Série: Homeland – 1ª Temporada
Os efeitos do 11 de setembro continuam servindo de base para roteiristas mundo afora, seja no recente filme de Stephen Daldry, Tão Forte e Tão Perto, ou na elogiadíssima produção da Showtime chamada Homeland, que estreia no Brasil essa semana. Ao contrário de produtos como 24 Horas (apesar dos produtores serem os mesmos), o seriado resolve tratar a paranóia norte-americana com foco na tensão, no desenvolvimento sem pressa, mas sem embromar, e investindo num roteiro excelente, onde os personagens ditam o ritmo.
Quando me deparei com o primeiro episódio na série, não só, mas principalmente depois de sua cena de encerramento, onde vemos o sargento Nicholas Brody (Damian Lewis) encarando um importante alvo do governo, prendemos a respiração e nos deixamos levar, sabendo que seremos manipulados a todo instante através de uma trama instigante. Aqui, o que temos é um oficial dos Estados Unidos que, após passar oito anos como prisioneiro da Al-Qaeda no Iraque, é resgatado por marines e levado para casa. Além dos conflitos de readaptação com sua esposa Jessica (Morena Baccarin) e filhos, Brody vira alvo da agente da CIA Carrie Mathison (Claire Danes), que acredita convictamente ser o sargento um traidor da sua nação convertido pelo terrorista Abu Nazir para sua causa.
Pela primeira vez, até onde consigo lembrar, acompanhamos a ótica de um possível terrorista, ou seja, um suposto vilão, sem sabermos de fato se ele o é ou não. São muitos os filmes ou séries que tentam nos fazer questionar os intentos de seus personagens principais, mas Homeland é a única produção em que me encontrei com uma dúvida real durante seus primeiros oito episódios, de um total de dez. Essencialmente, isso ocorre, porque estamos diante de um roteiro praticamente impecável, que resolve transcender a ação desenfreada de plots do gênero e construir sua narrativa sem ignorar a inteligência de seu público. Em todo episódio do show conseguimos chegar a apenas uma conclusão: não temos certeza de absolutamente nada. E é claro que os esforços dos roteiristas jamais teriam sucesso não fosse o elenco ao dar suporte aos personagens. Claire Danes esbanja talento com sua psicótica Carrie e, principalmente nos capítulos finais, justifica e muito sua vitória no Globo de Ouro 2012. A paixão que impulsiona a investigadora é certamente um dos pontos altos de Homeland e exigia uma entrega a qual Danes jamais se rendeu. Damien Lewis, tendo que construir um oficial em cima da dúvida, sem nunca saber em que solo está pisando, também é eficiente, alternando-se entre momentos explosivos e calmaria angustiante. Basta emparelharmos duas cenas suas: aquela em que ele espanca o melhor amigo ao descobrir uma traição e outra onde, diante desse mesmo amigo, ele se desculpa e pede auxílio, numa quadra de basquete. Sem termos certeza exata das tendências que movem o personagem, ele mais parece uma bomba armada, com o perdão do trocadilho.
O elenco de apoio também não decepciona. Mandy Patinkin comanda seu Saul Berenson com pulso firme, mas sem perder a gentileza com que trata a todos, e seus momentos diante da perda da esposa são tocantes, e impressionam suas atitudes já nos momentos finais, quando ele, enfim, revela do que é capaz. Jackson Pace e Morgan Saylor, que perfazem os filhos de Brody, surgem como excelentes atores, e graças à capacidade de Saylor, somos convencidos numa cena chave do último episódio. Já em Morena Baccarin, encontramos o elo fraco da corrente, visto que Jessica surge apenas como pretexto para bagunçar a vida marital de Brody e não conseguimos nos aproximar da personagem face às atitudes dela antes de saber que o marido permanecia vivo, mas principalmente pelo motivo de Baccarin aparentar carregar apenas duas expressões: uma na qual sorri com meia boca e outra na qual franze o cenho em preocupação.
A produção da série é caprichada, exceto por dois únicos instantes – momentos em que explosões ocorrem – nos quais os efeitos visuais não convencem, mas tais situações são tão essenciais ao andamento da trama, que deixamos passar. A maquiagem concebe um bom trabalho ao compor os flashbacks da vida de Brody enquanto prisioneiro, ou mesmo ao retratar a face marcada do soldado Tom Walker após suas infindáveis torturas.
Porém, é mesmo no roteiro que se concentra o grande trunfo de Homeland, com suas reviravoltas, tensões e tramas que encontram desfechos rápidos, sem permitir que o espectador tome para si a impressão que será enganado por seis longas temporadas (viu, senhor J. J. Abrams?). Mas dizem que quanto maior a altura, pior a queda, e as mesmas pretensões que levam Homeland a se tornar uma série de grande destaque, são as mesmas que a derrubam em seu season finale. Movidos por expectativas e por uma trama já direcionada, os roteiristas nos fazem ansiar ou temer por uma situação que simplesmente é ignorada logo depois, servindo apenas de momento decisório que conduz a uma conclusão que poderia ser ter acometido as mentes de seus orquestrantes bem antes. E não há um verdadeiro cliffhanger que nos conduza diretamente à segunda temporada, exceto nossos gostos pelos personagens e o desejo que, tendo decidido por esse desvio, Homeland não faça de um bom começo apenas uma promessa.
Ainda assim, o seriado é fantástico e não cabem desculpas para não acompanhá-lo, mantendo-se muitíssimo acima da média apesar de seu encerramento. A Showtime ganha mais pontos.
Homeland (EUA, 2011)
Direção: Diversos
Criação: Alex Gansa & Howard Gordon
Elenco: Claire Danes, Damian Lewis, Morena Baccarin, David Harewood, Diego Klattenhoff, Jackson Pace, Morgan Saylor e Mandy Patinkin
Duração: 640 min aprox.


























