Home FilmesCríticas Crítica | 007 – Sem Tempo Para Morrer

Crítica | 007 – Sem Tempo Para Morrer

por Ritter Fan
7.935 views (a partir de agosto de 2020)

É apenas um número.
– Bond, James

Apesar de não ter sido o ator que mais filmes da franquia 007 fez, Daniel Craig é o que mais tempo “ficou no papel”, nada menos do que quinze anos desde o lançamento de Cassino Royale, em 2006, o primeiro reboot completo da franquia que passou a abordar James Bond desde o momento em que ganha sua licença “00” para matar. E o 25º filme da série, 5º e último de Craig, tem o espírito de uma bela despedida por esse tempo todo do ator que ajudou a reinventar o personagem para as telonas e é nesse espírito que ele precisa ser encarado, especialmente considerando o tempo que se passou entre filmes – empate com a transição da Era Timothy Dalton para a Era Pierce Brosnan – e o fato de que essa pentalogia pode ser encarada como uma longa história com começo, meio e fim que, sob diversos aspectos, humaniza seu protagonista, sem, porém, deixar de caracterizá-lo como um durão invencível.

E talvez por essa característica de “fim de festa”, Sem Tempo Para Morrer acabe tendo um pouco de tudo, o que é bom e ao mesmo tempo ruim. O lado positivo, claro, é justamente oferecer um buffet para todos os gostos. Há a manutenção da história do James Bond mais frágil e sentimental que tenta viver sua vida fora do MI-6 e ao lado de Madeleine Swann (Léa Seydoux), introduzida em 007 Contra Spectre, que, claro, lembra a estrutura do terço final de Cassino Royale; há a introdução de Lyutsifer Safin (Rami Malek), típico super vilão bondiano com rosto deformado, repleto de maneirismos e planos mirabolantes pessoais e não tão pessoais assim, como uma versão menos desenvolvida e menos inspirada de Raoul Silva, de 007 – Operação Skyfall; há o artifício da superarma mortal usado em tantos e tantos filmes da franquia e, claro, há a sequência climática em local exótico como o Deserto do Atacama em Quantum of Solace, só que desta vez uma ilha no Oceano Pacífico perto do Japão.

O lado negativo é que nem tudo funciona bem. A tradicional sequência pré-credito é particularmente longa e interessante, além de ser dividida em dois momentos temporais, um para dar conta da bela e assustadora introdução de Safin e outra para lidar com a relação entre Bond e Swann na Itália, em mais uma tentativa de deixar o passado – leia-se Vesper Lynd – para trás. São muitos minutos diferentes para a franquia e bastante animadores que epilogam Spectre e que permitem, então, um salto temporal de cinco anos para um Bond aposentado e vivendo na Jamaica que é recrutado por seu amigo Felix Leiter (Jeffrey Wright) para localizar e sequestrar o cobiçado cientista russo Valdo Obruchev (David Dencik), peça chave para a manipulação de uma mortal arma secreta britânica patrocinada na encolha por M (Ralph Fiennes), o que o faz enfrentar Nomi (Lashana Lynch), a nova agente 007, que tem o mesmo objetivo.

É a partir dessa sequência de ação em Cuba, com Bond fazendo infelizmente brevíssima parceria com a estonteante Paloma (Ana de Armas), que o roteiro escrito por gente demais começa a mostrar as “costuras”. Justamente no espírito de trazer um fechamento para uma história macro que começou lá atrás em Cassino Royale é que o longa vai desperdiçando personagens como Paloma e perdendo a oportunidade de explorar a nova 007 como um contraponto interessante, o que acaba convertendo-a em uma sidekick de Bond que aparentemente tem como única função deixar bem claro – diversas e diversas vezes – que “007” é apenas um número. Até mesmo M parece um pouco perdido na história na medida em que ela passa a focar cada vez mais no plano não-tão-maquiavélico-assim de Safin que, como o Blofeld de Christoph Waltz no longa anterior, promete muito, tem até uma entrada triunfal, somente para ser mais outro doido varrido traumatizado padrão, ainda que seja muito claramente inspirado – assim como seu QG – no Satânico Dr. No, em uma boa homenagem.

Mas eu sei que, mesmo considerando a Era Daniel Craig, mais brutal e realista, as características clássicas de James Bond não poderiam ficar de fora e a mistura entre o clássico e o novo que Cary Joji Fukunaga, o primeiro diretor não-britânico da franquia, tenta fazer em Sem Tempo Para Morrer funciona mais do que não funciona. Na verdade, diria que, como um fechamento de uma jornada pessoal deste James Bond em particular, o desfecho é digníssimo justamente por fazer de tudo para não se esquecer de nenhum elemento que informou a pentalogia Craig. Até mesmo a ação ganha relativo comedimento, abrindo espaço para uma preocupação maior com um Bond torturado por seu passado, louco por vingança e remorso e por diversas vezes dividido sobre que caminho trilhar. Não há o mesmo senso de gravidade ou mesmo a elegância de Operação Skyfall, assim como não há as perseguições e pancadarias inspiradas de Cassino Royale, mas o diretor consegue extrair força e tragédia de seu protagonista e de seus esforços para dar sentido ao que vai ocorrendo, ao mesmo tempo em que ele consegue criar um encerramento que faz sentido para essa enorme e ambiciosa história que começou pelas mãos de seu colega Martin Campbell, responsável por começar duas “eras” de 007.

Sem Tempo Para Morrer usa bem cada minuto de sua longa duração para se aprofundar na história pessoal de James Bond e criar as circunstâncias – que sim, são espalhafatosas e sim, são construídas em cima de diversos clichês da franquia – para levar o personagem a um passeio pelo mundo que se torna cada vez mais urgente e cada vez mais próximo de seu coração (e dos nossos!), seja por suas perdas, seja pelo que é obrigado a fazer, mas jamais traindo a essência do que Daniel Craig vem construindo com James Bond desde 2006. Só o tempo dirá, mas talvez este Bond loiro, de olhos azuis, fortão, violento, mas sentimental até não poder mais, seja a versão definitiva e inimitável de um longevo e querido personagem. Que venha a próxima era!

007 – Sem Tempo Para Morrer (No Time to Die – Reino Unido/EUA, 2021)
Direção: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge
Elenco: Daniel Craig, Rami Malek, Léa Seydoux, Lashana Lynch, Ben Whishaw, Naomie Harris, Jeffrey Wright, Christoph Waltz, Ralph Fiennes, Billy Magnussen, Ana de Armas, David Dencik, Rory Kinnear, Dali Benssalah, Lisa-Dorah Sonnet
Duração: 163 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais