Crítica | 13 Reasons Why – 3ª Temporada

“Eles estão unidos pelos seus segredos.”

Contém spoilers.

A expressão “de boas intenções o inferno está cheio” acompanha 13 Reasons Why desde a sua primeira temporada. Lá, o suicídio da jovem Hannah Baker era o protagonista de uma obra voltada basicamente à conscientização dos adolescentes – e que, em uma trágica ironia, despertaria a inexistência de uma consciência por parte dos próprios criadores da série, ao pensarem cenas desnecessariamente explícitas. Assim sendo, almejando o Céu, mas encontrando no máximo o Purgatório, continuou o seriado, sempre com um viés pedagógico primordial a sua estruturação, apesar da pífia execução. Chegando a uma terceira temporada, sem mais Hannah Baker e o seu suicídio como eixo dissertativo, os seus realizadores optam por descambar para todas as demais temáticas ainda não retratadas na série. Questões como masculinidade tóxica, imigração e até deportação entram na jogada, em um imenso malabarismo narrativo que apenas evidencia o desespero dos roteiristas em encaminhar os seus personagens a algum lugar. Ao mesmo tempo, porém, justamente pela sua pretensão, a série termina equivocando-se na execução de cada um dos seus elementos, que se perdem em meio a uma trama maior, excessiva e redundante. No grande drama juvenil do início do século XXI – como ousa a série, de certo modo, a ser -, cabe muito pouco espaço para sinceridade, no entanto, uma seriedade estafante e, pior, cafona. Com o assassinato de Bryce Walker (Justin Prentice), a investigação mais modorrenta do mundo começa.

Chega a ser uma loucura apontar isso, porém, várias outras séries que se direcionam a públicos adolescentes, as quais costumeiramente apresentam um texto propositalmente brega, conseguem ser bem mais genuínas que essa austeridade vazia. Logo, não custa muito para o público já odiar intensamente a personagem Ani Achola (Grace Saif), uma nova aluna do colégio Liberty High e que, por isso, nunca conheceu Hannah Baker. Pois, no decorrer dos treze episódios que compõem a temporada, a garota narrará o passado e porquês de cada um dos suspeitos, também pontuando constantemente um questionamento moral ou mesmo uma lição-moral gritante, que cansa pela repetitividade e pela gratuidade. Para ser sincero, nenhum policial ouviria o monólogo prolixo da menina – e que existe por razões ainda mais problemáticas do que a forma exagerada com que acontece. Cada um dos personagens da série, portanto, será um possível responsável pela morte de Bryce – até então o antagonista-mor do seriado -, em vista de mil e uma motivações a serem propostas e repropostas pela temporada. Quem mais sofre nesse processo contínuo, portanto, é a estudante nova, carregando uma extensa parte da carga de reincidências que perduram pela temporada. Os roteiristas entendem a pobre Ani, no caso, como um dispositivo narrativo, que intercala a recapitulação do passado – os meses antes da morte de Bryce Walker – com a então continuação dos eventos do presente – após a morte do garoto e a sua consequente investigação.

É que a série, por conta da sua aspiração a melodrama que mudará uma geração, não pode contar uma história de maneira cronológica, mas precisa ter uma estrutura mais espertinha, para mostrar o quão madura é a sua narrativa. Entretanto, reitera-se, não apenas na narração, toda a percepção quase onisciente que a jovem possui das dinâmicas ao seu redor. Quando se aproxima de Clay (Dylan Minnette), Ani já vem carregando muitos discursos prontos e pseudo-intelectuais, o que permanece para além do protagonista, mas igualmente com Jessica (Alisha Boe). O roteiro precisa expor por meio de palavras – ou seja, por meio de Ani – os arcos dos personagens, em vista de uma estruturação que não pensa em nada além da redundância. Pior que as dinâmicas percebidas por ela, contudo, também são as mesmas, nunca fugindo do ar misterioso e blasé que permeia a temporada inteira. Ninguém pode confiar em ninguém, mas se um roteirista competente trataria a paranoia em questão de alguma maneira instigante, a série em suma é um compilado de segredos infindos, que vão morrendo enquanto outros nascem, mesmo similares. Nem para os mistérios serem relevantes, no mais, porque cada besteirinha ganha enorme destaque. Desse modo, não é como se realmente existisse uma sagacidade na progressão de revelações, porém, um notório alongamento – querendo que a duração da temporada caiba nos treze episódios rotineiros – das tramas. Isso só serve para, a cada trinta minutos, Ani comentar que “todo mundo tem um segredo”.

