Ney Matogrosso Ao Vivo (1989) é um disco que não revoluciona, mas registra com magnetismo um artista em constante travessia. Gravado no Olympia, tradicional casa paulistana de resistência estética, o espetáculo aconteceu em março de 89, num Brasil em contagem regressiva para sua primeira escolha direta para a presidência da república (que aconteceria em novembro) após décadas de ditadura. E como não poderia deixar de ser, Ney Matogrosso escolhe este contexto para refletir sua própria transição artística, agora mais interessado em criar pontes entre mundos musicais que, até então, raramente se cruzavam com legitimidade estética.
Já estabelecido como uma figura de ruptura, em gênero, estética e repertório, Ney se aproxima da novíssima música urbana brasileira com curiosidade e coragem. Em meio a sintetizadores e batidas enxutas, surgem Comida, dos Titãs, e O Beco, dos Paralamas do Sucesso. Ambas revelam seu interesse por letras concisas e imagens de fácil aderência, ainda que nunca vulgares. Na primeira, o baixo preciso de Pedrão costura bem a tensão entre repetição e subtexto político; na segunda, a flauta de Lino suaviza os contornos da composição original, sem torná-la dócil. Ney não copia: metaboliza.
A estrutura sonora do álbum funciona como espelho da multiplicidade do artista. Com músicos experientes como Piska, Jorjão e Rui Motta, os arranjos oscilam entre o drama e o recolhimento. A mixagem, feita por Claudio Henrique “Espirro”, tem elegância ao preservar nuances ao vivo sem sacrificar a clareza. Cada camada instrumental é respeitada e cada silêncio tem peso de escolha estética. Tudo isso colabora para que a performance de Ney, vocalmente precisa e emocionalmente maleável, se afirme como centro da gravação.
Mas nem tudo soa orgânico. Andar com Fé, de Gilberto Gil, embora bem executada, parece deslocada na narrativa sonora do disco. Com harmonia previsível e letra de afirmação espiritual direta, ela interfere na coesão estética construída até ali. Já Metamorfose Ambulante, apesar de sua óbvia conexão simbólica com a figura pública de Ney, carece de frescor interpretativo: a condução vocal não me agrada, assim como não me agradou na versão de estúdio, no álbum Pecado (1977).
Por outro lado, há momentos em que o disco se ilumina por completo. Morena de Angola, por exemplo, ganha uma leitura vibrante e corporal: a percussão afro-brasileira é pulsante sem ser ruidosa, e Ney atravessa a melodia com sensualidade discreta. Alma Llanera, tradicional canção venezuelana, aparece como celebração continental: o joropo (gênero da canção, com algo de valsa, na segunda parte) é tratado com graciosidade harmônica e senso de lugar, reforçando o olhar latino e transnacional que permeia o repertório. Bandolero e Rumba Azul são excelentes, estando entre as 5 melhores faixas do disco, e ampliam esse flerte com outras paisagens musicais, sempre com cuidado na sonoridade e presença cênica.
Há também espaço para introspecções mais delicadas, como Oh! Lua e Viajante, conduzidas com economia de gestos e riqueza melódica. A primeira, com piano pontual e acordes suspensos, trabalha bem o vazio como recurso expressivo; a segunda, guiada por harmonia modal e letra intimista, se aproxima do Ney mais contido, quase contemplativo.
Mesmo com alguns momentos que parecem concessões simbólicas, em vez de escolhas estéticas legítimas para este projeto, Ney Matogrosso Ao Vivo (1989) conserva, ao longo da escuta, a elegância com que cantor acolhe múltiplas sonoridades, dando forma visual às suas canções e rearticulando seu lugar num Brasil cheio de redemoinhos culturais, políticos e sociais. É um disco que se abre mais quando escutado com o tempo: não o tempo cronológico, mas aquele outro, o tempo da escuta crítica, generosa, que reconhece que nem toda obra precisa ser marco para ser necessária, ou, no mínimo, muito boa de consumir.
Aumenta!: Alegria Carnaval
Diminui!: Metamorfose Ambulante
Ney Matogrosso Ao Vivo – 1989
Artista: Ney Matogrosso
País: Brasil
Lançamento: 1989
Gravadora: CBS (remasterizado em 2008 pela Universal / Mercury e reeditado posteriormente pela Columbia)
Estilo: MPB, Música Latina, Samba, Bossa-Nova, Choro
Duração: 49 min.
