Crítica | Lost – 6ª Temporada [Final]

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Eu tinha esperanças que Lost seria encerrada de uma forma minimamente competente e que seus roteiristas iriam usar toda a última temporada, formada por 17 episódios, sendo que o último duplo e mais um epílogo curto, de 11 minutos, para criar alguma coesão à série. O que vi, porém, apesar da razoavelmente boa quinta temporada, foi um fracasso total de uma fórmula que começou bem, desandou no meio e se dilui completamente em seu último capítulo.

Lost tem como foco os mistérios da ilha. É bem verdade que as histórias de cada personagem são igualmente tratados em flashbacks, até o ponto de conhecermos cada um deles na vida que tiveram antes de chegar à ilha. As temporadas posteriores continuaram usando a técnica de flashback para equilibrar entre novos mistérios apresentados e personagens. Acontece que novos personagens iam sendo apresentados e novos flasbacks se tornavam necessários.

Aí chegou o momento dos flashforwards, inteligente jogada dos roteiristas que acabou dando nova vida à série que já estava confusa demais, ampla demais, diria, até, arrastada demais. Na quinta temporada, os roteiristas trataram de misturar flashbacks com flashforwards, brincando razoavelmente bem com o principal elemento daquela temporada: a viagem no tempo.

Assim, o pessoal da produção de Lost, especialmente os roteiristas, devem ter achado que era obrigação deles apresentar alguma coisa nova na sexta e última temporada. A grande jogada deles foi, então, criar o que eles batizaram de flashsideways (ou sideflash), em que dois universos paralelos são mostrados ao mesmo tempo: um é o universo que já estávamos acostumados na ilha e o outro é o universo do que aconteceria se o voo Oceanic 815 nunca tivesse caído. Esse universo paralelo é resultado direto do final da temporada anterior e até faria algum sentido se ele impulsionasse de verdade a história e se fosse menos utilizado como uma forma de esticar a última temporada até o limite.

No final das contas, o foco da sexta temporada é a misteriosa “fumaça negra” e ela serve de linha mestra para a tentativa de resolução de vários mistérios, especialmente quem é Jacob e o homem de preto, esse último apresentado brevemente no final da temporada anterior.

Mas os roteiristas fracassaram vigorosamente, pois passaram a não só apresentar novos personagens (Dogan, por exemplo), como novos locais (o templo, por exemplo) e novos mistérios (a luz, por exemplo). Além disso, passam a simplificar determinados mistérios sem explicá-los. Apenas dizem que é assim e pronto, sem maiores detalhes. De ficção científica, que achei que seria o caminho em vista do que acontece na quinta temporada, eles pulam para a total fantasia, sem maiores cerimônias e quase que inteiramente negam a utilidade das viagens no tempo que vimos antes.

E no gênero fantasia, vale tudo mesmo, muito mais do que na ficção científica que, por mais absurda que seja, deve ter algum pé na realidade e seguir uma lógica interna. No gênero fantasia, fica fácil dizer que é por que é e pronto, ninguém discute. É basicamente isso o que acontece nessa temporada em que a tal “luz” – que, aliás, é introduzida bem lá na frente, quase que como um último desespero para arrumar um fiapo de explicação para as propriedades especiais da ilha – é apenas uma luz, sem que ninguém se digne nem a inventar alguma coisa sobre ela.

Daí em diante, a coisa passa a ser metafísica e cheia de simbolismos furados, exatamente para permitir que os roteiristas se safassem da confusão que eles criaram desde a primeira temporada. Basta ver que, apesar de calcada fortemente em mistérios até bem interessantes em seu começo, eles são em tese todos resolvidos na base da preguiça: é tudo metáfora, o que vale é a jornada, não a explicação e balelas do gênero.

Senti-me completamente enganado por esse final fraco, chato e arrastado que exige que basicamente esqueçamos tudo que veio antes. É uma temporada para rever os personagens que morreram (todos reaparecem no tal universo paralelo) para o deleite dos fãs que, depois de ficarem seis anos amarrados na TV, sentem vergonha de dizer que a temporada final é um lixo.

Quem não viu a sexta temporada pare de ler, pois, a partir daqui, há SPOILERS. Pule para o último parágrafo se não quiser saber nada.

Eu avisei.

Outra coisa que me deixou muito chateado foi a ginástica do roteiro para provar ao telespectador que tudo havia sido pensado dessa maneira desde o inicio. O exemplo mais cretino disso foi o episódio 15, Across the Sea, em que finalmente vemos, em flashback, a origem de Jacob e do homem de preto. Os dois nascem de uma náufraga que é subsequentemente morta pela guardiã da ilha. A guardiã cuida dos dois meninos como se mãe deles fossem, preparando-os para que um deles um dia a substitua na tarefa.

No entanto, a guardiã não sabe o que guarda (além de ser uma luz) e o roteiro ignora completamente coisas como: de onde vem o poder de imortalidade e outros da guardiã. Como Jacob ganha os vários poderes que viria a mostrar mais tarde? O que exatamente é a fumaça negra? Seu irmão, o homem de preto ou a encarnação do mal puro? De onde vêm as construções da ilha como a estátua com quatro dedos e o farol que localiza pessoas? Isso tudo é convenientemente deixado de lado, pois simplesmente não há explicação e os produtores de Lost, então, passaram a vender para o público bobão que a explicação não é importante, ao passo que, lá no começo da série, cansaram de dizer que tudo seria explicado.

Mas nesse episódio, os roteiristas fazem questão de colocar cenas que se remetem diretamente aos primeiros episódios da primeira temporada, em que Jack acha dois esqueletos lado a lado e um saquinho contendo duas pedras. A impressão que passa para o espectador que quer muito gostar da série é de “Uau, os roteiristas são gênios”. O que aconteceu na verdade, porém, foi que os roteiristas viram o que fizeram, inventaram uma história tresloucada, completamente sem pé nem cabeça e deram um jeito de encaixar no que vimos no começo da série.

E o que é aquela pedra que serve de rolha para o poço de onde sai a luz misteriosa. O coitado do Desmond vai para lá como se soubesse o que faz e quase destrói a ilha no processo. Aí, é só colocar a rolha de novo no lugar que tudo se resolve? WTF?

E, como se isso não bastasse, depois, já no finalzinho do último episódio, temos aquela explicação safada do pai de Jack no sentido de que todos já estavam mortos e que não havia um passado, presente ou futuro na capela da igreja onde eles estavam, que foi “construída” para todos se encontrarem alí pois o tempo em que os personagens passaram juntos foi o mais importante da vida deles. Raios. O que isso pode significar? Eu sei! Que nós, espectadores, somos muito otários mesmo…

É meio que aquela velha história da Roupa Nova do Rei, em que o tal costureiro real fala para o rei que a inexistente roupa que costura para sua excelência é magnífica, ao ponto de o rei e seus súditos acreditarem. O rei está nu!

FIM DOS SPOILERS

A última temporada teria sido melhor se tivesse apenas cinco ou seis episódios, talvez menos ainda. Com 17 (18, na verdade), cada episódio foi um suplício, a arte da enrolação em sua manifestação máxima, sendo os sideflashes o ponto alto dessa nefasta arte. Se era para nos enganar, pelo menos poderiam ter sido cavalheiros o suficiente fazendo isso rapidamente, sem muito sofrimento.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.