Crítica | Game of Thrones – 1ª Temporada

estrelas 4,5

Sempre achei que livros e filmes têm que permanecer como modalidades de expressão independentes. Tentar transformar cada parágrafo de um livro em um filme é uma tarefa não só impossível como, também, desnecessária e, em última análise, sem razão de ser. Grandes adaptações cinematográficas são aquelas que, respeitando o material fonte, criam sua própria linguagem, talhada para o meio audiovisual. É assim, por exemplo, com a trilogia O Senhor dos Anéis. Quando um filme tenta respeitar demais o material fonte, fazendo um fac-símile do original, normalmente o resultado é mediano como, por exemplo, a saga de Harry Potter (sim, fãs, mediano apenas, podem me crucificar!). Respeito quem gosta, mas a necessidade de transliterar o original faz com que a adaptação cinematográfica seja um “livro animado” e isso simplesmente não se encaixa no conceito de “adaptação”.

Mas aí eu assisti à primeira temporada de Game of Thrones, série da HBO baseada no primeiro volume das Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin, e mudei de ideia completamente, pelo menos por enquanto. A série repete quase que palavra por palavra o conteúdo do livro, mas, mesmo assim, consegue ser uma obra audiovisual brilhante, quase sem falhas. O mérito todo vai para os showrunners David Benioff e D.B. Weiss (isso apesar de Benioff ter sido o responsável pelo aborto de filme que foi X-Men Origins: Wolverine) que perceberam a riqueza do mundo criado por Martin e convenceram a HBO a embarcar nessa caríssima produção (que veio na esteira do sucesso de crítica de Roma e seu cancelamento tardio). Eles também merecem todo o aplauso por trazerem o próprio autor da saga como consultor, o que garante a integridade da série.

Uma prova de que a série é uma inteligente e extremamente bem feita reprodução do conteúdo do livro foi minha conversa com um amigo quando eu acabei de ler o primeiro livro, mas antes de eu assistir a série. Ele não havia lido o livro, apenas visto a série mas, mesmo assim, eu e ele pudemos ter uma conversa de igual para igual sobre cada detalhe do que havia acontecido. Fiquei impressionado com isso ao mesmo tempo que desconfiado da qualidade da série, o que se dissipou logo no primeiro episódio.

A história é complicada, mas vale um breve “resumo” (entre aspas pois foi o mais curto que consegui escrever).

Westeros é um continente fictício dividido em Sete Reinos, todos sob o comando de um só rei, Robert Baratheon (Mark Addy). Quando Jon Arryn, seu braço direito (chamado Mão do Rei), morre, Robert pede para que seu grande amigo Eddard “Ned” Stark (Sean Bean) seja sua Mão. Ned, que é o lorde das terras do norte, vivendo em Winterfell, aceita relutantemente o cargo e parte para King’s Landing, a sede do governo, levando com ele suas filhas Sansa (Sophie Turner) e Arya (Maisie Williams). Ficam em Winterfell seus filhos Robb (Richard Madden), o mais velho, Bran (Isaac Hempstead Wright) e Rickon (Art Parkinson), além de sua esposa Catelyn (Michelle Fairley) e seu filho bastardo Jon Snow (Kit Harington). Acontece que a maquiavélica esposa do rei, Cersei Lannister (a bela Lena Headey da série de TV Terminator: The Sarah Connor Chronicles) tem seus próprios planos e, ajudada por seu irmão Jaime (Nikolaj Coster-Waldau), coloca-os em andamento. Com seus planos próprios na história, temos o terceiro irmão Lannister, Tyrion (o excelente Peter Dinklage), um anão que compensa sua desvantagem física com um intelecto avantajado.

Ainda em Westeros, somos apresentados à mítica Muralha, uma gigantesca construção erigida há milênios para proteger os Sete Reinos de alguma ameaça sobrenatural que, hoje, todos reputam como sendo lendas. Todos menos os soldados da Patrulha da Noite, que guardam a Muralha desde sua construção. Logo no começo da série vemos que há algo muito estranho acontecendo além da Muralha.

Enquanto isso tudo acontece, vemos o desenrolar da vida de Viserys e Daenerys Targaryen (Harry Lloyd e Emilia Clarke), irmãos que vivem no continente de Essos (separado de Westeros por um mar chamado Mar Estreito). Os dois são os últimos descendentes da família Targaryen, cujo rei Aerys foi destronado em batalha contra Robert, Ned e a família Lannister. Viserys deseja mais do que qualquer coisa retomar o que é seu de direito e, para isso, arranja o casamento de sua irmã Daenerys com o bárbaro Khal Drogo (Jason Momoa, da série Stargate: Atlantis). Seu objetivo é um só: usar o exército de Drogo para invadir Westeros e retomar o Trono de Ferro.

A história é do gênero “fantasia medieval”, lembrando de certa forma O Senhor dos Anéis. No entanto, para aqueles que não gostam desse estilo pelos elementos fantásticos, fiquem tranquilos pois a série – pelo menos na 1ª Temporada – é muito leve nesse ponto, focando muito mais nas intrigas políticas e no “jogo de tronos”, conforme o título em inglês deixa claro. De elementos fantasiosos mesmo, os espectadores só verão no começo e no fim da temporada, nada mais.

