Crítica | 13ª Doutora: As Muitas Vidas de Doctor Who

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ATENÇÃO!: O nome dessa HQ é As Muitas Vidas de Doctor Who. Está mais do que claro que haverá um tsunami de referências à Série Clássica e à Nova Série, portanto, spoilers do programa são a matéria-prima dessa edição. Assim, também fica claro que a presente crítica jogará com as cartas que tem em mãos e comentará uma larga porção dessas referências. Fica, portanto, o aviso.

Depois da minissérie em três partes intitulada The Road to the Thirteenth Doctor, a Titan Comics resolveu faturar com mais um caça-níquel em quadrinhos colocando a 13ª Doutora em uma one-shot onde vemos passar, como um filme, as suas vidas anteriores. É aquele tipo de publicação que faz valer, com louvor a frase “se for caça-níquel, então que seja um bem feito“. E este The Thirteenth Doctor #0: The Many Lives of Doctor Who, lançado em 26 de setembro de 2018, realmente é bem feito. Na trama, encontramos os Doutores de 1 a 12 mais algumas cenas da 13ª Doutora, no momento de sua regeneração. Cada pequeno conto é ilustrado por um artista diferente (todas as artes são excelentes, combinando perfeitamente com os Doutores em cena) e as histórias funcionam em duas vertentes, a primeira, de maneira semi-isolada, porque narra uma aventura inédita de cada Doutor; e a segunda, de maneira cíclica, pois se liga às memórias de vida que passam na mente da nova Doutora.

Começamos com The Path of Skulls, com o 1º Doutor, Susan, Ian e Barbara, no entanto, partimos de uma citação de Goth ao Doutor, durante The War Games. O jogo é de ida ao passado e volta ao presente, começando nos primeiros segundos de regeneração do 12º Doutor, em Twice Upon a Time e encontrando-se com eventos do passado. O leitor mais atento percebe de cara que a one-shot irá tratar de apontamentos sobre regenerações, tendo como ponto de partida aventuras que mostram cenas de companheirismo, ação, coragem, relação com companions, encontro com mulheres importantes e reflexão sobre a própria vida do Doutor e o significado central de Doctor Who, uma série de renovações, mudanças, readaptações. O que mais me impressiona aqui é que o roteiro de Richard Dinnick (autor do belo conto A Star is Born) cria uma porção de relações humanas e conta até com a estranheza do Doutor, da Doutora, dos Times Lords e Ladies em geral, mas nunca como um padrão de rejeição e sim de adaptação ao diferente, o que é um elemento de toda espécie, compreensível e interessante de se ver em um quadrinho da série.

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Primeiras páginas de contos dos Doutores 1 a 4.

Card Conundrum, com o 2º Doutor, Ben, Polly e Jamie é o único conto que eu não gosto aqui, pois acho a história sem força ou mesmo sem um bom motivo de ligação com a regeneração para o novo corpo. Tirando a indicação da frase “a vida depende da mudança e renovação“, lá de The Power of the Daleks, pouco nos sobra de interessante nessa historinha. Para quem conhece o Universo Expandido da série e sabe dos meandros da Temporada 6B, a coisa funciona até um pouquinho melhor, porque entre o final dessa aventura com as cartas-inseto e a divertida Invasion of the Scorpion Men, com o 3º DoutorSarah Jane Smith, temos referências ao quadrinho The Night Walkers e, claro, à chegada do Doutor em novo corpo à Terra, local de seu exílio por um tempo considerável, iniciado em Spearhead from Space. É absolutamente prazeroso passar por tantas piadinhas da série, todas bem amarradas, colocadas a favor da trama e não apenas marcando o território de cada Doutor, mas também escancarando ligações entre o velho e o novo, de “fancy pants” em The Five Doctors à uma brincadeira séria e real com a Heather-Lagoa-da-Vida em The Doctor Falls.

Nos primeiros três Doutores, o texto evoca constantemente o drama de se adaptar, de primeiras mudanças e de saber relacionar-se, acompanhando muito bem a relação do Doutor consigo mesmo e com seus amigos, com sua neta, com a UNIT… A partir de Time Lady of Means, com o 4º Doutor e Romana II, começamos a ver uma notável diferença de tom, de complexidade mesmo. O Doutor começa a mostrar um fluxo de memória e de estratégia muito mais rebuscado e seu legado se encontra, constantemente, com sua situação do momento (ou seja, a regeneração). Nesse aspecto, vamos encontrar desde a citação de Nova York ter sido nomeada duas vezes (New Earth) até uma tiração de sarro bem legal do autor ao se referir às pessoas que ainda fazem tempestade em copo d’água com a contagem dos Doutores, Trenzalore e outros wibbly wobblys.

