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Crítica | 007 Contra o Foguete da Morte

por Luiz Santiago
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Para qualquer pessoa que não tenha grande familiaridade com o mundo de James Bond, não é uma boa ideia começar por 007 Contra o Foguete da Morte (1979).

Dirigido por Lewis Gilbert, que também estivera à frente de Com 007 Só Se Vive Duas Vezes (1967) e 007 – O Espião Que me Amava (1977), Moonraker é a adaptação da obra homônima de Ian Fleming, cuja história reflete os temores da corrida espacial, além de trazer à tona a questão da eugenia junto aos planos mirabolantes de um vilão que imaginava algo pouco ortodoxo para o futuro da humanidade.

Roger Moore volta pela quarta vez ao papel de James Bond, e embora sua atuação siga à risca o modelo do agente que ele encarnou em sua era (como bem definiu o meu colega Ritter Fan, “um tanto palhaço”), as situações-problema e o roteiro nada genial do filme acabam por deixar a história com pontas soltas por todos os lados e não ajudam muito a melhorar as coisas. Nem um 007 com umas gracinhas a mais e os famosos cool gadgets a que tem acesso ou as belas mulheres a quem também tem acesso, salvam a película da linha tênue entre o mediano e o ruim.

Particularmente desconheço a matriz do filme, logo, se a trama foi transposta para a tela de maneira idêntica à do livro, permanecem as minhas críticas ao roteirista Christopher Wood, que deveria entender que há coisas que funcionam muito bem em palavras mas não em imagem-movimento. A passagem de Bond por lugares como Veneza, Paris e Rio de Janeiro (com locações também em Foz do Iguaçu e no Amazonas) poderia passar muito bem sem o arroubo sci-fi (ou “Efeito Star Wars”) que marca a reta final da fita.

Embora a investigação apresentasse um problema ligado à tecnologia espacial (tendo como pontapé inicial o desaparecimento da Moonraker), não havia necessidade alguma de uma batalha espacial ou mesmo uma viagem para fora da órbita terrestre, opção de guinou o roteiro para um outro patamar, o da trama perdida em sua proposta. Como os acontecimentos se afunilam para o encontro e confronto final entre Bond e o vilão Hugo Drax (poderíamos até contar a vilania de Jaws, mas os acontecimentos ao final da obra nos permitem fazer o contrário), os elementos constituintes da história parecem imediatistas e até forçados, porque não estão presentes como pontos orgânicos mas sim como chamariz ou encanto de público, cuja importância para o filme não ultrapassa o espetáculo. Postos como trampolim geral para as situações essenciais, tais elementos se perdem, e para um espectador mais atento, a expressão “mal desenvolvimento de roteiro e direção fraca” aparece como legenda permanente.

Roger Moore, que não teve lá um bom roteiro para trabalhar, também não contribui muito para tornar o filme melhor. Sua presença não é insuportável, mas ele não eleva o filme e não impressiona o espectador. É importante ressaltar que Lewis Gilbert é corresponsável por essa persona irônico-cômico-blasé de Moore, seja pelas situações que exigem caretas horrendas do ator, a exemplo da simulação de voo na primeira parte do filme; seja pela sua planificação e coreografias de luta. Além disso, é importante questionarmos o porquê de coisas como os cães na casa de Hugo Drax, na primeira visita de Bond; a sequência de caça, a batalha no espaço e a trajetória instável da Dra. Holly Goodhead.

É certo que não é o apuro estético que salva a produção do filme, mas a sua manufatura, especialmente a grandiosidade. Acabamos capturados pelas tomadas dos espaços geográficos visitados por Bond, por alguns momentos da montagem e pelo destaque mais presente de dois setores técnicos: figurino e direção de arte. Aqui, é importante ressaltarmos que há alguns erros na representação cultural (e até geográfica) do Brasil, mas isso é algo muito comum nas pesquisas de produção cinematográfica, que geralmente se baseiam em estereótipos e outras confusões presentes em retratos de povos latinos.

Por fim, e não menos importante, temos o excelente John Barry na composição da trilha sonora original. O erro da direção foi a má escolha para alguns momentos da música, tanto a original quanto a incidental, que conta com peças de Chopin, Tchaikovsky e Johann Straub. Outro destaque de John Barry é a música tema do filme, Moonraker, com letra de Hal David e notável interpretação de Shirley Bassey.

Mesmo com todos os erros, 007 Contra o Foguete da Morte conseguiu uma enorme popularidade. Pessoalmente não entendo o afã de muitos cinéfilos para com esse filme. Mas este é um daqueles mistérios da Sétima Arte que temos aos montes por aí e que não sabemos explicar.

007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker, UK, 1979)
Direção: Lewis Gilbert
Roteiro: Christopher Wood
Elenco: Roger Moore, Lois Chiles, Michael Lonsdale, Richard Kiel, Corinne Cléry, Bernard Lee, Geoffrey Keen, Desmond Llewelyn, Lois Maxwell, Toshirô Suga, Emily Bolton, Blanche Ravalec, Irka Bochenko, Mike Marshall, Leila Shenna
Duração: 126 min.

