Série | Game of Thrones – 1ª Temporada
Freud criou seu esquema mental baseado em três mecanismos humanos. Primeiramente, temos o nosso consciente, chamado pelo pai da psicanálise de Ego. O Ego é a parte de nossa vida que deixamos transparecer para o mundo. É a ponta do nosso iceberg astral. É todo aquele conhecimento que usamos para entrarmos de acordo com a moral vigente, é de onde surge a nossa própria ética, onde nossos valores e ideias se manifestam. Para o conhecimento do Ego ser adquirido, há uma correlação com as outras duas partes. O nosso subconsciente, chamado de ID, é o iceberg debaixo d’água. É todo o conhecimento que nós temos e não deixamos sair. Freud dizia que nosso ID corresponde a 90% do conhecimento de toda a nossa vida, mas que achamos de tal forma imoral que temos vergonha de mostrá-los ao mundo exterior, de deixar a alteridade descobrir esse tal lado. Tudo isso é inútil, já que somos movidos apenas pelo nosso próprio gozo e afirmação do ID, seja ele imoral ou vergonhoso, seja um crime ou um segredo. E tudo o que fazemos a nosso bel-prazer é apenas um reflexo dos nossos desejos escondidos no inconsciente, de forma que é impossível nos livrarmos de tal parte. O que separa o ID do Ego? Nossa terceira parte, o julgamento moral chamado de Superego. Tal parte funciona como uma barreira que nos livra de todo o conhecimento que preferimos ignorar, todas as nossas vergonhas, medos e segredos que mantemos dentro de nós mesmos. O Superego é a água do mar que separa a ponta fria do iceberg da imensidão que é o corpo da massa de gelo.
Quando o final da temporada de Game of Thrones acabou no seu 10º episódio, a primeira coisa que eu pensei não foi na disputa quase que medieval que motivou toda a 1ª temporada a ter o fim que teve, eu pensei em todo o esquema mental Freudiano e sua aplicação, por mais que não total, em todo o reino de Westeros. Game of Thrones mostra, como já diz sua tradução, um jogo de tronos. No norte do reino de Westeros, há a cidade de Winterfell. Ela é mantida por Eddard “Ned” Stark (Sean Bean), um cavaleiro de alto nome que comanda a parte fria do reino. Ele vive em paz com sua família, composta por sua esposa Catelyn Stark (Michelle Fairley), seus filhos Robb, Sansa, Bran, Arya, Rickon (respectivamente, Richard Madden, Sophie Turner, Isaac Hempstead-Wright, Maisie Williams e Art Parkinson) e seu filho bastardo Jon Snow (Kit Harrington). Até que recebe a notícia de que a mão do rei, o assistente pessoal do rei, acaba de morrer. E que o próprio rei de Westeros, um forte senhor chamado Robert Baratheon (Mark Addy), está vindo para Winterfell. Com isso Ned não se preocupa, já que é amigo do rei de longa data. O que o preocupa é a família da esposa do rei. A rainha Cersei Lannister (Lena Headey) e seus irmãos Jaime e Tyrion Lannister (Nikolaj Coster-Waldau e Peter Dinklage) não passam de interesseiros da família Lannister cujo objetivo único é conquistar o trono. Ao mesmo tempo, no outro lado do oceano, temos a última geração de descendentes do rei Targaryen, o rei dos dragões. Essa geração é composta pelos dois irmãos, Daenerys e Viserys (Emilia Clarke e Harry Lloyd), que buscam atravessar o mar e renunciar o trono que pertence a eles por direito. Para isso, Daenerys acaba se casando com Khal Drogo (Jason Momoa), o líder de um clã de cavaleiros selvagens. Ainda no reino de Westeros, no extremo norte, para além de Winterfell, algo está acontecendo atrás da muralha que separa criaturas desconhecidas das cidades…
Toda a parte do Ego, a nossa moral atual, aquilo que acusa o organismo de ser certo, se concentra na família Stark inteira. As situações mais banais de toda a trama de Game of Thrones giram em torno do patriarcalismo em Winterfell. Toda a hierarquia construída por Ned Stark é a representação da moral perfeitamente mesclada com a ética humana. É a aproximação do mundo das ideias construído por Platão: são seres bons e corretos, no fim das contas. Justos com as próprias leis e pacatos para com os vizinhos. O Superego se manifesta com três partes em especial. Primeiramente a muralha de gelo que separa o norte de Westeros com o extremo norte, morada de selvagens, de criaturas desconhecidas e de um rigoroso inverno. Depois há o grande mar de Westeros, dividindo a terra conhecida de outros cavaleiros selvagens, sem moral, sem ética, e juntando isso com um terrível desejo de vingança provindo da família Targaryen. E, por último, o rei Robert se torna o Superego da série, a única divisão possível que não permite que a moral Starkiana acabe se chocando com a cruel vontade dos Lannister.
O conflito da série surge quando as barreiras se tornam, aos poucos, mais finas. O roteiro acaba ganhando uma consistência única na sua mesclagem mitológica e feudal. A adaptação do primeiro livro das crônicas de Fogo e Gelo, escritos por George R. R. Martin, está ótima nas telas. O roteiro sabe dosar com boa forma os personagens, o que acaba sendo tanto bom quanto ruim. O foco em alguns personagens principais em trama acaba se tornando um bom gancho para o outro episódio, e os conflitos são colocados em medida nas cenas, sabendo equilibrar acordos diplomáticos e intrigas perversas com a guerra e a ação quando mostradas. Game of Thrones, antes de tudo, não é uma série apenas sobre a guerra. Aí está seu trunfo: ela é sobre poder e como ele acaba cegando muitas pessoas. Voltamos aí para o nosso Ego comandado por Ned Stark, um dos únicos personagens da série que não se deixou levar pelo poder excessivo. A sede de moral ganhou do desejo, mas a nobreza de um único é encoberta pela ganância de muitos outros.
