem distrações.

A 6ª temporada, precedida por um especial de Natal, amarra todas as pontas propositalmente soltas da 5ª e resolve um dos maiores mistérios da mitologia do Doutor. Mas isso será objeto de outra crítica…

Doctor Who – 5ª Temporada (Reino Unido, 2010)
Showrunner: Steven Moffat
Roteiro: Vários
Direção: Vários
Elenco: Matt Smith, Karen Gillan, Arthur Darvill, Caitlin Blackwood, Tony Curran, Ian McNeice, Neve McIntosh, Alex Kingston
Duração: 65 min. (5×01), 42 min. (5×02 a 5×11), 49 min. (5×12), 54 min. (5×13)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.