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6 comentários

Isaura Luiza Paramysio 9 de agosto de 2019 - 20:26

Este filme é EXCELENTE, sério mesmo, excelente, até as “cataratas do Amazonas”, daí pra frente o filme põe tudo a perder. Não reclamo dos erros geográficos porque convenhamos que a franquia não é a mais apurada em representar países que fogem da “Europa e EUA”, vide “Só se vive duas vezes” com japoneses usando quimono como se fossem roupas do dia a dia, e como não falaram que aquelas eram as “Cataratas do Iguaçu” dou o vale de “licença poética” de ter “cataratas no Amazonas”, e apesar do escorregão o filme ia perfeito até aí, eis que começa a “homenagem” à 2001 uma Odisséia no Espaço, mas aí o roteiro que ia bem se perde totalmente, o clima “sério” – se bem que a franquia 007 até então não se pode dizer que é a coisa mais séria do mundo pois sempre teve os dois pés na fantasia – descamba na galhofa involuntária que não víamos desde o Dr. No. Um filme que começou com a maravilhosa sequencia de ação do “salto do avião sem paraquedas” passa a ter cenas de ação do nível de um filme dos Trapalhões.
Recomendo ver este filme até a cena da cachoeira e aí desligar e escrever uma fanfic e pular o próximo.
E não, não tenho nada contra Roger Moore, e digo que ele me chega até a ser mais agradável que Sean Connery, que é bem melhor aliás, justamente por Moore não ter tantos os contornos misóginos do Bond de Connery.

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Rodrigo Escobar 19 de março de 2019 - 14:28

Considero que o sucesso desse filme se deve ao fato dele encarnar perfeitamente o ar “super heroico” que ganhou James Bond, sendo um daqueles filmes em que não se leva nada a sério! É um filme no qual você tem que assistir esquecendo completamente a realidade e se deleitar com a ação completamente absurda! De fato, existem muitos absurdos, ao mesmo tempo em que a ação (constante nesse filme) pode se revelar divertidíssima. Afinal, Bond já começa lutando no meio do céu pra tentar roubar um paraqueda de um capanga e garantir sua sobrevivencia, tem lutas em museus destruindo peças valiosíssimas, briga no bondinho com direito à piadas infames e o final quase Star Wars! Isso sem contar os gadgets sensacionais de Q, referencias à Contatos Imediatos de Terceiro Grau… Se trata de uma obra e tanto da época que pouco prezava pela seriedade e mais se importava com o entretenimento constante (que sem dúvidas o filme oferece). Veja por esse ângulo que notará que o filme tem sim seu valor e pode ser digno de admiração, sendo muito mais valido que muitas obras de ação “sérias”. Obviamente não é dos melhores da serie Bond, mas como todo filme de Bond, acredito ter seu valor (confesso, não desgosto de nenhum filme da serie kkk).

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Luiz Santiago 19 de março de 2019 - 16:05

Sim, sim, é um fato que a concepção da obra tem esse critério mais absurdo e é evidente que o filme tem seu valor. Não o acho um filme ruim, mas um filme medíocre, justamente por não fazer bem aquilo que se propõe, por mais absurdo que seja… A construção, os diálogos, a base do Universo, pelo menos para mim, não passou da linha mediana. E ainda acho que é um dos filmes da série que mais envelheceram mal, viu…

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Heleno Junior 5 de novembro de 2014 - 16:46

O filme teve seus erros e acertos,Os fãs não curtem muito esse título,mas a produção em si teve seus méritos:o roteiro,embora exagerado e com as falhas destacadas,tem uma sucessão de momentos antológicos,como a cena de abertura,famosíssima,o retorno de um dos maiores capangas de vilões,senão o maior de todos(maior mesmo),o carismático e querido Jaws,que tanto roubara a cena no filme anterior,o clássico encontro entre Bond e Jaws no Pão de Açúcar,além de uma sequência de cenas de ação,o ritmo do filme é ininterrupto.Os efeitos são ótimos,com destaque pras cenas no espaço.A cenografia é irrepreensível,como sempre,tal qual as locações.A música-tema é linda.Moore continua carismático,apesar dos cacoetes e caras e bocas de sempre,fora a canastrice.Na época,foi o filme de maior orçamento da série,pouco mais de 30 milhões.E também o de maior arrecadação.Não foi perfeito,mas continua nostálgico,divertido e digo até,melhor que muitos filmecos dos dias atuais

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Luiz Santiago 5 de novembro de 2014 - 18:17

Em comparação a alguns filmecos atuais, como você mesmo destacou, ele realmente se coloca na frente. Mas você gostou bem mais da obra do que eu! hehehehehe

Nós temos um Especial inteiro sobre a saga de James Bond aqui no site, vou deixar o link para você visitar: https://www.planocritico.com/especial-007-50-anos-do-espiao-mais-famoso-do-cinema/

Abraços.

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Heleno Junior 8 de novembro de 2014 - 13:59

Na medida do possível estou acompanhando.Um abraço.

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