Crítica | Homeland – 1ª Temporada

estrelas 4

Obs: Leiam as críticas das demais temporadas, aqui.

Sem ficar rodeando o óbvio, Homeland é uma série que parte de uma premissa genial: um soldado americano, considerado como desaparecido em ação no Iraque, é achado pela CIA em um buraco da al-Qaeda depois de oito anos de brutal cativeiro. Nicholas Brody (Damian Lewis) é recebido nos EUA como herói nacional, mas a oficial da CIA, Carrie Mathison (Claire Danes), começa a desconfiar que ele pode ser um espião da organização terrorista infiltrado em solo americano.

A base da história foi extraída da série israelense Hatufim, que significa “Sequestrados”, mas que foi traduzida para o inglês como Prisoners of War (Prisioneiros de Guerra). No entanto, as duas séries realmente só têm a premissa como coincidente, pois o desenvolvimento de Homeland difere e muito do original e pode-se dizer facilmente que são completamente independentes, ainda que o crédito da criação seja devido a Gideon Raff, o showrunner de Israel.

O que torna Homeland especialmente interessante e eletrizante é a dinâmica entre os dois personagens principais, um representando de certa forma cada lado da moeda. Logo fica claro que há realmente alguma coisa errada com Brody, mas a única pessoa que consegue detectar isso é Carrie. Por sua vez, porém, Carrie sofre de distúrbio bipolar e fica obcecada em descobrir a verdade, nem que para isso ela tenha que plantar escutas desautorizadas na casa de Brody e até mesmo se aproximar amorosamente dele.

Enquanto isso, o círculo próximo a Brody também sofre com sua volta. Sua mulher, Jessica (a bela brasileira Morena Baccarin), estava envolvida com o melhor amigo de Brody, Mike Faber (Diego Klattenhoff) e a volta repentina do marido acaba dando uma rasteira em sua vida. É uma boa notícia, para ser festejada, mas o carinho que ela recebia de Mike inexiste com Brody, o que é compreensível, claro, mas cria conflitos inevitáveis. O mesmo vale para os dois filhos do casal. Chris (Jackson Pace), de 12 anos, nem se lembra do pai e a relação afetiva tem que ser construída do zero e Dana (Morgan Saylor), de 16 anos, está na idade da rebeldia, o que por si só já cria tensão.

Já do lado de lá, cercando Carrie, temos seu mentor Saul Berenson (Mandy Patinkin), experiente especialista da CIA que a adora e tenta protege-la – incluindo dela própria – o máximo possível. Como uma presença imponente sombreando os dois, há David Estes (David Harewood), Diretor de Contraterrorismo da Agência. Sua postura mais severa e um passado amoroso com Carrie deixam visíveis rusgas no relacionamento e dificultam o trabalho da agente.

A série prima exatamente por essas relações interpessoais, que enriquecem a experiência audiovisual e nos fazem sofrer e torcer pelos personagens. Carrie é a sofredora, a mártir e Brody é um manipulador de mão cheia, mas com uma enorme carga emocional oriunda de conflitos internos e familiares. E esses conflitos internos, assim com a revelação lenta – bem lenta! – dos detalhes de um possível ataque terrorista em que Brody faria parte, mantém o espectador na ponta da cadeira, tentando adivinhar o que vai acontecer a todo o instante e duvidando de tudo e todos. O trabalho do showrunner Howard Gordon em manter, constantemente, um véu de mistério na série é absolutamente fantástico.

O grande problema, porém, é justamente esse. O mistério é tanto e tão pouco é revelado que, quando os grandes eventos dos episódios finais acontecem, ficamos sem entender exatamente o que se passou. Sim, entendemos o porquê de Brody voltar atrás em seu suicídio explosivo (além da razão óbvia que a série acabaria ali mesmo, claro) e também aceitamos o trágico final de Carrie, mas ficamos no escuro quanto à trama maior e quanto à continuidade da série em si.

Aliás, a sensação de continuidade – ou da falta dela – é algo que imaginei desde o primeiro minuto. Minha dúvida era: como sustentar essa narrativa por muito mais do que uma temporada? Essa resposta veio mais para a frente, na Segunda Temporada, que será tratada em crítica separada, mas a primeira deixa tanta coisa pendente e tem um caráter finalista tão grande e pesado que é difícil para o espectador imaginar como as coisas continuarão e isso é, de certa forma, frustrante.

Mas talvez seja esse também o ponto forte da temporada. É inegável que, assim como um bom livro, é literalmente impossível parar de ver a série antes do último episódio.

O que fica, independente de qualquer coisa, é a qualidade das atuações. Todos estão muito bem na temporada, com especial destaque para Claire Danes, com um trabalho no fio da navalha entre a insanidade e a precisão absoluta, entre a certeza e a dúvida atroz. E se os desdobramentos de mistérios em cima de mistérios é o preço que tenho que pagar para ver uma atuação assim, então vale a pena.

Homeland – 1ª Temporada (EUA, 2011)
Showrunner: Howard Gordon
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Claire Danes, Damian Lewis, Morena Baccarin, Diego Klattenhoff, Mandy Patinkin, David Harewood, Jackson Pace, Morgan Saylor
Duração: 664 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.