Crítica | Homeland – 2ª Temporada

estrelas 4,5

Obs: A crítica que segue contém SPOILERS da temporada anterior de Homeland. Leiam as críticas das demais temporadas, aqui.

O final da primeira temporada de Homeland é literalmente bombástico, com Carrie Mathison (Claire Danes) recebendo eletrochoques para controlar seu transtorno bipolar – sou só eu ou esse tratamento parece medieval em pleno século XXI? – e com Brody (Damian Lewis) estourando a cabeça de Tom Walker (Chris Chalk) depois de convencer Abu Nazir (Navid Negahban) que seu colete explosivo havia dado defeito. Como continuar essa linha narrativa de forma convincente? Como abordar a doença da heroína de forma crível e que permita continuidade?

E o pior é que Howard Gordon, o showrunner da série, só complica mais as coisas com o começo da segunda temporada. Afinal de contas, logo no primeiro episódio – The Smile – passado seis meses após os eventos da primeira temporada, ele não só revela a Saul Berenson (Mandy Patinkin) e, por tabela, à Carrie e David Estes (David Harewood), provas irrefutáveis da verdadeira identidade de Brody, como, também, joga Carrie, mesmo afastada da CIA, em uma missão impossível no Líbano.

E a coisa vai piorando e o cerco a Brody se fecha completamente no quinto episódio quando ele é finalmente levado a interrogatório pela CIA. Esse é um daqueles momentos em você fala bem alto para você mesmo ou para quem estiver ao seu lado: “Pronto, acabou a série!”. E, de fato, em circunstâncias normais, ela deveria ter acabado. Brody conta quem ele é em um fascinante jogo de perguntas e respostas em que Carrie e Quinn (Rupert Friend) participam. A atuação deles e de Damian Lewis, em Q&A é um momento de virada em toda a narrativa e em toda a série, tamanha é a tensão que eles passam, ajudados por uma câmera estática em médio plano e close-ups aterradores. Esse tipo de episódio é que, se bem-sucedido, faz uma série inteira e, quando acabei de assisti-lo, tinha certeza – finalmente! – que o showrunner havia virado a mesa e construído uma trama duradoura.

Com Brody trabalhando como agente duplo, a grande caçada a Abu Nazir efetivamente começa, por intermédio da repórter Roya Hammad (Zuleikha Robinson), que funciona de liaison entre o terrorista e seu agente infiltrado no alto escalão do Congresso (afinal, Brody não só é deputado, como, também, forte candidato a candidato a vice-presidente dos EUA). Mas, no lugar de desvelar a trama como uma série procedimental qualquer, o showrunner se preocupa com o aspecto psicológico dos personagens. Como Brody se sente é tão importante – ou mais – do que como a CIA pretende capturar Abu Nazir. Vemos contradição em suas ações, incertezas em seu olhar, desespero em sua voz. Ele é alguém que não mais tem alianças firmes. Perdeu fé em Abu Nazir e, agora, é basicamente forçado pela agência de inteligência a trabalhar para eles colocando sua vida e a de sua família em risco.

E isso sem contar com sua relação caliente e conturbada com Carrie. Nesse ponto, o lado da agente também é trabalhado a fundo. Sabemos que ela, muito provavelmente, gosta mesmo de Brody, mas, assim como ele, tem dúvidas sobre o que fazer. Ela se dedica a uma relação provavelmente fadada ao fracasso ou joga seus sentimentos de lado e trata Brody com hostilidade, como o inimigo? Onde é que fica sua frieza como agente da CIA lidando com um terrorista confesso?

Mesmo com todas as perguntas pulando da tela, há mais ainda, especialmente no que se refere à esposa de Brody, Jessica (Morena Baccarin) e a filha dos dois, Dana (Morgan Saylor). Jessica não consegue conviver com um marido cada vez mais distante e começa a desconfiar de uma recaída dele em relação a Carrie (e com toda razão, claro). Dana, por sua vez, se depara com uma situação excruciante quando, em uma noitada irresponsável com o filho do vice-presidente, testemunha o atropelamento, por seu namorado, de um pedestre. Eles não param para ajudar e fogem, com a mulher atropelada morrendo não muito tempo depois. Eles contam para os pais? E se contam, qual será a reação? O jogo político em cima dos filhos de figuras tão importantes é absolutamente massacrante para a mente ainda em formação de Dana.

É delicioso ver uma série que equilibra ação com psicologia, com o interior de seus personagens e não se esquiva de mergulhar profundamente em dilemas morais, mantendo-se, ao mesmo tempo, fortemente galgada em sua lógica interna. E tudo fica ainda melhor quando vemos que, mesmo nos grandes eventos da série, a narrativa se mantém fresca e surpreendente.

O final da temporada prova isso. Em The Choice, com tudo basicamente sobre controle em termos narrativos, o showrunner nos dá uma fortíssima rasteira, daquelas que nos fazem perder os sentidos momentaneamente de tão inesperada. O status quo é balançado profundamente. Personagens importantes saem da jogada. Outros, como Saul Berenson, tomam papeis completamente diferentes. E a dupla de protagonistas é catapultada para um cenário diferente, incerto e que provavelmente gerará muitas dúvidas aos espectadores, sendo a principal delas se a explosão final era o que havia sido planejado por Abu Nazir desde o começo da série.

Agora é ver se, na terceira temporada, o ritmo alucinante é mantido.

Homeland – 2ª Temporada (EUA, 2012)
Showrunner: Howard Gordon
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Claire Danes, Damian Lewis, Morena Baccarin, Diego Klattenhoff, Mandy Patinkin, David Harewood, Jackson Pace, Morgan Saylor, Jamey Sheridan, Navid Negahban, David Marciano, Rupert Friend
Duração: 630 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.