Crítica | The Walking Dead – 4ª Temporada, Parte 1

estrelas 3,5

Atenção: A crítica a seguir contém SPOILERS da série, incluindo da 4ª Temporada.

Ok, agora começo a nutrir um pouco de esperança por The Walking Dead, série que, apesar de todo seu estrondoso sucesso de público, ainda não conseguiu me impressionar. A primeira metade da Quarta Temporada, que acabou de entrar em hiato de final de ano, voltando, apenas, no dia 09 de fevereiro de 2014, é bem interessante, ainda que longe de estar no mesmo patamar de outras séries atuais.

Composta de oito episódios (com mais oito prometidos para a segunda parte, seguindo exatamente a estrutura da Terceira Temporada), a semi-temporada pode muito bem ser dividida em quatro momentos: a abertura, a epidemia, o Governador e o desfecho/cliffhanger. Olhando dessa forma, a estrutura proposta faz bastante sentido, gera bons sustos e cria inusitadas linhas narrativas que podem dar frutos futuramente. Ainda não é justificativa suficiente – considerando que é uma meia-temporada ainda – para fazer The Walking Dead realmente valer a pena ou expiar os pecados do material que veio antes, mas já é um alento.

Na abertura, no episódio intitulado 30 Days Without an Accident, Scott M. Gimple, o mais novo showrunner, que assumiu o posto depois da saída de Glen Mazzara no final da temporada anterior, procura estabelecer o novo status quo da prisão onde vivem Rick Grimes (Andrew Lincoln) e seu grupo. Depois do frustrado ataque do Governador (David Morrissey), como sabemos, os habitantes da cidade utópica Woodbury, passaram a viver na relativa segurança de um local construído para impedir que as pessoas saiam. Com isso, dois blocos da prisão são usados, com uma divisão em termos da população original e da população nova, divisão essa que soa artificial e conveniente demais para os eventos que se seguem.

Como o título diz, há 30 dias não há acidentes nessa comunidade, mas a impressão que fica é que mais de 30 dias se passaram desde a conclusão dos eventos anteriores. Rick abriu mão da liderança e transformou-se em fazendeiro, cuidando da horta e dos porcos. Daryl (Norman Reedus) comanda as expedições para fora da prisão e, de certa forma, a liderança recai sobre os ombros do velho Hershel (Scott Wilson) e de Carol (Melissa McBride), que formam uma junta decisória quase que como uma reunião de condomínio do fim do mundo. Michonne (Danai Gurira), por sua vez, continua soturna, quieta e obcecada em achar o Governador, o que a torna uma figura ausente na comunidade na maioria do tempo.

Tudo vai muito bem, até que começa a ir muito mal, com uma expedição para achar comida que dá horrivelmente errada, com direito a uma literal chuva de zumbis. A cena é boa, tensa e sacode um pouco a abertura que, de outra forma, é bem lenta, nem parecendo um começo de temporada. Ao final, um dos habitantes da prisão cai morto em razão de uma doença misteriosa, criando a ligação com a segunda e mais longa parte da meia temporada.

Nessa segunda parte, composta de quatro episódios em sequência que começam com a letra “I” (Infected, Isolation, Indifference e Internment), os sobreviventes precisam lutar contra um inimigo invisível: uma espécie de vírus da gripe que mata rapidamente. E, claro, quem morre ainda ganha de bônus o direito de reviver como zumbi e jantar os amigos.

Essa ameaça é muito bem tratada na narrativa, pois há um foco grande (ainda bem!) nas discussões sobre a natureza humana e um mistério sobre a origem da doença é introduzido. Hershel é o único que mantém uma completa retitude de caráter e um desapego à sua própria vida em prol dos demais. É a exceção que confirma a regra. Afinal, até Carol sucumbe e, em nome de um alegado bem maior, mata dois membros da comunidade e ata fogo a eles. E, pior, continua agindo sem remorso, como se nada tivesse acontecido. São esses estudos de caráter que torna a meia temporada tão interessante.

Rick se vê cada vez mais impedido de continuar sua vida de fazendeiro. Sua liderança é necessária para estabilizar a situação e ele novamente se vê em uma situação impossível: ele deve ou não aceitar o que Carol fez? O resultado é satisfatório e permite o uso de Carol no futuro ou mesmo na alardeada série spin-off que já entrou em pré-produção.