O esmero da produção é incrível. As várias famílias, com seus mais diversos brasões, são muito bem representadas em termos de figurino. Não é uma mera diferença de cores aqui e ali, mas sim toda a forma de apresentação de cada família. Em Winterfell, a casa Stark é apresentada como sendo uma casa mais humilde, não por ter menos meios, mas sim por viver mais ao norte, onde o frio é mais constante. Eles são práticos e objetivos em suas vestimentas e armamentos. Mais para o sul, vemos a casa Lannister, riquíssima, com armaduras esplendorosas e centenas de milhares de soldados. Em Essos, a coisa muda completamente e há um ar mais oriental, claramente inspirado no Oriente Médio e alguns países do leste europeu.

A fotografia também é de uma beleza só. Filmada em locação na Irlanda do Norte e em Malta, a temporada apresenta visuais suntuosos, de cair o queixo. A computação gráfica está presente, claro, mas sempre cumprindo uma função muito bem definida. Ora é usada para aumentar os castelos, ora é usada para multiplicar exércitos, em um uso muito semelhante ao que a própria HBO fez na série Roma. Aliás, para os órfãos dessa outra brilhante série, Game of Thrones é um excelente substituto. E já que estou falando em Roma, quem espera batalhas gigantescas, com milhares de extras, não as encontrarão aqui assim como não houve em Roma. A principal razão para isso é financeira já que batalhas custam caro. Mas, dramaticamente, a série não sofre nada com isso já que há violência de sobra nas outras cenas e ver as batalhas – que, sejamos justos, também são pouco retratadas no livro – não acrescentariam nada à trama. Basta saber o resultado delas.

Voltando para a computação gráfica, mesmo ela foi usada de maneira espartana, pois muitos dos cenários são práticos, ou seja, foram construídos de verdade, com portões que funcionam e muros altos. Tudo isso empresta um realismo impressionante à série, como a HBO é craque em fazer.

O enorme elenco da série também funciona muito bem. A maioria dos atores é subaproveitada, no entanto, simplesmente porque não há tempo para explorá-los mais. A temporada é composta de 10 episódios de pouco menos que uma hora cada um, mas o tempo parece passar em questão de poucos minutos. Assim, mesmo os personagens principais, como Ned e Catelyn Stark, Cersei Lannister e Jon Snow e Daenerys têm relativamente pouco tempo de tela. Muito apropriadamente, porém, os produtores souberam focar nas tramas brilhantes de Tyrion que funcionam não só para impulsionar a série mas, também, como alívio cômico em vários momentos. Peter Dinklage é realmente o destaque em termos de atuação, tendo levado o Emmy e o Globo de Ouro por sua atuação na série. Mas a atuação soturna de Sean Bean e a atuação maquiavélica de Lena Headey também merecem destaque. Dos novatos, diria que Emilia Clarke, no papel de Daenerys, constrói muito bem seu personagem, que tem um dos melhores arcos dessa temporada.

E como poderia encerrar meus elogios sem falar da abertura da série? Como os produtores perceberam que a geografia do mundo criado por George R.R. Martin é muito importante (e de difícil entendimento para quem não leu a série de livros), eles encomendaram uma abertura brilhante: basicamente um mapa em movimento que identifica onde estão cada um dos lugares mencionados na série. Mas o mais bacana é que a abertura muda a cada episódio, de forma a mostrar lugares relevantes daquele específico capítulo. Incrível.

No entanto, como eu disse lá em cima, a série não é sem defeitos e esses defeitos são todos eles oriundos da necessidade de se transpor o livro integralmente para as telinhas. Para começar, há pouca profundidade na maioria dos personagens, literalmente por falta de tempo. Em determinados momentos, fica difícil criar empatia com determinados personagens exatamente por causa de seu pouco tempo de tela. O mesmo acontece com a trama. Elas são várias e muito complexas. Mesmo assim, elas passam correndo, voando mesmo, dando pouco tempo para respirar e para acompanhar o que está acontecendo. Quando vi, eu tinha o benefício de ter lido o livro antes, mas imagino que, para quem não leu, os nomes de pessoas e de lugares e a “dança das cadeiras” deve ter ficado pelo menos um pouco confusos. Além disso, toda a temporada soa como uma preparação para o que está por vir, quase que como um prelúdio.

Mas esses são pequenos preços a serem pagos por uma produção tão sensacional. A série merece ser vista, revista e cultuada por quem é ou não é fã dos livros ou mesmo do gênero fantasia. A HBO prova, mais uma vez, que consegue sempre se manter um passo a frente das demais criadoras de séries. E, novamente, uma sensação que tenho há tempos se confirma: as produções para a televisão têm se mostrado com qualidade mais consistente do que as produções cinematográficas.

Game of Thrones – 1ª (Idem, EUA – 2011)
Showrunner: David Benioff e D.B. Weiss (baseado em obra de George R. R. Martin)
Direção: Tim Van Patten (1º e 2º episódios), Brian Kirk (3º a 5º episódios), Daniel Minahan (6º a 8º episódios), Alan Taylor (9º e 10º episódios)
Roteiro: David Benioff e D.B. Weiss (1º, 2, 3º, 5º, 6º, 7º, 9º e 10º episódios), Bryan Cogman (4º episódio), Jane Espenson (6º episódio), George R. R. Martin (8º episódio)
Elenco: Sean Bean, Mark Addy, Nikolaj Coster-Waldau, Michelle Fairley, Lena Headey, Emilia Clarke, Iain Glen, Aidan Gillen, Harry Lloyd, Kit Harington, Sophie Turner, Maisie Williams, Richard Madden, Alfie Allen, Isaac Hempstead-Wright, Jack Gleeson, Rory McCann, Peter Dinklage, Jason Momoa
Duração: 561 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.