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Crítica | 12 Monkeys – 1ª Temporada

por Luiz Santiago
93 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

12 Monkeys, série do canal Syfy que estreou em janeiro de 2015, tem uma base extremamente complexa, duas obras de ficção científica que fizeram escola e marcaram seus tempos, uma dando origem a outra e, juntas, despertando os produtores Terry Matalas e Travis Fickett (que já haviam trabalhado juntos como roteiristas em Nikita e Terra Nova) a entrarem de cabeça em um show que definitivamente não é para fracos, para impacientes e para pessoas que têm preguiça de pensar.

Baseada em La Jetée / A Pista (1962) e em Os 12 Macacos (1995), a série desponta como uma jornada de difícil digestão a princípio, podendo facilmente afastar espectadores apressados e que não estão muito interessados em ver o final da temporada para encontrar algum sentido em toda a saga. E devo dizer que estes espectadores estão cobertos de razão. Aliás, é esta a razão que faz com que esta primeira temporada de 12 Monkeys não seja uma aventura brilhante. Toda a primeira parte e suas cansativas repetições do mesmo motor dramático para dar em mais uma realidade distópica e objetivos frustrados acaba enjoando o espectador. Mas estamos nos avançando demais aqui. Tentemos do começo…

Era uma vez, James Cole. Interpretado pelo ator Aaron Stanford (o Pyro de X-Men 2 e O Confronto Final), ele é uma peça de suma importância para a salvação do mundo. O ano da trama é 2043, e o planeta Terra foi praticamente dizimado por um vírus. Poucas pessoas sobreviveram à praga, tornando-se imunes, todavia, a sociedade restante não se organizou de forma nem um pouco harmônica, mesmo sob essas circunstâncias “finais”. Cole e seu grande amigo José Ramse vão parar em um local onde estão fazendo testes para mandar as pessoas ao passado e tentar mudar, na origem dos acontecimentos, aquilo que futuramente iria acabar com a humanidade. Cortar o mal pela raiz, o vírus antes de ser liberado. Então as viagens no tempo começam e muitas linhas temporais se abrem. Muitas mesmo.

É muito importante que o espectador de 12 Monkeys tenha visto, se não as duas, pelo menos uma das obras que inspirou a série. Isso é importante para que não haja falsa expectativa e que se entenda aonde os produtores querem chegar. Ao conhecer o que veio antes, o público já sabe o que será de Cole no final (a não ser que a série mude isso, mas acho difícil), de modo que essa “surpresa” não é a grande coisa em pauta, mas sim o processo que o personagem faz até chegar àquela situação.

A equipe de roteiristas investiu em uma dinâmica procedimental em basicamente todo o início e miolo da temporada, com alguns episódios mais bem construídos que outros, uns ruins e outros bons, mas todos eles marcados pelas estranhíssimas idas e vindas que o público custa a se acostumar. A este problema sequencial, temos Aaron Stanford e Amanda Schull, Cole e Cassandra, que não mostram muita coisa no início e, a meu ver, passam quase a temporada inteira tentando entregar performances palatáveis, acertando o tom apenas nos três episódios finais. Claro que isso é um ponto a ser levado em conta, pois temos séries em que os atores jamais acertam o tom, em temporada alguma, mas o fato de estarmos em um drama de complicados paradoxos, encontros e desencontros através do tempo, fica difícil não cobrar ainda mais da dupla que encara a maior parte da narrativa.

A produção tem um bom resultado no uso de tecnologia e mostras das realidades visitadas. A direção de fotografia normalmente utiliza o azul e o verde para o futuro distópico (solidão e podridão) e destaque de cores neutras para o presente (2015, principalmente) onde boa parte das coisas acontecem. Em dado momento, o vermelho passa a ser uma cor que motivará um grupo misterioso, com uma Testemunha que fala, prevendo acontecimentos.

