Crítica | 101 Dálmatas

“Meu único verdadeiro amor, querida. Eu vivo por casacos de pele. Eu venero casacos de pele. Afinal, existe alguma mulher nesse mundo miserável que não?”

Os animais são, muito provavelmente, os melhores protagonistas que Walt Disney já encontrou para os seus filmes. Desde Dumbo, nos primórdios da investida em longa-metragem da empresa, até o mais recente Zootopia, eles permanecerem pelas décadas do estúdio de animação sendo parte de alguns dos trabalhos mais inventivos já realizados por tal, todos com suas formas especiais, diferenças incontestáveis. Os cachorros, acima de tudo, também são parte dessa brincadeira, ao passo que, não muito tempo antes de 101 Dálmatas, A Dama e o Vagabundo já havia sido apresentado ao mundo; uma belíssima história de amor. Dessa vez, a nossa conexão com os melhores amigos do homem não é baseada totalmente no viés romântico, da paixão entre uma cadela e um cachorro, mas na relação existente entre animal de estimação e dono e, além disso, do cuidado e preocupação que pais têm por seus filhos. O amor continua no ar, visto que Pongo (Rod Taylor), protagonista do longa-metragem, na busca por uma parceira para o seu “dono”, acaba encontrando uma para si mesmo. Todavia, a história, adaptação do romance infantil homônimo, escrito por Dodie Smith, ganha uma forma mais concreta quando Prenda (Cate Bauer) dá luz a 15 filhotes de dálmatas. Os humanos se casaram, os protagonistas agora têm lindas companhias para essa aventura que é a vida. Mas ainda faltam 84 dálmatas, não é verdade? Parece que a história desses cachorrinhos está muito longe de terminar.

O demônio em pessoa surge, antagonizando não apenas os cachorros, como qualquer pessoa com o mínimo de bondade humana. Cruella De Vil (Betty Lou Gerson) não é apenas uma pessoa ruim – um elogio. Cruella De Vil planeja utilizar a pele de dálmatas bonitinhos para produzir roupas extravagantes. Os dálmatas são filhotes, portanto, não há como ser pior. Os animadores acertam em cheio no design da personagem, criando distorções em seu corpo e provocando uma sensação no espectador de que a vilã não é humana, mas uma deformação esquelética quase animalesca, com olhos saltados e bochechas inexistentes, dando lugar a uma ossada que se sobressai. Não é por menos que a personagem está muito mais “completa” ao vestir os seus casacos de pele. A performance de voz feita por Betty Lou Gerson é marcante, absorvendo uma histeria constante em seu trabalho; uma personagem nunca satisfeita com a situação presente, esperneando a todo momento ou tratando, com deboche, aqueles que ela considera inferiores, ou seja, todos. A animação em si, mesmo barata, é singular, apresentando traços certamente distintos. Uma considerável, mas não completa, ausência de contornos definidos nos cenários é percebida, em prol da criação de mais detalhes visuais, visto que muitas composições se mesclam. Os itens em cena parecem fazer parte de um mesmo conjunto, como em uma desenho feito à mão, mas com uma complexidade estética significativa, dando um apuro próprio ao filme.

Quando falamos dos protagonistas, temos um outro aspecto muito interessante do trabalho de animação: a correspondência dos cachorros aos seus donos. Assim como todos os outros, Pongo e Roger (Ben Wright), dono e animal de estimação – e vice-versa, são, na própria concepção de seus corpos, parecidos entre si. As vozes, embora sejam de atores diferentes, também são similares, sendo que o trabalho de Taylor, especialmente, é muito bom. Mais de uma vez os animadores irão examinar esse aspecto, criando diferentes quadros em que os personagens estarão fazendo exatamente a mesma coisa. O exercício de aproximação, de certa forma, abre 101 Dálmatas, ao trazer um voice-over que, em um primeiro plano, parece ser de Roger, mas revela-se ser de Pongo, criando-se humor pela completa quebra de expectativa. Ao se observar a veia cômica de 101 Dálmatas percebemos ainda mais distinções entre essa produção e outras do estúdio. A música continua se fazendo presente, mas em uma escala completamente diferente, notando-se na canção Cruella De Vil, que tem um papel grande no filme, criada sobre a antagonista principal, mais traiçoeira que uma cascavel, e se apresentando diegeticamente no longa, nem mesmo em uma sequência musical aleatória, mas dentro do escopo criado sobre o personagem de Roger, que é músico e, por boa parte da obra, cantarola uma melodia – parte de uma trilha à base de jazz – que viria a se tornar essa homenagem – parte de um ritual satânico para certas pessoas.

Apesar de começar excepcionalmente bem, com um ritmo particular muito agradável, 101 Dálmatas é um filme menos espirituoso em seu final, visto que a conclusão é, proporcionalmente, muito maior do que deveria ser, esticada, causando a sensação de repetitividade, um anseio por uma mudança de “cenário”. Após os filhotinhos serem raptados, permanecemos até as últimas consequências da exibição acompanhando os cachorros – e gatos – à procura deles, depois de Pongo buscar assistência. O que acontece é que, dessa forma, o roteiro não cria mais nada de novo e permanece esticando uma mesma situação, enquanto os espectadores já sabem, de certa forma, o que irá acontecer e estão a espera de que isso aconteça. Neste segmento, porém, dos coadjuvantes hilários – referencia-se aqui Nana, interpretada por Martha Wentworth, e que nos conquista também pelo seu carisma e carinho -, a dupla de capangas, sob ordens de Cruella De Vil, ganham espaço para redefinir o adjetivo imbecil. Os personagens mantêm-se dentro da narrativa, mas exatamente essa redundância na perseguição final, também pouco adicionando à personagem de Cruella, que nos faz cansar de tanta estupidez, visto que o recurso é utilizado inúmeras vezes. De qualquer forma, 101 Dálmatas permanece sendo um clássico cheio de pequenas características que o torna divertidíssimo e encantador, um dos maiores consensos do estúdio, visto que estamos diante de uma fórmula simples, mas de um esmero intenso e mágico.

101 Dálmatas (One Hundred and One Dalmatians) – EUA, 1961
Direção: Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wolfgang Reitherman
Roteiro: Bill Peet
Elenco: Rod Taylor, Cate Bauer, Betty Lou Gerson, Ben Wright, Lisa Davis, Martha Wentworth, J. Pat O’Malley, Frederick Worlock, Thurl Ravenscroft, Tom Conway
Duração: 79 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.