Crítica | Serra Pelada

estrelas 3

O garimpo de Serra Pelada foi mais um típico e emblemático capítulo da história brasileira, com as peculiaridades que caracterizam  nossa  organização (ou desorganização) econômica e social.  O diretor.Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo) parece querer retratar essa complexidade, mas ao mesmo tempo, como o filme não é um documentário, o evento histórico do maior garimpo brasileiro serve apenas como pano de fundo para emoldurar uma história moral sobre os efeitos da ambição desenfreada na vida das pessoas comuns.

Juliano e Joaquim são amigos que partem juntos em busca do sonho de ficar rico rapidamente, impulsionados pelas notícias que se espalham sobre o sucesso do garimpo. O sonho se torna realidade, como eles planejavam, mas quando o dinheiro começa a aparecer de verdade, a amizade que os unia vai dar lugar a brigas e realçar suas diferenças. Juliano assume os negócios, cego pelo poder, e quer transformar Joaquim, antes tratado como sócio e irmão, em mais um empregado.

O diretor Dhalia estava muito bem acompanhado para retratar essa aventura. Afinal, o que dizer de um filme brasileiro que se dá o luxo de ter como coadjuvantes atores do peso de Matheus e e Wagner Moura. Moura talvez tenha reduzido a importância de sua participação à frente das câmeras por conta de haver também co-produzido o filme. Os dois atores principais, Juliano Cazarré e Júlio Andrade estão bem, principalmente Andrade, entregando até mais do que o filme exige dele. Há uma coesão do elenco e uma qualidade geral das interpretações que se espalha até mesmo entre aqueles que são quase figurantes na trama, como as “Marias” – como eram chamados os gays que trabalhavam no garimpo. A fotografia e trilha sonora são excelentes, e a produção em geral é bastante caprichada, com destaque para a excelente reconstituição cenográfica do garimpo.

Embora eu tenha ouvido muitos críticos dizerem que Serra Pelada não esconde que foi buscar parâmetros e ideias em Carandiru e Cidade de Deus, 2 mega-sucessos do cinema brasileiro, para mim o filme tem muito mais a ver com o universo de filmes de gângsters e máfia do Martin Scorsese, como Caminhos Perigosos e Os Bons Companheiros. Personagens marginalizados, vivendo sob o jugo ou no comando de uma organização criminosa que trespassa ou se oculta da sociedade organizada – um verdadeiro mundo paralelo, acentuado no caso do filme visto que o garimpo estava localizado num fim de mundo totalmente longe da dita civilização. O filme retrata muito bem que, fora do trabalho no garimpo, a vida daqueles homens se resumia a se envolver com prostitutas, bebida e brigas – um verdadeiro faroeste do século XX. E, dentro do garimpo, as facções determinavam a hierarquia do poder nesta terra de ninguém.

A premissa inicial do filme, de mostrar como o dinheiro e a ganância corrompem o homem comum, embora não original, poderia ter rendido uma ótima história. Mas o filme comete o erro de pontuar demais este aspecto, chegando ao ponto de colocar esta ideia, e de forma repetida, nas falas do personagem (“esse lugar piora a gente”), o que, ao meu ver, soa artificial. Não convence que o próprio Joaquim – mesmo sendo um professor, e não um grosseirão, como Juliano – pudesse ter a lucidez instantânea de filosofar em cima dos fatos que estava vivendo.

Além de um final bastante previsível, Serra Pelada não consegue nunca alçar voo, como se estivesse engessado numa história que não foi suficientemente trabalhada. Embora muito bem produzido tecnicamente, o filme se ressente de um roteiro frágil, que peca em não nos envolver suficientemente, não criando no espectador uma empatia (ou antipatia) suficiente com os mocinhos ou bandidos da trama. Acompanhamos a história, mas ela não nos causa emoção, surpresa ou o choque necessário para ocupar um lugar na memória tão logo a gente saia do cinema, o que é uma pena diante de um comprometimento e profissionalismo evidentes por parte da equipe envolvida.

Serra Pelada (Brasil –  2013)
Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Heitor Dhalia, Vera Egito
Elenco: Juliano Cazarré, Júlio Andrade, Wagner Moura, Matheus Nachtergaele, Sophie Charlotte
Duração: 120 minutos

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.