Em 1991, Ney Matogrosso deixava para trás as luzes e adereços de seu projeto anterior, Ney Matogrosso Ao Vivo (1989), e optava por algo oposto: silêncio, contenção, escuta. O disco À Flor da Pele, lançado pela Som Livre, não traz apenas uma mudança estética, mas uma bomba emocional. Ao lado do genial Rafael Rabello, Ney reconstrói um repertório de pérolas da MPB num formato absolutamente despido: somente voz e violão. Não há arranjos orquestrais, não há camada sobre camada. Há só o essencial, e isso exige dos dois artistas um alto grau de entrega e precisão.
A presença de Rafael Rabello no disco é tudo, menos acidental. Aos 28 anos, o violonista já carregava uma técnica reconhecida, refinada e uma expressividade fora do comum; qualidades que tornavam seu instrumento capaz de sustentar, com autoridade própria, a densidade emocional de um projeto assinado por Ney Matogrosso. Ao longo dos 52 minutos do disco, Rabello “conversa” com a musicalidade densa do cantor. As cordas falam, respondem, complementam, contrariam, provocam. Há trechos em que sua condução harmônica funciona como respiro entre os versos; já em outros, ele antecipa emoções com passagens que parecem anunciar o sentimento da estrofe seguinte. É uma performance de altíssimo nível, e o violão deixa de ser apenas acompanhamento e assume papel de presença viva, quase um segundo narrador, que compartilha o mesmo fôlego emocional da voz.
O repertório passa pelos grandes mestres do cancioneiro brasileiro. De Tom Jobim e Vinícius, Ney toma Modinha como porta de entrada. Os versos, que falam de saudade e tempo, são cantados com suavidade, enquanto Rabello sustenta a melodia em inversões que ampliam a tensão da harmonia, quase sem que o ouvinte perceba. Seguem-se pérolas como Retrato em Branco e Preto, Molambo e Último Desejo, todas em leituras que evitam o drama exagerado, optando por uma melancolia elegante e contida. Mas há exceções: Tristeza do Jeca revela um pequeno tropeço, quando Ney, a meu ver, exagera na finalização de certas frases, com ornamentações vocais além do necessário, quebrando ligeiramente a limpeza que rege o disco. Não chega a comprometer, mas impede que a obra alcance o status de obra-prima, por exemplo.
É curioso notar como o disco se equilibra entre reverência e reinvenção. Em Da Cor do Pecado, Rabello imprime um ritmo de roda de choro com baixos alternados e dedilhadas rápidas, enquanto Ney suaviza a interpretação, quase como se contasse uma história entre amigos. O Mundo É Um Moinho ganha estrutura rítmica instável, com variações entre compassos que criam sensação de descompasso emocional, técnica que espelha perfeitamente o tema da letra. A cada canção, a dupla encontra meios de ampliar o sentido da composição original, sem jamais perder a essência.
Chegamos então à faixa mais potente do disco (minha favorita), e também a que mais se impõe em estrutura e sentimento: Autonomia. Ney assume a voz com firmeza, como quem conhece cada centímetro do terreno em que pisa. Cada palavra vem precisa, e Rabello responde com uma construção cheia de nuances discretas que sustentam e ampliam a poesia. O encontro entre os dois, nesse momento, é sublime, e o disco alcança sua força máxima.
O violão também ganha papel protagonista em peças como Prelúdio N° 3, de Villa-Lobos, onde Rabello traz encadeamentos refinados, que se entrelaçam com linhas profundas, explorando com nitidez as regiões graves e médias do instrumento. A interpretação não busca impacto virtuosístico, mas sim uma construção sonora que respira junto com a voz, sustentando a atmosfera solitária da peça com clareza e equilíbrio. Ney respeita o espaço da composição instrumental, deixando que a estrutura fale por si. Em canções como Três Apitos, Negue e Vereda Tropical, o duo retorna ao formato de “diálogo íntimo”, equilibrando técnicas para construir atmosferas que os arranjos originais talvez não tivessem previsto.
O encerramento com Balada do Louco, de Rita Lee e Arnaldo Baptista, revela uma faceta disfarçadamente sarcástica de Ney, que opta por uma leitura seca, sóbria, dando à ironia da letra um certo tom de timidez, como quem está nas sombras, prestes a atacar. Apesar de calmo, é um final provocativo, que reafirma o caráter elegante do álbum: mesmo quando assume tons excêntricos, o disco permanece firme em sua estética minimalista e refinada.
À Flor da Pele é, acima de tudo, uma obra de coragem. Ney Matogrosso se expõe e Rafael Rabello se entrega com naturalidade impressionante, um acompanhamento que transcende o papel de coadjuvante: ele constrói junto, define atmosferas, resolve ambiguidades. Apesar de não alcançar a perfeição absoluta — por conta de escolhas pontuais de interpretação — o disco permanece como um dos momentos mais requintados da carreira de Ney. Primoroso, íntimo, intenso. O tipo de registro que continua a comover e receber aplausos genuínos porque dá atenção ao que realmente importa e realiza isso com clareza, elegância e domínio absoluto da forma. Por isso, não envelhece e nem enjoa.
Aumenta!: Autonomia
Diminui!: —
À Flor da Pele
Artista: Ney Matogrosso & Rafael Rabello
País: Brasil
Lançamento: 1991
Gravadora: Som Livre
Estilo: MPB
Duração: 52 min.
