Crítica | Doctor Who – 6ª Temporada (2011)

estrelas 4,5

Como fiz questão de frisar em minha crítica da temporada anterior, o novo showrunner, Steven Moffat, que substituiu Russell T. Davies, o homem que tirou Doctor Who do limbo televisivo, tinha um plano de longo prazo. O arco narrativo que criou na 5ª Temporada, envolvendo o Doutor (Matt Smith), a TARDIS e sua nova companion, Amy Pond (Karen Gillan), não foi completamente solucionado. Sim, o Doutor resolveu o problema imediato e “resetou” o universo inteiro no processo, mas não foram esclarecidas as profecias sobre o próprio Doutor que ouvimos na temporada e, também, a história completa de Amy.

E, com esse gancho, a 6ª Temporada começa com um episódio excitante, mas que é precedido, como de praxe, por um especial de Natal não conectado com a narrativa maior. Nesse especial, escrito por Moffat, vemos uma adaptação intergaláctica do livro Um Conto de Natal, de Charles Dickens. Sai o sovina Scrooge e entra o sovina Kazran Sardick (o ótimo Michael Gambon), um homem que controla a perpétua camada de nuvens que paira sobre seu planeta. O Doutor, a pedido de Amy e Rory (Arthur Darvill), que estão presos na turbulência causada por essas nuvens, vai até o planeta para investigar.

A trama é muito interessante e bem produzida, com uma reconstrução distópica de uma Londres vitoriana e, claro, fortes alterações na história original de Dickens, ainda que seu espírito seja mantido. O conto funciona lindamente como uma história de amor perdida no tempo e é tocante, dando o tom dos episódios que comporiam o arco principal da 6ª Temporada.

E, como disse, esse arco começa de forma absolutamente perfeita, com o misteriosamente intitulado capítulo The Impossible Astronaut, que faz dobradinha com Day of the Moon. A grande sacada desses episódios é começar mostrando um Doutor quase duas centenas de anos mais velho sendo assassinado por um astronauta que sai de um lago em Utah, em 1969, nos EUA, diante dos incrédulos olhos de Amy, Rory e River Song (Alex Kingston), todos especialmente convidados para estarem presentes. Aos três companions, une-se um homem chamado Canton Everett Delaware III (William Morgan Sheppard) que também havia sido convidado e convocado a trazer um galão de gasolina para que o Doutor possa ser queimado no estilo de funeral Viking.

Absolutamente intrigante, não é mesmo? E esses dois capítulos, que ainda apresentam a forma física de um novo inimigo do Doutor chamado de O Silêncio – um grupo de E.T.s sinistros com ternos pretos e que, usando um conceito certamente inspirado nos Weeping Angels criados por Moffat, são esquecidos assim que a pessoa desvia o olhar – cria situações suficientes para que ele seja referenciado ao longo de todo o resto da temporada. Basicamente, Moffat repete o artifício da rachadura espaço-temporal que funciona de cola para a 5ª Temporada, convertendo-o, agora, nesse grupo misterioso que tem implicações muito maiores para o Doutor e especialmente para Amy Pond e o aterrorizante sonho dela com uma senhora de tapa olho.

O episódio seguinte – The Curse of the Black Spot – é uma história de piratas cuja inspiração veio lá do fundo do baú da série: o episódio The Smugglers, de 1966. É um capítulo divertido, envolvendo a lenda das sereias, que, claro, não são sereias e um final melancólico, mas bonito, com uma boa participação de Hugh Bonneville como o Capitão Henry Avery. Apesar de solto da continuidade, a morte do “Doutor do futuro”, que ainda é desconhecida do “Doutor do presente”, é mencionada mais de uma vez entre Amy e Rory.

Em The Doctor’s Wife, as circunstâncias acabam fazendo com que a matriz de sua TARDIS seja absorvida por Idris, uma de três habitantes de um asteroide perdido fora do universo. Com isso, aprendemos um pouco mais sobre o curioso meio de transporte do Doutor e como ele convenientemente sempre se materializa onde sua presença é necessária. É um poético episódio que explora o interior da nave em forma de cabine de polícia, nos dá uma visão maior do que tínhamos e, de quebra, ainda temos a introdução de uma frase que será importantíssima para uma grande revelação mais para frente: “a única água na floresta é um rio” (The only water in the forest is the river.).

O episódio seguinte, que é duplo – The Rebel Flesh/The Almost People – faz referência aos seres plásticos do primeiro episódio da 1ª Temporada da Nova Série e retoma, em um futuro próximo (século XXII) a narrativa de uma fábrica que trabalha com clones desse material. O tom lúgubre e industrial do capítulo é compensando pela ação ininterrupta no estilo Alien e efeitos especiais muito eficientes, marca registrada da Era Steven Moffat. Aqui, há a revelação de um mistério envolvendo Amy que, por sua vez, levaria à grande revelação do episódio seguinte em relação à River Song.

E a temporada alcança sua metade com A Good Man Goes to War. Falar muito desse episódio é um crime para quem ainda não o assistiu. Basta dizer que ele não só funciona bem como um mid-season finale como, também, como um capítulo nostálgico, já que o Doutor reúne um exército de seres que lhe devem favores para lutar no asteroide Demon’s Run e salvar Amy. Vemos Strax, o comandante Sontaran, Madame Vestra, dos silurianos, Dorium Maldovar e, novamente, a vilanesca Madade Kovarian (Frances Barber). Mas, mais importante que tudo isso é finalmente descobrirmos a verdadeira identidade de River Song. É um daqueles momentos inesquecíveis, que fará mesmo o fã mais durão verter lágrimas não só pela revelação em si, mas ao constatar que ela estava na frente de nosso nariz o tempo todo.