O momento mais significativo a respeito de regeneração com a questão de gênero envolvida aparece em Ophiuchus, com o 5º Doutor, Turlough, Nyssa e Tegan. É uma história ambientada em Gallifrey, o que já ganha pontos estras, e adiciona um excelente ponto de vista para algo que qualquer whovian que entende a série como um fluxo de mudanças já deve ter levado em consideração. Ao final, a frase “mudança, minha querida“, de The Caves of Androzani acaba tendo um grande impacto de significados nesse processo. Aventuras como Virtually Indestructible, com o 6º Doutor, Peri e Crossing the Rubicon, com o 7º Doutor e Ace reforçam essa ideia de que o tempo muda a mentalidade das pessoas e do próprio Doutor, como também o torna mais cioso de suas ações, mesmo quando está em crise ou quando uma regeneração vem mais impulsiva e mais aguerrida que outra.

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Primeiras páginas de contos dos Doutores 5 a 8.

Na trama do 7º Doutor (que claramente se passa depois de Survival) vemos o Mestre falar sobre o antigo apelido de seu amigo-inimigo, esperando que o Doutor utilizasse “Theta Sigma” como forma de apresenta-se a César (ligações sobre o passado em Gallifrey referidas em The Armageddon Factor e The Happiness Patrol). A gentileza é trocada — e esta é uma das coisas que mais me divertiram ao longo da leitura dessa HQ — e o Doutor diz que esperava que o Mestre tivesse utilizado o nome “Magister”,  como fizera em The Dæmons.

A temática da presença feminina volta em The Time Ball, com o 8º Doutor e Josie, mas não de uma maneira óbvia. Nesse momento da HQ, percebemos o peso da Guerra que se aproxima e da maturidade do Doutor frente a um inimigo. É uma das linhas de ação mais gostosas de toda a one-shot. Ao lado do Doutor, Josie aprende e ensina, e ainda traz à tona o tal ovo de Epsilon Eridani, para onde o Time Lord ficou de levá-la no final de Uma Questão de Vida e Morte.

Por mais peso que tenhamos na crônica do War Doctor (The Whole Thing’s Bananas), notamos o baita esforço de Richard Dinnick para acrescentar um clima de vitória. A história se passa nos últimos meses da Time War e vemos o Doutor utilizar um “bomba molecular de fruta” para destruir as fábricas de Villengard, algo sobre o qual ele falaria a respeito em The Doctor Dances. Fiquei bem feliz em ver Dorium Maldovar em cena e notar que as dicas dadas pelo War Doctor foram seguidas pelo barrigudo azul. Já na regeneração seguinte, em Return of the Volsci, com o 9º Doutor, Rose e Jack, vemos o espectro da guerra voltar, mas o Doutor já sabe se colocar firme diante disso. O fato de haver uma raça feminina guerreira também é um flerte com o futuro, e nesse miolo de Doutores da Nova Série encontramos idas e vindas a falas clássicas e recentes, também ligadas às mudanças da regeneração, como “wearing a bit thin” (The Tenth Planet e The Day of the Doctor), “you never quite know what you’re going to get with regeneration” (Castrovalva) e “times change, and so must I” (The Time of the Doctor).

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Do War Doctor à 13ª Doutora.

Na reta final temos a última grande ligação com questões de gênero e o surgimento de uma Noa Era, em um dos meus contos favoritos dessa antologia, Nurse Who?, com o 10º Doutor, Gabby e Cindy. Junto com a história do 5º Doutor, temos aqui dobradinha excelente para esfregar na cara de espectadores que têm coragem de rejeitar a série por conta dessa mudança para uma persona feminina, e nessa linha de drama segue-se as duas histórias finais da edição, Without A Paddle, com o 11º Doutor, Alice e River e Harvest of the Daleks, com o 12º Doutor e Bill, com uma piadinha sem graça e enigmática sobre números de Doutores que me impressionou ter vindo do mesmo autor que cosias tão interessantes nos trouxe antes.

13ª Doutora: As Muitas Vidas de Doctor Who é uma homenagem e tanto para o legado de Doctor Who, exaltando a forma como a série se enquadrou nas muitas alterações ideológicas e políticas do tempo e como essa tag de mudança é, em uma palavra, necessária. O segredo da longevidade, a sabedoria e a humildade de saber e se deixar mudar. Uma excelente preparação (diria até que é muitíssimo melhor que a minissérie anterior) para a chegada da 13ª Doutora. Um criador (ou aumentador) de hype em alto estilo.

The Thirteenth Doctor #0: The Many Lives of Doctor Who (EUA, Reino Unido, 26 de setembro de 2018)
Roteiro:
 Richard Dinnick
Arte: Claudia Ianniciello, Mariano Laclaustra, Pasquale Qualano, Giorgia Sposito, Brian Williamson, Ariana Florean, Iolanda Zanfardino, Neil Edwards, Rachael Stott
Arte-final: Fer Centurion
Cores: Color-ice, Carlos Cabrera, Adele Matera, Dijjo Lima, Enrica Eren Angiolini
Letras: Sarah Jacobs, John Roshell
Editora: Titan Comics
Editoria: Jessica Burton
71 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.