Crítica | 12 Monkeys – 2ª Temporada

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estrelas 4,5

O crescimento de qualidade em 12 Monkeys, de sua já boa primeira temporada para esta segunda, serviu como uma luva diante da complexidade máxima que os showrunners Terry Matalas e Travis Fickett projetaram para os viajantes e para as muitas (muitas mesmo!) viagens no tempo e paradoxos temporais aqui trabalhados. Em um comparativo rápido de identidades e semelhanças, a temporada inicial se ligava bastante ao filme de 1995, enquanto esta segunda temporada pende mais para o curta Le Jetée/A Pista, que foi a origem de tudo. É importante ressaltar que para criticar uma série desse tipo, fica quase impossível não dar spoilers, então, estão avisados que o texto a seguir trará detalhes bastante específicos da temporada passada e também desta temporada.

A saga mostrada em 2016 dá sequência aos eventos do episódio Arms of Mine (1X13), destacando de maneira bastante sintomática A Testemunha, personagem que será o ponto de fuga no complicado quadro de idas-e-vindas no tempo, cuja primeira grande crise tem suas sementes plantadas em Year of the Monkey (2X01). Alguns dos melhores destaques da 1ª Temporada, como a direção de arte, os figurinos e a direção de fotografia são percebidos já no início deste ano da série. A fotografia e a arte alcançam voos bem mais altos e propostas mais ousadas, visto que ao longo dos atuais 13 episódios teríamos estadias mais longas no passado (anos 50, principalmente). Em adição, percebemos um grande esforço do desenho de produção para contextualizar a década em todos os seus aspectos possíveis. O mesmo se vê nas passagens pelos anos 40, 60 e 70; nos episódios centrados em 2016 e 2044/45 ou nas breves sequências em 1917 (Jennifer em plena I Guerra Mundial, uma tragicomédia clássica!) e 2163 (MOTHER! MOTHER! MOTHER!), que mostram a qualidade da produção da série e a enorme atenção que a equipe deu aos detalhes estéticos.

Mesmo com uma audiência diminuindo de maneira perceptível, a emissora não deixou de investir, vide os efeitos especiais mais intricados e usados de maneira mais ampla nesta temporada, e o grande presente para todos nós, a renovação para um terceiro ano. Desfilam aqui temas humanistas e a reprodução, mesmo que em um “micro espaço”, de eventos históricos e geopolíticos de peso, como golpe hierárquico, extermínio de pessoas por divergências ideológicas, eugenia, messianismo, fanatismo ideológico (ou proto-religioso) e, em uma análise mais sociológica, a consequência do desprendimento dos personagens mediante suas raízes familiares, algo que os roteiros da temporada fazem questão de re-cultivar, primeiro em Ramse, depois em Katarina e, por fim, em Cole e Railly. Se antes, os dilemas morais nos eram colocados de forma mais genérica, como um “propósito de mundo”, agora eles estão ligados a pessoas amadas, pessoas que dão aos protagonistas um propósito maior e alguém para defender (até Deacon, meio deslocado no final da temporada passada, teve isso aqui, em sua paixão por Railly).

Em um enredo com o nível de deslocamento que esta série tem — afinal, a base de tudo é a viagem no tempo — impressiona demais a qualidade das relações pessoais construídas e as pistas deixadas ao longo dos capítulos (ou mesmo das temporadas, já que vimos coisas do ano anterior e deste ano). Existe uma dualidade entre bem e mal em cada episódio, mas nós entendemos, no final de tudo, que a série não pega essa visão binária das coisas e aplica às decisões tomadas pelos personagens. Ao contrário. Notem como há variações de respostas para o mesmo problema, cada um passando pelos critérios específicos de quem oferece a solução, e vejam como as missões para salvar o mundo ou salvar afetos se entrelaçam do meio da temporada para frente, denotando uma clara mudança de rumo do show em relação à sua fonte, momento em que tudo fica ainda melhor.

A identidade original da série foi gerada no momento em que o Exército dos 12 Macacos revelou-se apenas uma parte de algo muito maior. O elenco, mais uma vez, em grandes interpretações — Amanda Schull (Cass), de quem eu tinha ressalvas na temporada anterior, faz um ótimo trabalho este ano — é um dos responsáveis por isso, além da direção coesa que percebemos em todos os 13 episódios. Como este segundo ano foi basicamente das mulheres dominando todo o processo — Barbara Sukowa (Katarina) e Emily Hampshire (Jennifer) são os maiores destaques nesse time — fica plenamente fácil entender o por quê todo o processo termina com a apresentação de uma mãe, da qual todo o medo/esperança saiu e engajou o espaço de luta e tentativas de mudança da realidade. Aaron Stanford (Cole) continua sendo o maior destaque dentre os homens, embora Kirk Acevedo (Ramse) e Todd Stashwick (Deacon) o sigam de perto.

Não há nenhuma facilidade para o espectador de 12 Monkeys. É preciso ter muita atenção para não perder os detalhes ou confundir passado, presente e, agora, futuro. Como destaquei no início, as maiores semelhanças desse bloco final da série são com o curta La Jetée e se isso significa que, à parte o final, estamos nos aproximando de um esgotamento de tempo hábil para Cole. A série já provou que pode construir cosias novas e dar espaço, nesse mar de novidades, aos elementos mais importantes de suas fontes de inspiração. Esperamos que isso continue na 3ª Temporada, que de cara traz a grande pergunta sobre o que fazer, então, com A Testemunha e qual será o caminho de transição narrativa, agora que um outro tempo (o futuro do futuro) entrou no jogo. Se continuarem fazendo os nossos neurônios digladiarem-se ferozmente por uma resposta, não importando o que venha, já está bom demais.

12 Monkeys – 2ª Temporada (EUA, 2016)
Criadores: Terry Matalas, Travis Fickett (inspirado no roteiro de La Jetée, de Chris Marker e no roteiro de David Webb Peoples, de Os 12 Macacos).
Direção: David Grossman, Magnus Martens, David Grossman, Mairzee Almas, David Greene, Grant Harvey, Steven A. Adelson, Bill Eagles, Guy Norman Bee, Kevin Tancharoen
Roteiro: Terry Matalas, Travis Fickett, Sean Tretta, Michael Sussman, Richard Robbins, Kristen Reidel, Ian Sobel, Matt Morgan, Christopher Monfette, Oliver Grigsby
Elenco principal: Aaron Stanford, Amanda Schull, Kirk Acevedo, Barbara Sukowa, Demore Barnes, Emily Hampshire, Andrew Gillies, Noah Bean, Tom Noonan, Todd Stashwick, Murray Furrow, Alisen Down
Duração: 43 min. (em média, cada episódio)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.