Primeira Impressão: The Newsroom
Ao assistir ao piloto de The Newsroom, nova série do canal HBO, eu mal pude evitar a sensação de exaustão, uma vez que me senti como se tivesse acabado de correr uma maratona. Sim, estou mentalmente exausto, mas é tão bom me sentir assim de novo. Sentir que uma obra me obrigou a correr atrás e acompanhar o ritmo da narrativa. E fui muito bem gratificado pelo exercício.
Escrito por Aaron Sorkin, responsável por séries como The West Wing e a excelente Studio 60 on the Sunset Strip, o piloto tem todas as características da escrita do autor: diálogos afiados e inteligentes, disparados pelos intérpretes com velocidade invejável. E que diálogos! A primeira cena, por exemplo, onde o âncora do noticiário televisivo News Night, Will McAvoy (interpretado por um ótimo Jeff Daniels) está participando de um debate em uma universidade, acompanhado por dois outros profissionais. O debate gira em torno de, entre outros aspectos, como os EUA são o melhor país do mundo.
A resposta de Will, conhecido no universo da série por nunca tomar partido político ou ideológico, é um tapa na cara dos entusiasmados, ideológicos e perigosamente cegos universitários. E apenas em um discurso de entre dois a três minutos, Sorkin expõe não apenas dados relevantes sobre a posição da poderosa nação perante o mundo, como também exibe a personalidade furiosa e até esperançosa que Will tenta esconder a fim de manter sua audiência. Tudo isso embalado pela performance de Jeff Daniels, cujas repostas automáticas e tom de voz sereno escondiam o turbilhão de pensamentos e conflitos internos do personagem.
Velocidade, aliás, cai como uma luva no dia-a-dia da redação do noticiário televisivo. As informações voam e se você não puder acompanhar é possível sofrer uma queda dura. Em segundos, empregos e empregados são criados ou dispensados, matérias importantes são perdidas. E este é mais um excelente aspecto do roteiro de Sorkin.
Evitando informar a época em que o piloto se situa, o espectador automaticamente assume estar assistindo a algo situado no presente. Porém, apenas no momento em que a equipe de notícia recebe um alerta amarelo (indicando uma possível grande história), é que recebemos a informação de que a ação está se passando em 2010, mais precisamente em 20 de Abril. A notícia é o que ficou conhecido como a explosão na plataforma da British Petroleum Deepwater Horizon, no Golfo do México. O maior desastre ambiental dos EUA, e a equipe de News Night está decidindo se deve ou não transmitir o ocorrido, uma vez que, naquele momento, a notícia não parecia ter tamanha relevância.
Porém, Sorkin e o diretor Greg Mottola (que mantém visualmente o ritmo do texto, fazendo inúmeros cortes e movimentos de câmera, mas nunca perdendo do foco da cena) não mantém a ação apenas no viés jornalístico da redação. Há um embate moral relevante, representado pelo casal Will McAvoy e Mackenzie MacHale (Emily Mortimer). De um lado, temos Mackenzie, uma profissional jovem, mas experiente, argumentando que os noticiários norte-americanos estão estagnados. O público precisa de algo que os façam pensar e ela pode fazer isso com o News Night. Enquanto Will está confortável com o que conseguiu como âncora, argumentando que a audiência americana não quer um conflito e sim uma aceitação de seu ponto de vista político.
Ao final, Will aceita as mudanças e rejuvenescimento do material que Mackenzie propõe, criando um jornal mais interessante e relevante do que a audiência produziu. Não só isso, mas o embate também representa um ponto de vista de conflitos entre a ideologia da juventude e o pragmatismo da velhice. Não é à toa que Emily Mortimer parece muito mais jovem do que Jeff Daniels. E também não é à toa que Mackenzie seja uma personagem nascida nos EUA e criada no Reino Unido, dando início talvez a um interessante debate sobre a necessidade de não “estar” nos EUA para olhá-lo com bons olhos.
A produção conta também com uma direção de arte inteligente, que cria uma redação cuja tecnologia e espaços abertos, que entram em conflito com os cubículos individuais, tornam o ambiente dinâmico. E mesmo que a ênfase da análise tenha sido abordar a dinâmica entre apenas dois personagens, todo o elenco está afiadíssimo (pessoalmente, é um prazer enorme rever Sam Waterston tão bem após os anos que passou em Law & Order).
Funcionando mais como um média-metragem do que um piloto de série (a duração é de mais de uma hora), The Newsroom é engraçado, inteligente e energético, contendo uma visão ideológica e política que poucas outras obras audiovisuais contêm.
Espero que se mantenha assim por um bom tempo.
The Newsroom (EUA, 2012)
Direção: Greg Mottola
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Jeff Daniels, Emily Mortimer, Sam Waterston, Alison Pill, Thomas Sadoski, John Gallaher Jr., Dev Patel
Comentários
About the Author
- Artigos relacionados
- Aaron Sorkin
- Alison Pill
- Crítica
- criticas
- Emily Mortimer
- HBO
- Lançamentos
- Primeira Impressão
- Séries de TV
- slide
































































Ótimo texto!! Nossa eu adoro séries que envolvem drama e comédia como The Newsroom, protagonizada pelo talentoso Jeff Daniels e com diálogos rápidos e geniais do premiado Aaron Sorkin. Estou ansiosa pela estréia.