Crítica | Les Revenants (The Returned) – 1ª Temporada

estrelas 4

Obs: Apesar de eu ter tomado cuidado, é possível que o pouco que falei da história contenha SPOILERS. Portanto, fiquem avisados. 

Já caí em muitas armadilhas com séries de TV que amontoam segredos atrás de segredos sem solucioná-los com um mínimo de razoabilidade. Há muitos anos, Arquivo X teve mais temporadas do que deveria e acabou diluindo o impacto da série, ainda que ela continue sendo acima da média para algo feito para a televisão aberta. Lost desandou completamente com seus ursos polares, fumaças assassinas, flahsbacks e flashforwards. A mais recente dessas armadilhas – e sei que meu julgamento é prematuro, pois só vi a primeira temporada – foi Fringe.

Havia prometido a mim mesmo não mais cair na conversinha desse tipo de série, mas aí me deparei, completamente sem querer, com Les Revenents ou The Returned, conforme foi batizada nos EUA. A série, uma produção francesa falada em francês com atores franceses, é do finalzinho de 2012, mas só começou a circular de verdade pelo mundo a partir de 2013. Com apenas oito episódios, cada um com mais ou menos 55 minutos, a série, escrita por Fabrice Gobert, é uma adaptação de um filme francês de mesmo nome, de 2004.

O que capturou minha atenção foi a intensidade do primeiro episódio. Com paleta de cores azul e verde, entristecida, a atmosfera criada é de claustrofobia, desespero mesmo. E esse aspecto bem trabalhado da produção combina perfeitamente com a trama, que envolve a volta de diversas pessoas dadas como mortas há tempos em uma cidadezinha perdida na França. Em tom e desenho de produção, a série lembra muito outra tão misteriosa quanto famosa, Twin Peaks. E, assim como Twin Peaks, e bem diferente das séries que citei mais acima, Les Revenents é muito mais a experiência, a jornada, do que o mistério em si.

A falta de informação dos três ou quatro primeiros episódios é absolutamente enervante, o que contribui para o suspense que Fabrice Gobert (que também dirige os quatro) constrói. Vemos Camille (Yara Pilartz) voltando de um acidente fatal em ônibus escolar acontecido anos antes. Sem memória, ela volta para casa como se nada tivesse acontecido, para encontrar um lar quebrado e sua irmã gêmea Lena (Jenna Thiam) mais velha do que ela. Vemos Simon (Pierre Perrier) voltar para sua noiva – que está para casar novamente – que acha que ele é um fantasma. Vemos o silencioso – e assustador! – menininho Victor (Swann Nambotin) voltar à procura de sua “fada”. Testemunhamos a volta da morte do assassino serial Serge (Guillaume Gouix), que não perde tempo em voltar a seus velhos hábitos. E assim por diante.

Gobert não tem pressa. Ele aborda cada história de maneira quase estanque. Trabalha com pouquíssimos flashbacks, normalmente como forma de introduzir um episódio e não acelera a série mesmo quando deixa a direção na mão de Frédéric Mermoud nos três episódios seguintes, que já começam a unificar a história e a tornar mais evidente que tudo tem algum tipo de relação com a destruição de uma cidade que lá existia depois que houve a ruptura repentina de uma represa há 35 anos. No presente, o reaparecimento dos que se foram coincide com o nível da água da represa baixando e com algumas descobertas desconcertantes no local.

As diversas narrativas paralelas apresentam muita riqueza de detalhes, mas, mesmo assim, o roteiro é econômico nos diálogos. Em substituição, os atores são induzidos a transmitir emoção com olhares, gestos e falas pela metade ou cheias de significado escondido. A direção e a montagem ajudam o espectador a não perder o fio da meada, caracterizando muito bem cada situação que gira em torno de cada personagem. Não há nenhuma tentativa de explicar nada muito bem. Mas, de algum jeito, a fluidez da narrativa e a complementaridade das histórias de cada morto que volta acaba ajudando da montagem de um quebra cabeças imperfeito, com muitas peças faltantes, mas que permite a visualização do conjunto.

Se essas peças aparecerão ou se Fabrice Gobert fará como David Lynch, deixando-nos quase que às escuras, o fato permanece que Les Revenents é uma pequena, estranha e sobretudo bela série que será impossível o espectador abandonar antes do final do último episódio. O final, aliás, montado para nos levar ao tradicional cliffhanger, deixará qualquer um curioso pelo que vai acontecer, mesmo que algo me diga, lá no fundo, que explicações serão escassas e insatisfatórias. Será que caí em mais uma armadilha?

Les Revenents (The Returned, França – 2012)
Showrunner: Fabrice Gobert
Direção: Fabrice Gobert, Frédéric Mermoud
Roteiro: Fabrice Gobert
Elenco: Anne Consigny, Frédéric Pierrot, Clotilde Hesme, Céline Sallette, Samir Guesmi, Guillaume Gouix, Jean-François Sivadier, Alix Poisson, Jenna Thiam, Grégory Gadebois, Pierre Perrier, Yara Pilartz, Swann Nambotin, Ana Girardot
Duração: 440 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.