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Crítica | 102 Dálmatas (2000)

por Ritter Fan
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Apesar de redundante e não mais do que mediano, a versão live-action de 101 Dálmatas foi um sucesso de bilheteria, ficando em nada menos do que em 6º lugar em 1996, algo que, em Hollywood, significa, necessariamente que uma continuação não tardará. E, mesmo tendo demorado um pouquinho mais do que os usuais três anos de intervalo, eis que a Disney providenciou 102 Dálmatas que traz de volta a vilã Cruella de Vil de Glenn Close, e seu mordomo e faz-tudo Alonzo, de Tim McInnerny, os únicos atores do elenco original a voltarem.

Afinal de contas, se pensarmos bem, não só os demais personagens humanos e animais originais poderiam ser facilmente trocados. O que realmente não dava era não trazer de volta a Cruella incorporada por Close que foi, para todos os efeitos, o grande atrativo do primeiro longa, o que lhe valeu até uma inexplicável indicação a Melhor Atriz no Globo de Ouro, com a presença de McInnerny sendo apenas um bônus simpático. E o segundo longa faz de tudo para manter Cruella nos holofotes, libertando a vilã do sanatório três anos depois de seu encarceramento, agora curada pelo Dr. Pavlov (David Horovitch) e amante de animais em geral e cachorros em particular, além de uma resoluta ativista anti-peles que, como parte de seu processo de recuperação, usa sua fortuna para reabilitar o abrigo de cachorros Segunda Chance, capitaneado por Kevin Shepherd (Ioan Gruffudd) que, por sua vez, não demora a enamorar-se por Chloe Simon (Alice Evans), oficial de condicional de Cruella e dona de um casal de dálmatas, um deles Dipstick, filho de Pongo e Perdita, que acabou de ter uma ninhada de três filhotes, um deles, Oddball, uma fêmea sem manchas pretas.

Mas esse vislumbre de uma débil tentativa de se fazer algo minimamente diferente desaparece em 30 minutos, com o roteiro fazendo Cruella reverter à sua antiga personalidade e, mais uma vez, claro, providenciando o sequestro de 102 dálmatas (o 102º é “justificado” porque ela quer um capuz no vestido original do primeiro filme) com a ajuda de Alonzo e do designer francês também amante de peles Jean-Pierre Le Pelt (Gérard Depardieu). Ou seja, é mais do mesmo em cima de uma obra original que era, ela mesma, mais do mesmo e com o agravante de que a novidade de se usar animais reais para viver os personagens caninos não mais existe e que as adições humanas, o casal Shepherd e Evans, conseguem ser tão completamente sem graça que dá até pena, com o personagem de Depardieu não tendo absolutamente função alguma que não seja permitir o uso de mais figurinos extravagantes, só que dessa vez completamente bregas na vã tentativa de fazer graça.

Até mesmo Oddball, em tese o diferencial canino por não ter manchas, revela-se como algo forçado por um roteiro que não consegue desvencilhar-se dos artifícios-padrão do primeiro longa, praticamente repetindo passo-a-passo os acontecimentos anteriores, mas agora estupidamente tornados ainda mais mastigados pela presença de Waddlesworth  (Eric Idle), a falante arara de Shepherd que acha que é um rotweiller (piada que surpreendentemente perde a graça logo depois da 50ª vez que é contada), que acaba tendo a função de tradutora dos pensamentos da cachorrada. Uma das mais bacanas características do primeiro filme, que é manter os animais sem voz, é jogada no ralo na continuação em prol de humor repetitivo e de um voice over supostamente orgânico para quem não conseguir entender a “trama”.

Se a atuação de Close no primeiro filme, apesar de muito elogiada por aí, não passa de uma versão atual e em preto e branco da Bruxa Má do Oeste, aqui é a mesma coisa só que com esteroides, com a atriz não só ganhando mais destaque ao ponto de tornar a presença dos cachorros apenas um mero detalhe, como também exagerando o que já era para lá de histriônico, em um performance que, só posso torcer, ela se envergonhe hoje em dia, mesmo considerando o cachê polpudo que certamente recebeu. Teria sido muito mais interessante, por exemplo, que Cruella tivesse se mantido curada, com apenas alguns retornos à sua persona original, tendo Le Pelt como o grande vilão e não como um personagem que não passa de um extra glorificado.

102 Dálmatas é o arquétipo da continuação hollywoodiana: um subproduto genérico, pouco inspirado e cansativo que amplifica os fogos de artifício do original para tentar capitalizar em cima de sucesso anterior. No final das contas, ele é apenas uma mancha completamente esquecível no currículo de Close em particular e da Disney em geral.

102 Dálmatas (102 Dalmatians – EUA/Reino Unido/França, 2000)
Direção: Kevin Lima
Roteiro: Kristen Buckley, Brian Regan, Bob Tzudiker, Noni White (baseado em romance de Dodie Smith)
Elenco: Glenn Close, Gérard Depardieu, Ioan Gruffudd, Alice Evans, Tim McInnerny, Eric Idle, Ben Crompton, Carol MacReady, Ian Richardson, David Horovitch, Kerry Shale, Ron Cook
Duração: 100 min.

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