Após os primeiros contatos entre Cassandra e Cole, sabemos onde eles irão se encontrar e isso tira um pouco o gosto das surpresas, mas acaba funcionando a longo prazo. Os diretores e diretoras também imprimiram bom ritmo aos episódios, todos eles, com destaque para os que narram algumas versões do encontro do vírus ou a fuga de Cole de alguns problemas encontrados ao longo de sua jornada. Em todo esse tempo praticamente não há trilha sonora destacável e, mesmo quando ela tende a aparecer de maneira mais intensa, ao final, não combina muito com o episódio, parece um corpo estranho. Canções não se tornam um elemento muito bem vindo nesse Universo, apenas peças instrumentais, usadas com moderação.

Quando chegamos ao capítulo 11, Shonin, o melhor episódio da temporada, absolutamente tudo faz sentido e, a bem da verdade, é aí que a série começa. O espectador entende e até gosta da forma como a coisa foi construída, olhando a partir dessas informações preciosas o que já viu, mas a condução repetitiva de toda a série até aquele momento não é apagada e contribui para uma recepção mais fria de todo o ano.

Os roteiros ainda nos apresentam diversas realidades dentro de cada linha temporal, principalmente em 2015 e 2043. Essas linhas são interessantes porque trazem ameaças para cada uma das realidades, que se confrontam estando afastadas por 28 anos e espalham pelo tempo e pelas vidas de algumas pessoas desejos particulares e corporativos completamente diferentes. Esse tipo de enfrentamento me lembrou bastante as temporadas 3 e 4 de Continuum, com a diferença de que aqui temos planos de realidades querendo neutralizar-se a partir de um projeto monumental que, ao longo dos episódios, nos prova que não é algo tão bom assim. Claro que estamos falando de tecnologia de ponta e viagens temporais, mas a coisa toda não é simples, não se faz sem sacrifícios e há algumas importantes limitações, o que particularmente acho sábio, caso contrário, abriria as portas para ações que simplesmente acabariam com a graça da série em pouco tempo.

A partir de Shonin, a maioria das interações ficam claras e interessantes para nós. As atuações melhoram e alguns ótimos encontros começam a acontecer. Todavia, o fato de estarmos no final da temporada traz também o pequeno incômodo de novidades que só serão respondidas na fase seguinte. E isso é bom? Sim! Convenhamos que a forma como é colocado não se mostra tão maravilhosa, mas o seu resultado — neste final, já estamos lidando com improbabilidades e coisas não pré-programadas; fora do destino e do controle daqueles que testemunharam o tempo, acrescentando um pouquinho de enigma a um enredo já bem conhecido — finaliza a temporada com um estado das coisas que é impossível não animar a qualquer um para continuar acompanhando a série.

De uma grande empresa de biotecnologia, teorias da conspiração, exércitos organizados desde a infância de seus soldados, viagens no tempo, múltiplas linhas temporais e motivações escusas, 12 Monkeys conseguiu, a muito custo, um resultado positivo em sua temporada de estreia. Há muito ainda a ser conquistado, mas os produtores provaram que, mesmo tropeçando nas repetições, conseguem dar verdadeiro sentido a tudo o que fizeram e armam uma cama de gato através do tempo da qual nenhum de nós consegue sair. Parece coisa do destino.

12 Monkeys – 1ª Temporada (EUA, 2015)
Criadores: Terry Matalas, Travis Fickett (inspirado no roteiro de La Jetée, de Chris Marker e no roteiro de David Webb Peoples, de Os 12 Macacos).
Direção: Jeffrey Reiner, David Grossman, Michael Waxman, David Boyd, Alex Zakrzewski, John Badham, T.J. Scott, Magnus Martens, Mark Tonderai, Dennie Gordon
Roteiro: Terry Matalas, Travis Fickett, Natalie Chaidez,  Rebecca Kirsch, Richard Robbins, Christopher Monfette, Sean Tretta, Oliver Grigsby
Elenco: Aaron Stanford, Amanda Schull, Kirk Acevedo, Barbara Sukowa, Demore Barnes, Emily Hampshire, Andrew Gillies, Noah Bean, Tom Noonan, Todd Stashwick, Murray Furrow, Alisen Down
Duração: 43 min. (em média, cada episódio)

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