Logo, a confusão e a repetição se estendem para tantos cenários que nem mesmo os pontos de maior interesse da temporada conseguem sobreviver ao cansaço generalizado que a consome. O personagem de Tyler (Devin Druid, em performance destacável), por exemplo, é um contraponto muito interessante ao de Bryce Walker. Ele é alguém que teve a possibilidade de mudar, por conta da presença de pessoas que o ajudou, como Clay. Nota-se na série, por isso, uma busca válida por se trazer empatia até aos seus personagens mais vis, como também acontece com Montgmorey de la Cruz (Timothy Granaderos). O papel maior para Brenda Song, que vive a mãe de Bryce, é outro sinal das tentativas do seriado, revestidas de boas intenções, em pontuar que os problemas sempre moram mais fundo de onde pensamos morar. Porém, a maioria mesmo dos personagens é sucateada por um roteiro imbuído de enormes coincidências e/ou contradições – a obrigação do envolvimento entre cada um deles e Bryce ser passível de um assassinato, ou a demora para o assunto de Ani ter tido um caso com o garoto virar pauta. O impacto de todos os seus segredos, assim, é minado pela péssima condução que antecede as várias revelações. O problema é que esses mistérios são, de modo desnecessário, enxergados como se fossem bem mais importantes do que realmente são. Por conseguinte, a vontade de ser grandiloquente da série é tão nociva que, quando as respostas são dadas, elas não são tão relevantes quanto este percurso sentimentalista.

Depois de mais treze episódios exageradamente longos, contornando narrativas cheias de vai-e-vens, parece que uma vida se viveu nessas três temporadas da série mais insuportável da década. Contudo, esses são apenas dois anos do cotidiano chato de Clay Jensen e dos demais alunos do colégio Liberty High – que enfim se aproxima, com o anúncio de uma quarta e última temporada, do seu encerramento. Entretanto, nem com a cafonice os realizadores da série conseguem se satisfazer, porque eles precisam ser contraditórios em vista de suas próprias morais. Ora, em uma temporada que condena o assassinato de Bryce e permite os espectadores compreenderem o arco a que o personagem estava se submetendo, os acontecimentos finais retratados são quase um atestado de mau-caratismo para cada um dos amigos de Clay. Monty é morto na cadeia e culpado, em um esquema montado pelo grupo protagonista, pela morte de Bryce, mesmo a turma sabendo que isso não era verdade. Dessa maneira, Alex Standall (Miles Heizer), o personagem com o pior intérprete da série, consegue se safar da cadeia, em um twist que rejeita o crime premeditado, mas ainda o condena, por conta da sua masculinidade frágil. E isso o seriado enxerga como sendo uma conclusão alegre para tudo vivido até então pela gangue – antes misteriosa, mas agora criminosa. Para uma série que tem um viés pedagógico quase obsceno, que quer jovens ajudando outros jovens a viveram a juventude, os seus responsáveis parece que cursaram Pedagogia lá no Inferno.

13 Reasons Why – 3ª Temporada — EUA, 2019
Criado por:
 Brian Yorkey
Direção: Michael Morris, Jessica Yu, Bronwen Hughes, Kevin Dowling, Aurora Guerrero, John T. Kretchmer
Roteiro: Brian Yorkey, Hayley Tyler, Thomas Higgins, Trevor Marti Smith, Mfoniso Udofia, Julia Bicknell, Felischa Marye, M. K. Malone, Allen MacDonald, Helen Shang, Rohit Kumar
Elenco: Dylan Minnette, Grace Saif, Christian Navarro, Alisha Boa, Brandon Flynn, Amy Hargreaves, Justin Prentice, Ross Butler, Devin Druid, Timothy Granaderos, Miles Heizer, Kate Walsh, Derek Luke, Brenda Strong, Anne Winters, Jake Webb
Duração: 13 episódios de aprox. 1h cada.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.