Dentro da ala em quarentena, a situação é tensa, pois os doentes têm que se cuidar sozinhos, até que Hershel resolve lá entrar para se sacrificar. Mas ele já tem certa idade e, além disso, não tem parte de uma perna. O que realmente de bom ele pode fazer se os zumbis começarem a reaparecer? Esse confinamento da Ala A da prisão contrasta com os espaços abertos que Daryl (que se transformou, finalmente, em um verdadeiro líder), Michonne (que continua inútil) e Tyreese (Chad L. Coleman, irritantemente enlouquecido pela perda de sua namorada) têm que enfrentar para achar antibióticos em um centro veterinário longe dali. E, mesmo ali, no meio da terra de ninguém dos zumbis, o showrunner tem o cuidado de trabalhar mais conflitos interiores, com a luta de Bob (Lawrence Gilliard, Jr.), o quarto membro do grupo, contra o alcoolismo.

No lado “infantil” da narrativa, Carl (Chandler Riggs) finalmente encontra seu ponto de equilíbrio e deixa de ser uma criança, chegando à fase adulta. E não são atos violentos nem decisões impossíveis que fazem o garoto crescer, e sim a forma como ele lida com os acontecimentos passados e o que ocorre durante a epidemia. Ele é um menino sério e centrado que, aparentemente, conseguiu digerir as ignomínias que viu e foi obrigado a fazer nas temporadas anteriores. E o ator também cresceu muito fisicamente, o que torna importante esse amadurecimento que alguns poderiam chamar de precoce (mas que, diante das circunstâncias, na verdade não é).

É claro que essa ameaça poderia ter sido muito bem contada mais rapidamente, em uma temporada que exigisse bem menos do que 16 episódios. Afinal, The Walking Dead começou com apenas seis episódios, tendo uma segunda temporada de 13. 16 é um número alto, que perigosamente aproxima a série das outras mais aguadas e sem graça que singram a televisão com intermináveis 22 episódios. Esse, porém, é o preço do estrondoso sucesso da série de zumbis e, na lógica de Hollywood, mais sempre significa mais dinheiro nos cofres, mesmo que signifique menos em termos de conteúdo.

Nos dois episódios seguintes, objetos de muita reclamação dos fãs, o foco muda completamente. Scott M. Gimple rebobina a fita e volta ao fim da temporada anterior para focar no paradeiro do Governador. Em Live Bait, o que vemos é ele no proverbial fundo do poço, abandonado pelos seus últimos dois leais súditos e vagando pelo mundo sozinho, sem vigor até mesmo para se defender dos desmortos.

Mas a mão do destino ajuda o malvado caolho (afinal, vaso ruim não quebra, não é mesmo?) e ele ganha uma segunda chance de redenção ao se encontrar com uma família que vem sobrevivendo esse tempo todo escondida em um apartamento. Lá, ele encontra acolhida e logo vê na menininha Meghan (Meyrick Murphy) uma possível “substituta” para sua própria filha. Barbado e quase sem falar, ele vagarosamente vai voltando à aparência original, mas sem a maleficência que o marcou. Ou, pelo menos, testemunhamos uma luta interna muito grande entre o antigo Governador, o Phillip, e o novo Governador, agora chamado de Brian.

Muito do material usado nesses dois episódios foi pinçado do romance A Ascensão do Governador, escrito por Robert Kirkman (o criador dos quadrinhos) e Jay Bonansinga que joga luz sobre o passado do personagem (o livro já foi publicado no Brasil). Com isso, ele ganha outras camadas de dimensão que realmente não esperamos e que, provavelmente, gerou a ira dos fãs da série que, aparentemente, só querem ver sangue escorrendo. É um momento de calma, tranquilidade, mas nós sabemos que tem algo errado e a personalidade antiga do Governador, que ele tenta enterrar em seu subconsciente, vai voltando vagarosamente e, no episódio seguinte, Dead Weight, ela retorna completamente.

O grande problema é a montagem do episódio e a impressão – ou melhor, a falta de impressão – de passagem de tempo. Como a série “volta ao passado”, não fica claro se sua vida em tese pacata com a família se deu por muito tempo ou só por alguns dias. Seria ridículo imaginar que tudo não passou de três ou quatro dias, pelo que prefiro acreditar que foram meses o que, claro, não diminui o problema da montagem.

