Crítica | Prison Break – 3ª Temporada

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estrelas 3,5

Obs: Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Há males que definitivamente vêm para bem. No caso de Prison Break, foram dois males praticamente simultâneos que tornaram sua 3ª temporada muito melhor do que tinha o direito de ser.

O primeiro dos males foi a famosa greve dos roteiristas de Hollywood entre novembro de 2007 e fevereiro de 2008 que atingiu em cheio o time criativo de Paul Scheuring e forçou que a temporada fosse encurtada para apenas 13 episódios dos planejados 22. Isso, por si só, garantiu um passo mais apertado e menos enrolação à temporada, evitando ao máximo fillers e desvios narrativos somente para preencher o espaço regulamentar, algo claramente presente nas duas temporadas anteriores ou, para dizer a verdade, em qualquer série na estrutura clássica de mais de 20 episódios.

O segundo mal foi a saída de Sarah Wayne Callies, a Dra. Sara Tancredi, par romântico de Michael Scofield. A atriz teve problemas na renegociação do contrato, além de questões pessoais e isso a afastou, ainda que momentaneamente, da série. Na verdade, ela estava presa a um contrato e teria que ter participado de toda a 3ª temporada, mas, com seu encurtamento, a ideia original de matá-la lá pelo 13º episódio, tendo ainda mais nove para desenvolver as consequências, foi alterada para uma morte mais rápida e off screen, com sua cabeça decapitada(!!!) sendo enviada para Lincoln em uma caixa, algo que seria, depois, “alterado” radicalmente com Callies voltando para a série na 4ª temporada. Mas a vantagem de não termos Sara na temporada é que não se perde tempo com um romance que, em tese, com Michael preso novamente, não poderia ser explorado na narrativa sem parecer forçado.

Com isso, o saldo da temporada foi positivo, mesmo considerando toda a quase surreal confluência de eventos que levou Michael, Mahone, T-Bag e Bellick para Sona, a prisão no Panamá com fama de ser a mais violenta do mundo. Se pensarmos bem, levando em conta todo o amontoado de absurdos que os espectadores foram obrigados a engolir nas duas temporadas anteriores, a inversão de papeis, com Michael na prisão e Lincoln, do lado de fora, tentando libertá-lo, faz perfeito sentido. Afinal, continuar fugindo pelo mundo tornaria a temporada repetitiva e planos de fuga de prisão são sempre divertidos e normalmente geram bons momentos mesmo em filmes notoriamente mais fracos, como Fuga para Vitória, em que Pelé marca um gol de bicicleta nos nazistas.

Sona, conforme aprendemos, é um prisão em que a polícia não entra e é “governada” por Norman “Lechero” St. John (Robert Wisdom), um dos detentos, que tudo sabe e que a tudo controla. É interessante ver Michael aprendendo – na marra – a mecânica da nova prisão e tentando montar uma nova estratégia de fuga. Da mesma maneira, aos poucos ele descobre que sua presença ali não é mera coincidência ou azar, pois a malfadada Companhia, a grande vilã ainda sem rosto da série, quer usar suas habilidades especiais para libertar James Whistler (Chris Vance) que está lá dentro por em tese matar o filho do prefeito da Cidade do Panamá. Para alcançar seu objetivo, a Companhia sequestra tanto L.J., filho de Lincoln, quanto Sara, forçando a aceleração dos planos.

Diferente do que vimos especialmente na primeira temporada, aqui a ação “do lado de fora” não cativa e não acrescenta muita coisa à narrativa principal. Felizmente, porém, a relutante e às vezes perigosa interação entre o frio Michael, o louco Mahone, o sofredor Bellick e o traidor T-Bag funciona muito bem e garante diversão ao espectador. Particularmente, William Fichtner (Mahone) tem espaço para brilhar e ele realmente comanda as sequências em que aparece, sempre entre sua moralidade de outrora e sua entrega às drogas no presente, tornando seu personagem talvez o mais multifacetado de toda a série. Robert Knepper, como T-Bag, está costumeiramente bem, servindo ao papel do vilão que adoramos odiar como ninguém, mas, nesta temporada, perdendo um pouco seu brilho, especialmente diante de Fichtner.

O design de produção, tenho para mim, falhou com a prisão em si. Quando Michael foi encarcerado em Sona ao final da temporada anterior e quando a prisão foi anunciada como a mais perigosa do mundo, logo me veio à mente algo opressivo e violento ao ponto de tornar Fox River uma prisão de segurança mínima como a Litchfield de Orange is the New Black. No entanto, apesar do pretenso controle do local pelo detentos, o resultado é colorido demais, ensolarado demais e simples demais para realmente criar aquela sensação de urgência e medo que seria necessário para fazer jus à reputação do lugar. Não que Sona não seja ameaçadora, não me entendam mal, mas simplesmente não passar o ar de malevolência que em tese deveria passar.

Como era de se esperar, os roteiros da temporada não perdem tempo e introduzem um “conceito” que seria exponencialmente multiplicado na 4ª temporada: a capacidade de Michael de ser a versão moderna de MacGyver. Aqui, nós o vemos lidar com problemas novos a cada momento sem a vantagem de um plano prévio, o que o faz ter que pensar em uma resolução ali mesmo e implementá-la com o que tem disponível. Isso acrescenta à atmosfera exagerada da série, com uma fuga inteira, por exemplo, dependendo de coisas como alguns segundos em que o sol reflete na torre de vigilância e faz com que o policial desvie o olhar. Mas, à essa altura do campeonato, qualquer coisa vale para prender a atenção do espectador e é particularmente alvissareiro notar que Paul Scheuring consegue exatamente isso ao abraçar o excesso e o descomedimento de vez, sem vergonha de ser feliz.

Os potenciais problemas da 3ª temporada foram mitigados por situações complicadas no mundo real que foram bem equacionadas pela produção. O desastre que se anunciava foi evitado e a série triunfou mais uma vez. Nada mal para algo tão inusitado quanto a premissa original de Prison Break.

Prison Break – 3ª Temporada (EUA – 17 de setembro de 2007 a 18 de fevereiro de 2008)
Criador e showrunner: Paul Scheuring
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Dominic Purcell, Wentworth Miller, Robin Tunney, Peter Stormare, Amaury Nolasco, Marshall Allman, Wade Williams, Sarah Wayne Callies, Paul Adelstein, Robert Knepper, Rockmond Dunbar, William Fichtner, Chris Vance, Robert Wisdom
Duração: 568 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.