No entanto, essa revelação e o uso posterior de River Song pelos vilões não é algo que desceu pela minha garganta muito facilmente. Como foi Moffat que criou a personagem, pode ser que ele tivesse esse plano desde o começo, mas tenho minhas sérias dúvidas. A revelação em si é boa, mas parece apressada e poderia ter sido melhor trabalhada nos episódios imediatamente anteriores que focam em histórias não relacionadas no lugar de mirar no arco principal. E, posteriormente, já no encerramento da temporada, apesar do uso das viagens no tempo para criar paradoxos interessantes (eles sempre são, não é mesmo?), a narrativa fica artificial demais, forçada demais.

No entanto, não demora para que esse uso que pessoalmente desgosto de River acontecer. Já no episódio seguinte – Let’s Kill Hitler – somos apresentados ao seu lado mais James Bond, além de outra raça de policiais alienígenas que seria essencial para o fechamento do arco. Aqueles mais atentos já serão capazes de “adivinhar” o final já nesse oitavo episódio.

Night Terrors segue Let’s Kill Hitler e os espectadores têm um merecido descanso da continuidade, mas não um relaxamento, já que é um episódio de terror, envolvendo uma criança, seus pesadelos e horrendas bonecas que fará muito marmanjo ficar acordado à noite.

The Girl Who Waited tem um título que faz referência à situação de Amy quando ela conhece o Doutor ainda menina. Ela espera muitos anos pela volta desse ser mágico. Agora, no planeta Apalapucia, um vírus acaba separando Amy do Doutor e de Rory, colocando-a em uma linha temporal em que o tempo passa mais rápido. O leitor já pode imaginar o que acontece e, aqui, o roteirista Tom McRae toca, ainda que muito levemente não só na espera da jovem Amy pelo Doutor como na espera de Rory, o Soldado Romano por Amy e, também, em última análise, nos temas “espera” e “viagem no tempo” que marcariam o último episódio desses companions na temporada seguinte.

The God Complex é o episódio que nos prepara para o final e faz com que o Doutor tome a decisão de não mais andar acompanhado de Amy e  Rory. Repleto de referências a episódios e situações passadas dessa encarnação e também de outras do Doutor, vemos uma espécie de Minotauro em um hotel oitentista que muitas vezes lembra o de O Iluminado, bebendo da “adoração” dos hóspedes. É aqui que o Doutor é dolorosamente obrigado a se distanciar de Amy, ao mostrar para ela que ela nem sempre pode confiar nele. É um episódio cerebral, com pouca ação, mas fascinante em suas implicações para a dinâmica entre o Doutor e seus companions.

Closing Time, apesar de não ser a primeira parte de um episódio duplo, parece ser. Afinal de contas, é nele que Moffat começa a fazer as ligações diretas com The Impossible Astronaut, o primeiro episódio da temporada e só as encerra completamente em The Wedding of River Song. Duzentos anos se passaram para o Doutor desde que ele largou os Ponds. Duzentos anos mais velho que o Doutor “do presente” é a idade que o Doutor “do futuro” morre em The Impossible Astronaut e o Doutor sabe que tem pouco tempo para viver e está se despedindo de pessoas importantes em seu passado.

Uma delas é Craig Owens (James Corden), seu simpático companion de um episódio apenas (The Lodger) da 5ª Temporada. Já com filho e feliz da vida, Craig ajuda o Doutor a lidar com uma infestação de cybermats em uma loja de departamentos. Divertida e leve, a aventura acaba diretamente conectada com o final da temporada, com a reapresentação de River Song em um futuro distante em que ela acabou de ganhar o título de Doutor de Arqueologia e nós finalmente aprendemos sobre sua relação com Madame Kovarian, com O Silêncio e com o astronauta assassino.

E, com isso, em um frenético season finale que, na verdade, funciona como finale geral de duas temporadas com o 11º Doutor, vemos todas as pontas soltas sendo devidamente amarradas no grande esquema de Steven Moffat. Assim, em The Wedding of River Song, contamos com a volta de Amy e Rory e revivemos, sobre outro ângulo, o primeiro episódio da temporada. É um final complicado, que exige muita atenção do espectador, mas é gratificante ver que, ainda que a barra seja forçada aqui e ali, o plano de Moffat dá certo.

E, bem no seu estilo, a pergunta “Doctor who?” fica no ar para mais um gancho, para mais uma temporada.

Se a Era Russell T. Davies foi magistral em termos de caracterização, a Era Moffat, pelo menos em suas duas primeiras temporadas – a 7ª Temporada é outra história – é marcada pela ousadia total ao costurar episódios de forma que a perda de um significa a perda de informação vital que fatalmente será referenciada mais para frente. É o paraíso dos whovians que tentam ligar os eventos passados, presentes e futuros não só com a mitologia antiga do Doutor como, também, com tudo que Davies e Moffat criaram ao restabelecer o Doutor no universo da televisão e começar uma verdadeira febre. Mesmo com problemas narrativos e complicações excessivas, o resultado final é de tirar o chapéu. Ops, de tirar o “fez”, na verdade.

Doctor Who – 6ª Temporada (Reino Unido, 2011)
Showrunner: Steven Moffat
Roteiro: Vários
Direção: Vários
Elenco: Matt Smith, Karen Gillan, Arthur Darvill, Alex Kingston, William Morgan Sheppard, James Corden, Frances Barber
Duração: 60 min. (especial de Natal), entre 44 e 47 min. (os demais)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.