O elenco está um show à parte. Dentre tantos nomes tão bons, alguns merecem uma ressalva especial. Temos Sean Bean, que faz o elo da série, a ligação entre muitos personagens e, primeiramente, o motor. A ética que está impregnada na alma desse senhor é o diferencial, é o que deixa seu personagem tão humano numa série coberta de lobos. Não lobos, leões. Bom relembrar que o lobo é o símbolo da casa Stark e o leão, da casa Lannister. Do resto da família Stark há Maisie Williams, que faz a filha Arya, a jovem lutadora que não consegue aceitar sua feminilidade como uma fraqueza. A garota é muito boa em cena, assim como Sophie Turner que interpreta sua irmã Sansa, o contrário de Arya. Ainda da cidade de Winterfell, temos um Kit Harrington maravilhoso que faz com perfeição o filho bastardo de Ned, Jon Snow. Estranho é ver como o jovem se rende pouco ao poder, ao contrário da maioria dos meio-irmãos, e que sua maior ambição é servir ao reino como um patrulheiro para além da muralha de gelo. Fora da família Stark, a família real tem um trabalho maravilhoso. Mark Addy, que sempre é bem vindo em cena, está camuflado em sua própria pele de monarca típico. A sua esposa Cersei Lannister, interpretada delicadamente por Lena Headey, é o exemplo de uma faca de dois gumes. Uma doçura quando preciso, mas com ambições ainda maiores que qualquer outro. Também da família Lannister, há o irmão de Cersei que rouba a cena. Tyrion Lannister, interpretado por Peter Dinklage, é o único contato humano que a família Lannister tem. Ele não deixa de se aproveitar de seu nome no reino, mas sabe usá-lo para objetivos que estão longe do poder. Por ser um anão, sua maior preocupação é ter uma vida normal, coisa difícil na época retratada para qualquer deficiente. E ele é ótimo em qualquer situação. Seja trazendo um humor que é muito agraciado em cena, seja vindo com um sábio drama aproveitando da condição de seu personagem. O anão é um grande homem, no fim das contas. Do outro lado do mar, todo o elenco brilha. Jason Momoa fazendo o líder dos cavaleiros, Harry Lloyd criando seus trejeitos únicos como o homem que está cego pela vingança. E Emilia Clarke, que cativa, emociona e arrepia em cena. A moça interpreta muito bem sua Daenerys, dando pra ela uma inocência e uma ingenuidade que são um contraste do espírito de dragão feroz que a menina mantém como herança de sua família.
Desde seu elenco até sua ambientação, Game of Thrones já esbanja seu resultado maravilhoso muito antes da série acabar. Algumas comparações são feitas entre a terra criada por George R. R. Martin e o reino fantástico de Tolkien. Até as épocas de Senhor dos Anéis e Game of Thrones se assemelham. A diferença que eu dou se concentra nisso: Game of Thrones não é para todos. Por mais que seja uma fantasia, ela é contornada excepcionalmente pelo realismo. A matança é cruel, o sexo é mostrado sem nenhum pudor, o alcoolismo e o preconceito são temas muito mais frios aqui. Tudo chega ao ápice com a épica trilha sonora composta por Ramin Djawadi, que desde a abertura da série – uma tomada fantástica que explica a disposição do reino – mostra a que veio. A série, afinal, atinge seu ápice no final de cada capítulo com o equilíbrio que eu acabei citando anteriormente. Veja o 6º episódio, A Golden Crown, por exemplo. Os acontecimentos vão decorrendo de maneira bem devagar, deixando o ritmo da série muito lento durante a primeira metade. Já na segunda metade, com o número de reviravoltas que ocorrem, o episódio se torna ainda mais interessante na visão de todos os personagens, que são mostrados aos poucos com uma visão de terceira pessoa em cada cena. O gancho para o capítulo seguinte é óbvio, mas funciona muitíssimo bem.
Com tantas divagações aqui, alguns devem estar se perguntando o porquê de eu ter citado Freud no início e no 3º parágrafo do texto. Além do esquema mental dele se encaixar aqui, ele é que pode descrever a grande magia que é a disputa pessoal de Game of Thrones. Além de duelos com terceiros, cada personagem duela consigo mesmo. Os personagens que hoje nos trouxeram alegria, amanhã nos trarão ódio. E todos são as mesmas pessoas, com motivações que são compreensíveis para qualquer um. Com intrigas inimagináveis, com reviravoltas fantásticas, construções de personagens maravilhosas, uma trilha sonora marcante e uma produção que exalta a fantasia da série, Game of Thrones ganha o público com suas batalhas. Sejam estas batalhas contra o inimigo, contra o amigo, contra o desconhecido, contra o conhecido, contra o próprio ID. O gancho final do último episódio coloca fogo e gelo no horizonte dessa grande série de 2011. O inverno, realmente, está chegando. E mais frio do que nunca.












