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Crítica | 101 Dálmatas II: A Aventura de Patch em Londres

por Ritter Fan
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A Disney, por meio de sua divisão Disney Televison Animation, começou a estratégia de lançar continuações, prelúdios, mid-quels e spin-offs diretamente em vídeo de suas animações cinematográficas no já longínquo ano de 1994, com O Retorno de Jafar, sequência de Aladdin, de dois anos antes, inaugurando uma economicamente bem-sucedida, mas tecnicamente limitada linha editorial que continuou firme e forte até 2015. O resultado foi uma enxurrada de obras mais simples tanto visualmente quanto em substância que preencheram os “espaços” entre lançamentos e permitiram -juntamente com algumas séries de TV – o maior aproveitamento de clássicos, antes considerado um tabu na empresa.

Uma das poucas animações dessa categoria menor do conglomerado midiático que realmente merece destaque é, surpreendentemente, a continuação de 101 Dálmatas, que veio nada menos do que 41 anos depois do original e dois anos depois do fraco 102 Dálmatas, a sequência da apenas mediana versão live-action, provando que a franquia canina ainda tinha coisa boa a oferecer, bastando, apenas, cuidado com o roteiro, algo que Jim Kammerud e Brian Smith, em seu primeiro trabalho de escrita, mas segundo na cadeira de diretor, depois de A Pequena Sereia II: O Retorno para o Mar, certamente tiveram.

Tudo bem que a continuação tardia lida mais uma vez com o sequestro dos cachorrinhos por Cruella De Vil (Susanne Blakeslee), que saíra da prisão controlando sua compulsão por peles de dálmatas, mas a grande verdade é que essa trama serve a uma estrutura mais bem cuidada e estabelecida que contém duas tramas substancialmente paralelas. A primeira delas lida com Patch (Bobby Lockwood), sentindo-se apenas mais um filhotinho nada especial dentre tantos outros, sendo “esquecido” na mudança dos Dearlys para uma fazenda de forma que todos possam ter mais espaço e aproveitando a oportunidade para conhecer seu ídolo em Londres, o pastor alemão astro de TV Trovão, o Cão Maravilha (Barry Bostwick). A segunda é justamente Cruella tentando suprir sua obsessão com a arte do pintor Lars (Martin Short, em um ótimo trabalho), cujo portfólio resume-se a quadros com manchas pretas das mais variadas maneiras.

As duas histórias acabam convergindo com o resgate dos filhotes, obviamente, mas elas ganham desenvolvimentos próprios e muito interessantes, notadamente Patch tentando entender seu lugar no mundo ao fazer dupla pela cidade com o egoísta e ao mesmo tempo covarde Trovão que é vítima de um plano de seu fofo, mas sinistro sidekick, Relâmpago (Jason Alexander, uma escolha perfeita) que diz que seu personagem morrerá no próximo episódio da série somente para tomar seu lugar de destaque. Com isso, Trovão, que não sabe fazer absolutamente nada sem comandos ou planos pré-estabelecidos, usa o conhecimento enciclopédico de Patch sobre sua própria série para tentar chamar atenção da imprensa para, com isso, reverter seu “fim” televisivo, criando uma dupla não só muito simpática, como extremamente divertida que permite foco em apenas um dos pequenos dálmatas, algo que, por razões óbvias, foi impossível no longa dos anos 60.

Cruella tem uma presença mais discreta, por assim, dizer, mas não menos engraçada, ao deixar Lars exasperado ao pintar quadros atrás de quadros que não a satisfazem completamente, forçando-a sequestrar os filhotes, cuja nova residência ela descobre a partir de uma fotografia de Patch no jornal, para que eles servissem de “inspiração”, em uma trama que é razoavelmente corrida, mas que funciona como elemento subsidiário e mais familiar da animação. É, aliás, gratificante que a dupla criativa tenha tido a coragem de focar a história em Patch, fazendo um belo esforço para não simplesmente repetir o que veio antes, ainda que a resolução do sequestro acompanhe os passos originais, inclusive, claro, com uma versão exclusivamente citadina da “latição crepuscular”.

E o melhor é que o cuidado com a animação vai além da direção e do roteiro, com o trabalho técnico fazendo de tudo para emular, ainda que de maneira mais simplificada, os traços clássicos do longa original, jamais recorrendo a reinvenções, desenhos 3D ou muito menos computação gráfica visível, inclusive localizando a continuação temporalmente nos anos 60 para tornar possível vermos Patch e seus irmãos e irmãs ainda pequenos. Para todos os efeitos, o filme funciona mesmo como uma continuação direta do clássico, com uma história própria que realmente acrescenta à franquia, inclusive com canções e trilha sonora especialmente compostas para ele.

Sem dúvida alguma que 101 Dálmatas II: A Aventura de Patch em Londres é a exceção que existe para confirmar a regra, mas que bom que o despretensioso filme existe e que bom que Kammerud e Smith tenham demonstrado tanto carinho pelos cachorrinhos manchados, usando o orçamento reduzido para criar algo de real valor e não apenas mais um exemplar descartável feito para tirar o leite de obra anterior, como foram os dois live-actions com Glenn Close. Uma bela surpresa canina que merece ser conferida.

101 Dálmatas II: A Aventura de Patch em Londres (101 Dalmatians II: Patch’s London Adventure – EUA, 2002)
Direção: Jim Kammerud, Brian Smith
Roteiro: Jim Kammerud, Brian Smith (baseado em personagens criados por Dodie Smith)
Elenco: Bobby Lockwood, Barry Bostwick, Jason Alexander, Martin Short, Susanne Blakeslee, Jeff Bennett, Maurice LaMarche, Samuel West, Kath Soucie, Tim Bentinck, Jodi Benson, Mary MacLeod
Duração: 74 min.

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