No episódio seguinte, o Governador, Meghan, sua mãe Lilly (Audrey Marie Anderson) e sua tia Tara (Alanna Masterson) estão em fuga e, no processo, acabam – em mais uma coincidência de fazer virar os olhos – se deparando com Martinez (José Pablo Cantillo), o antigo subordinado do Governador/Phillip/Brian que, agora, é chefe de seu próprio grupo. Essa mini-comunidade se torna o objeto de desejo do Governador que, novamente com o objetivo de fazer o melhor pelas pessoas, comete os mais terríveis atos, voltando ao que era antes.

Alguns argumentaram que todo esse longo preparativo é redundante, que é óbvio que o Governador é mau e tudo mais. Acontece que, mesmo sabendo que ele é o principal antagonista, desconstruir e reconstruir personalidades é uma tarefa árdua para qualquer série e o showrunner se sai muito bem aqui. David Morrissey, de longe o melhor ator dessa série, nos faz acreditar que seu personagem pode alcançar a redenção, somente para jogar nossas esperanças pela janela, involuindo o Governador para seu estado primal, com especial sede de vingança em relação a Michonne que, como única ação decente na série até esse episódio, arrancara seu olho.

E, quase fazendo um aparte aqui, por incrível que pareça, é nesse episódio que vemos um dos melhores enfoques da homossexualidade na televisão ou mesmo em qualquer mídia. Tara é lésbica e encontra uma parceira nessa nova comunidade. O diferente, aqui, é a extrema naturalidade com que isso é tratado. Não há foco excessivo nesse aspecto, pois a orientação sexual dos personagens não é algo importante para a impulsão da narrativa, mas a pluralidade está lá presente para quem quiser ver e tratada respeitosamente, sem maniqueísmos e exageros.

E, com isso, chegamos ao 8º e último episódio da meia-temporada, Too Far Gone. As estradas finalmente convergem. O Governador revela suas verdadeiras cores e, em um discurso pouquíssimo convincente e quase como um passe de mágica, faz com que sua nova gangue concorde que atacar a prisão é a única saída. Esse início do capítulo é de chorar em termos de roteiro, pois não decorre naturalmente do que vem antes, uma vez que Phillip/Brian jamais deu sequer uma pista que conhecia a prisão e que os moradores de lá seriam os malvados da história.

No entanto, se mesmo que por um minuto pudermos esquecer esse problema, então o divertimento é garantido, pois o episódio é o que deveria ter sido o final da Terceira Temporada. Dessa vez, o ataque do Governador vai até as últimas consequências e, de maneira bastante poética, envolve um tanque de guerra. O paralelo com o primeiro e segundo episódios da série é um toque genial do roteiro e, claro, a aparição do enorme veículo no episódio anterior já deixava bem claro o que iria acontecer.

Too Far Gone encerra o arco do Governador com oito (ou mais) episódios de atraso, mas encerra muito bem, especialmente ao retratar Rick, novamente, como um ser humano ponderado que, concordando com Hershel, entende que, por mais perdido (o gone do título) alguém esteja, ainda dá para voltar. Esse discurso do protagonista, que antecede o banho de sangue, é retirado da HQ original em muitos trechos e o que acontece em seguida também em grande parte. Os zumbis são o que deveriam ser: meros coajduvantes.

E o melhor é que o episódio representa, também, um recomeço, uma tábula rasa para a série. A mecânica das relações terá que mudar ainda nessa temporada. A prisão não existe mais. Gente importante morreu. Carol se foi. Agora vale tudo e só resta esperar até fevereiro para ver se Scott M. Gimple, o novo showrunner, realmente reviverá triunfalmente os tão maltratados mortos-vivos.

The Walking Dead – 4ª Temporada, Parte 1 (The Walking Dead – Season 4, Part 1 – 2013)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Andrew Lincoln, David Morrissey, Norman Reedus, Scott Wilson, Melissa McBride, Danai Gurira, Chad L. Coleman, Lawrence Gilliard Jr, Meyrick Murphy, Alanna Masterson, Audrey Marie Anderson, José Pablo Cantillo, Chandler Riggs, Lauren Cohan
Duração: 339 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.