Voz do Leitor | A Filosofia e o Cinema
Não são poucos aqueles que já se debruçaram a respeito da relação entre filosofia e cinema. Trata-se de um “casamento” fascinante, quase perfeito, entre uma forma de pensar mais elaborada e racional (o que não exclui a sensibilidade) e uma arte recente no plano histórico. De certo, esta poderosa “química” é o que impulsiona um número considerável de pessoas a escrever e a pensar a respeito deste assunto. Particularmente, sempre gostei de ir ao cinema. Assistir a um filme é sempre uma experiência única. Esquecemos o que há lá fora e dirigimos nossa atenção à outra história que, por vezes, é mais complexa, triste ou alegre, feia ou bonita do que os fatos da vida real. Aristóteles no século III a.C. já havia chamado a atenção para o poder do teatro na promoção da katharsis. O espectador, tomado pelas emoções do momento, pode sair dali renovado, pois vivenciou em toda sua intensidade o que assistiu. Penso que isso bem poderia se estender ao cinema. Porém, quantas vezes não saímos da sala mais incomodados do que quando chegamos? Como explicar esse sentimento de “estranhamento” proporcionado por alguns filmes? É difícil responder a essas questões! Contudo, cumpre dizer que este “incômodo” também depende do espectador. Afinal, só nos sensibilizamos com aquilo com que nos identificamos em maior ou menor grau. Caso contrário, um filme perde o “sentido”.
Mas voltemos à questão inicial, a saber, o que permite esse casamento entre a filosofia e o cinema? Bem, diferentemente de Adorno, filósofo Alemão cujas críticas ao cinema são conhecidas, pensamos que essa forma de expressão, uma das mais recentes da história, possui um tipo de poder que é típico da filosofia. Refiro-me ao poder de provocar. Claro que pensando dessa forma o cinema torna-se muito mais uma arte do diretor do que do ator ou do próprio roteirista. Porém, é exatamente isso que pensamos. O diretor pode provocar, estimular, “esbofetear” o espectador usando seus conhecimentos, técnicas e estilo, conduzindo o filme desta ou daquela maneira, acrescentando diálogos, reduzindo-os ou simplesmente excluindo-os, enfatizando o roteiro ou a atuação, a fotografia ou a sonoplastia, enfim, existem muitas e variadas formas através das quais isto pode se dar e que não necessariamente se excluem. Ora, não é esse igualmente o papel do filósofo? Claro que neste caso os recursos são outros. Mas ele também surpreende o senso-comum à medida que propõe novas leituras de mundo, isto é, questionando as verdades e as conveniências da cultura vigente. Essa provocação é, sobretudo, uma forma de rompimento com o cotidiano, com o comodismo da realidade, e isso, com efeito, leva-nos a pensar sobre novas possibilidades. Mas essa não é a única semelhança entre a filosofia e o cinema.
Muitos estudiosos afirmam que a filosofia se distingue das ciências pelo fato de não ter um objeto específico. Por exemplo, quando falamos em medicina, logo pensamos em saúde; se falamos em química, pensamos em elementos químicos; em matemática, pensamos em números, e assim por diante. A filosofia não tem um objeto específico, podemos pensar sobre tudo: o homem, as relações entre os homens, a existência, Deus, a religião, a política, o conhecimento, a arte e até mesmo a própria filosofia. Não há limites! Ora, e não é esta também uma das características do cinema? Os filmes podem ser sobre todos os temas e assuntos. Não há um tema próprio do cinema (conquanto a imagem seja seu recurso absoluto). Tudo que cerca a vida humana é passível de se tonar objeto. Entretanto, como toda arte, o cinema é também um “saber-fazer” e, desse modo, requer o emprego de técnicas específicas que, no caso dos diretores, atores, iluminadores, roteiristas, etc., necessitam anos de preparo e exigem a prática, ou seja, a “ação” (lembremos do emblemático comando: “luz, câmera e ação!”). A filosofia, nesse sentido, inclina-se mais para “reflexão” – não que o cinema também não possa provocá-la, contudo, só num segundo momento, enquanto a filosofia o faz diretamente. Ela [a filosofia] não produz nada do ponto de vista prático (isso não significa que não tenha importância). Mas, ainda que essa pequena diferença esteja presente, nada impede que o filósofo pense o cinema e, muito menos, que o diretor expresse a filosofia; e é exatamente nesse ponto que a ação e a reflexão se encontram e um longo e apaixonante beijo, típico do universo fílmico, pode se dar.
Por Sidnei Ferreira de Vares
Mestre e doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo – USP. Formou-se em História e Pedagogia. É autor do livro Reprodução e resitência na escola capitalista (Editora Multifoco, 2010). Atualmente dedica-se a estudar o pensamento pedagógico de Émile Durkheim. É professor universitário e assíduo frequentador dos cinemas de São Paulo.












