Crítica | Terra Nova – 1ª Temporada

estrelas 1,5

Atenção: O texto contém spoilers. Caso não tenha visto a temporada, não recomendamos a leitura.

Tendo Steven Spielberg como um dos produtores executivos, a série Terra Nova, do canal FOX, chamou a atenção de fãs do diretor e de ficções científicas bem construídas. Mas Spielberg é apenas um no time de produtores da série (uma produção caríssima, diga-se de passagem), e o resultado final, apesar de ter muito a “sua cara”, está aquém do cômputo geral de suas produções, revelando-se uma decepção das grandes.

Terra Nova tinha tudo para ser um bom show, mas se tornou uma coleção de decepções e clichês do gênero, chegando ao ponto de ser cancelada com o final da 1ª temporada, embora haja uma série de especulações na internet sobre as negociações para o seu retorno e várias petições de fãs para uma segunda temporada.

É impossível defender Terra Nova por muito tempo. Com dois roteiristas fixos e sete outros colaboradores ao longo da temporada, a história apresentada sofre, mesmo nos seus melhores momentos, de uma estrutura insossa, um enredo e falas mal escritas e um impacto mínimo. Não fosse a edição e o argumento geral instigante, duvido muito que em algum ponto na metade da série ela teria alcançado uma cotação elogiosa nos sites especializados e uma crítica condescendente durante a exibição ou após o seu término.

O fato é que a série demora muito para engrenar. A partir do 5º episódio é que alguma coisa mais sustentável começa a aparecer, e mesmo assim, com furos tão grandes entre um ponto e outro da história, que o espectador não consegue aproveitar direito o espetáculo.

A história geral se passa no ano de 2149, em um mundo esgotado, superpopuloso, sem recursos naturais, com atmosfera poluída, quantidade enorme de lixo, substâncias tóxicas e chuva ácida. A humanidade está à beira da extinção e apenas os muito ricos conseguem se aproveitar dos mínimos recursos que o planeta ainda possui. É quando um grupo de cientistas consegue abrir uma fratura no continuum espaço-tempo criando um portal para a Terra a 85 milhões de anos no passado, para o meio do Período Cretáceo. Dentre os habitantes do planeta em extinção, o privilégio principal para ultrapassar o portal é ser um “profissional útil”, ou seja, alguém que possa ajudar de algum modo a colônia de Terra Nova.

Como se vê, o potencial da história é incrível. A possibilidade de um questionamento sobre o “cidadão útil” poderia gerar uma linha interessantíssima no setor burocrático da história. Por outro lado, ao invés de empilharem erros básicos de sobrevivência humana, os roteiristas e produtores poderiam ter investido em um verdadeiro recomeço, ou seja, que tipo de tecnologia levar para o Cretáceo, como gerar energia para pelo menos mil pessoas (população média da colônia), novas formas de produzir alimento, novas formas de trabalho, etc. Mas nada disso acontece. Outro fator que incomoda é que com todo o aparato tecnológico que o projeto possui, a colônia de Terra Nova sobrevive no meio Cretáceo Superior protegendo-se com uma simples cerca de madeira! Veja que mais da metade dos dinossauros viveram essa época da escala geológica, visto que se trata do ápice de sua escala evolutiva. Mas em Terra Nova, mesmo num mundo que consegue fazer viagens no tempo, a cerca de madeira é o bastante para afastar a enorme quantidade de animais gigantes que povoavam a Terra nesse período. Até “Os Outros”, de Lost, tinham uma proteção melhor!

O que mais decepciona é ver que a série contou com uma equipe muitíssimo competente de consultores para checar possibilidades e trabalhar acontecimentos, e mesmo assim, caiu no abismo das coisas impossíveis ou mesmo justificáveis na história que se está contando. Para piorar o enredo, o drama familiar do tipo Spielberg-Columbus ganha mais destaque do que deveria. Aliás, o que se critica não é o uso da família como elemento, algo que pode ser muito bem usado a favor de uma trama desse tipo. O problema é fazer da família uma refém fácil de namoricos, fofuxismos e mimimis numa história com potencial bem mais inteligente do que o dramalhão à la novela mexicana.

Os efeitos especiais e visuais da série alteram muito em qualidade. As piores representações são a dos dinossauros em relação ao homem – especialmente em planos médios e primeiros planos. A (descartável) cena em que Jim e Taylor estão pescando e Jim fisga aquela lindeza de dino-peixe, é um dos piores exemplos do uso de tecnologia para uma cena específica na televisão. A direção e as atuações são quase intragáveis, de tão medianas. O setor técnico de maior destaque é a edição, com bom uso de efeitos dialéticos e criação do suspense visual. A trilha sonora de Brian Tyler tem mais cara de John Williams do que qualquer outra coisa, mas dá uma força extra ao clima “épico” que a direção tenta passar em alguns momentos.

O que animou muito a reta final do show foram os acontecimentos dos três últimos episódios: a destruição do portal no futuro, o aumento dos inimigos e a possibilidade de uma existência anterior aos colonos… Salvo a semelhança com as intrigas de Lost, o final dessa primeira (e única?) temporada trouxe à série uma força que os 10 episódios anteriores não conseguiram. Não é por isso que deve-se louvar Terra Nova, mas eu estou na classe dos espectadores que dariam uma outra chance à série caso essas especulações internautas sobre a segunda temporada se tornasse real. Resta agora esperar para ver se algum canal assume a responsabilidade de dar vigor a Terra Nova. Por hora, a série segue cancelada, e nós, aqui na Terra Velha, esperamos não chegar ao ponto de precisar colonizar nenhuma outra era geológica do nosso planeta.

Terra Nova (Austrália, EUA, 2011)
Criação:
 Kelly Marcel, Craig Silverstein
Diretores: Alex Graves, Jon Cassar, Nelson McCormick, Bryan Spicer, Karen Gaviola
Roteiristas: Kelly Marcel, Craig Silverstein, Brannon Braga, David Fury, René Echevarria, Brynn Malone, Barbara Marshall, Paul Grellong, Terry Matalas, Travis Fickett, David Graziano, Jose Molina
Elenco: Jason O’Mara, Shelley Conn, Christine Adams, Allison Miller, Landon Liboiron, Naomi Scott, Alana Mansour, Stephen Lang, Rod Hallett, Simone Kessell, Dean Geyer, Damien Garvey, Damian Walshe-Howling, Emilia Burns
Duração da temporada: 600min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.