Crítica | Lilyhammer – 1ª Temporada

estrelas 4

Essa crítica tem que ser muito didática pois tenho certeza que muito pouca gente sequer ouviu falar da série Lilyhammer, lançada esse ano. E a razão é muito simples: trata-se de uma co-produção da Noruega e dos Estados Unidos com dinheiro do Netflix por detrás. E como assim Netflix, alguns perguntarão. A resposta é para lá de interessante e pode significar um caminho sem volta para outras empresas semelhantes, mudando o conceito de “série de televisão” (e não, o Plano Crítico não está sendo pago pela Netflix para escrever o que vocês lerão). Quem já souber do que se trata a série e não quiser ler sobre sua gênese, deve pular os cinco próximos parágrafos e ir direto para os comentários específicos sobre a temporada.

A Netflix é uma empresa americana fundada em 1997 que tinha a proposta de ser uma locadora sem loja. Todos os DVDs era enviados pelo correio aos seus assinantes, que pagavam uma taxa mensal variável dependendo do número de discos que poderiam ficar simultaneamente com cada um. Esse modelo de negócio levou a um processo que destruiu as grandes redes de locadoras físicas nos Estados Unidos (lembram-se da Blockbuster?). Com a expansão da banda larga nos EUA, a Netflix passou, então, a oferecer um modelo misto, combinando DVDs (e Blu-Rays) com o streaming de parte do catálogo.

Ano passado, a empresa expandiu-se territorialmente, saindo da América do Norte e chegando na América Latina, incluindo o Brasil. Apesar de ter conteúdo limitado por aqui, o serviço é exclusivamente de streaming. Ao mesmo tempo que fazia essa expansão, a empresa deve ter percebido que poderia catapultar seus negócios tornando-se também uma produtora, criando conteúdo exclusivo. Lilyhammer foi o primeiro resultado desse novo foco da empresa.

E eles começaram bem.

A série não é uma “produção exclusiva Netflix” propriamente dita pois foi lançada primeiro na televisão norueguesa NRK1, alcançando números recordes de audiência (basicamente um quinto da população do país). Logo em seguida, foi lançada nos Estados Unidos e no resto do mundo onde a Netflix tem presença, exclusivamente via streaming para seus assinantes. Diferente do modelo de negócio de séries de televisão comuns, todos os oito episódios que compõem a primeira temporada foram lançados no mesmo dia. Também diferente do que se vê por aí, a Netflix não fez alarde nem por meio de publicidade, nem internamente, para os assinantes. Tudo foi muito discreto, quase invisível.

Mas deve ter dado muito certo pois a segunda temporada já foi encomendada e, nesse meio tempo, a Netflix também se comprometeu a trazer de volta a série Arrested Development, adorada por fãs, mas que teve vida curta nas emissoras dos Estados Unidos, sendo cancelada em 2006 com apenas três temporadas. Além disso, está produzindo outra série original chamada House of Cards, capitaneada por ninguém menos do que David Fincher.

Essa introdução razoavelmente longa era necessária para que todos entendessem a lógica por detrás de Lilyhammer e percebessem o porquê de talvez nunca terem ouvido falar da série. Nesse contexto, então, vamos à história: Frank “The Fixer” Tagliano (Steven Van Zandt, o Silvio Dante de A Família Soprano e membro da E Street Band de Bruce Springsteen) é um mafioso que decide testemunhar contra a famiglia em Nova Iorque e, por isso, tem que entrar para um programa de proteção à testemunha. A condição que impõe é se mudar para Lilyhammer (como ele pronuncia o nome da cidade norueguesa Lillehammer), sede das Olimpíadas de Inverno de 1994.

Chegando na cidade, agora com o nome Giovanni Henriksen, ele imediatamente percebe que aquela imagem romântica que tinha da cidade coberta de neve não condiz exatamente com a realidade. Há muita neve, mas, junto com a neve, muito frio e duas ou três horas de luz por dia. E pior: para sua enorme surpresa, ele nota que os noruegueses são extremamente certinhos, fazendo tudo conforme as regras. Desnecessário dizer que “Giovanni” não se faz de rogado e passar a impor seu jeito de ser sobre a população local, levando todos à loucura.

A premissa é fantástica e a execução, muito competente. Para começar, o processo de “corrupção” da cidade de Lillehammer é um grande – e talvez um dos melhores – exemplo de choque de culturas, algo que não deve ficar muito longe da realidade, mantidas as mesmas condições de pressão e temperatura. Em segundo, Steven Van Zandt, apesar de não ser um grande ator, tem uma carranca que é perfeita para o papel. Isso cria situações cômicas sem ele precisar nem esboçar qualquer expressão facial. Ele simplesmente transportou seu personagem Silvio Dante para a Noruega. E todos os demais atores são ilustres desconhecidos noruegueses, falando em norueguês quase todo o tempo. O personagem de Van Zandt “entende”, mas não fala a língua, o que é conveniente para a trama e algo que aprendemos a aceitar.

Em termos de produção, a série é muito simples, quase espartana. Foi filmada em locação em Lillehammer e há muito pouco cenário. Mas isso não afeta, de forma alguma, o roteiro esperto e as atuações competentes (considerando, aqui, que a “não-atuação” de Van Zandt é parte do personagem). A concatenação de ideias desde o primeiro episódio segue uma lógica clara, tornando o choque de culturas bastante natural e crível, ainda que, em determinados momentos, saibamos que as coincidências são exageradas. Há, também, uma certa repetição de situações mais para o final da temporada mas, como ela é muito curta, a trama é pouco afetada.

A série é definitivamente muito gostosa e fácil de se ver, sendo um excelente exemplo de como o roteiro pode ser quase tudo em uma obra para televisão (e para cinema também, diga-se de passagem).

Mas porque, lá no começo, falei que isso pode mudar o conceito de série de televisão? Ora, não sei exatamente como a Netflix mede o retorno sobre o investimento de uma série como essa já que não há valores pagos separadamente e é difícil – senão impossível – saber se mais assinantes estão sendo atraídos para a plataforma por essa razão. No entanto, o fato é que, se uma estrutura como essas funcionar, a liberdade criativa pode ganhar, da noite para o dia, uma gigantesco leque para crescer, com a criação de séries e filmes baratos e bem escritos. Isso só aumentará a oferta para o público e, com o tempo e dependendo do sucesso, pode alterar significativamente a maneria como séries são ofertadas pelas produtoras.

Lilyhammer – 1ª Temporada (Noruega, Estados Unidos, 2012)
Direção: Geir Henning Hopland, Simen Alsvik, Lisa Marie Gamlem
Roteiro: Anne Bjornstad, Eilif Skodvin
Elenco: Steve Van Zandt, Marian Saastad Ottesen, Trond Fausa Aurvaag, Anne Kriqsvoll, Steinar Sagen, Mikael Aksnes-Pehrson, Sven Nordin, Fridtjov Saheim, Kyrre Hellum, Tommy, Karlsen, Tim Ahern, Finn Schau, Greg Canestrari, Eira Stuedahl, Nasrin Khusrawi, Hamid Karimi, Robert Skjaerstad, Petrus Andreas Christensen, Oystein Roger, Sigmund Saeverud, Kyrre Haugen Sydness, Erlend Klarholm Nilsen, Magnus Young Mortensen, Thomas Grube, Beate Eriksen, Parker Sawyers
Duração: 45 minutos cada episódio

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.