Crítica | 1408 (2007)

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Quartos de hotel são o que chamamos de “não lugares” por natureza. Eles são impessoais, projetados para que praticamente qualquer um possa chegar, dormir e ir embora, sem deixar rastros do que fez ali, ou que tipo de demônio interno enfrentou naquele lugar. A natureza estranha desses “não lugares” onde pagamos para habitar quartos de pessoas que não conhecemos, sendo servidos por pessoas que não conhecemos, vem sendo fonte de inspiração para a ficção de horror há anos, gerando clássicos como Psicose (1960) de Alfred Hitchcock, e O Iluminado (1980) de Stanley Kubrick, este último baseado em um dos mais populares romances de Stephen King. O autor voltaria a este universo, onde estes “não lugares” representados por hotéis e seus quartos impessoais, funcionam como purgatórios para os seus personagens, através do conto 1408 (que não li) que ganhou uma ótima adaptação em 2007, estrelada por John Cusack.

Na trama, Mike Enslin (Cusack) é um escritor descrente que ganha a vida escrevendo sobre locais supostamente assombrados, onde ele passa a noite, somente para desacreditá-los em seus livros. Ao ser desafiado a investigar o caso do 1408, um suposto quarto maldito localizado no luxuoso Hotel Dolphin, em Nova York, onde uma dúzia de pessoas cometeu suicídio, Mike aceita prontamente o desafio. Apesar dos esforços do gerente do hotel (Samuel L. Jackson) de demover o escritor da ideia de pernoitar no quarto, Mike consegue se hospedar no 1408 ao ameaçar processar o hotel. Dentro do quarto, Mike Enslin logo é confrontado por seus piores temores, tendo todas as suas crenças postas à prova.

Escrito á seis mãos por Matt Greenberg, Scott Alexander, e Larry Karaszewski, o roteiro de 1408 acertadamente passa boa parte de seu primeiro ato construindo o seu protagonista, apresentando gradualmente como Mike vive atualmente, como ele encara a sua profissão, a sua vida pessoal, e como algo aconteceu para levá-lo até o estágio em que o encontramos. Todo este investimento inicial feito de forma contundente, mas econômica, mostra-se extremamente importante, tendo em vista que passaremos mais da metade da história tendo o escritor como único personagem na tela.

Embora não chegue a se destacar, a condução do diretor sueco Mikael Håfström merece elogios por conseguir transmitir todo o horror e surrealismo das situações que Enslin passa a enfrentar no momento em que entra quarto, sem nunca descambar para o trash, o que jogaria contra a densidade psicológica que o cineasta parece perseguir. Håfström também merece créditos por dar verdadeira personalidade ao quarto do título, devido aos diferentes cenários que ele cria para torturar o seu ocupante, seja um cômodo congelado, ou um local em ruínas. E isso não somente por estes aspectos mais flagrantes, mas por discretas alterações no desenho de som e no enquadramento que mostram como o quarto vai reagindo às ações de Mike, de seu ceticismo irônico inicial, ao desespero crescente. O diretor consegue transmitir uma atmosfera sufocante em seu filme e, em um projeto como esse, tal conquista é metade do caminho andando.

Deve-se voltar a elogiar o trabalho do trio de roteiristas, que manipulando com competência os clichês do gênero, constroem de forma orgânica e gradual o antagonismo que vai se desenvolvendo entre Mike e o quarto, evitando uma estrutura episódica na forma como a entidade representada pelo cômodo vai jogando com os erros e traumas do passado do protagonista. Por outro lado, deve-se criticar uma excessivamente esticada transição do 2º ato para o clímax da trama, que embora faça sentido narrativamente, rouba um pouco do ritmo da obra.

Mas de nada adiantaria toda essa construção de atmosfera se não tivesse um bom ator pra segurar a onda de contracenar com o grande personagem que é o quarto, mas John Cusack cumpre a tarefa com louvor. Embora seja irregular em muitas ocasiões, quando acerta, Cusack acerta em cheio. O ator consegue dar a Enslin o ar de homem comum confrontado pelo fantástico que é tão importante nos protagonistas das histórias de Stephen King, mas sem com isso transformar Mike em um tipo raso, trabalhando bem os nuances dos conflitos de seu personagem.

1408 é um filme que, muitas vezes, acaba sendo esquecido entre as boas adaptações da obra de Stephen King, mas que merece ser mais valorizado. O longa de Mikael Håfström, contando com um John Cusack inspirado à frente do elenco faz justiça à tradição de filmes de terror onde hotéis, estes não-lugares por excelência, servem como purgatórios onde podemos enfrentar nossos demônios interiores ou ceder de vez a eles. Meu conselho final é: ignore o conselho da gerência e passe uma hora no 1408.

PS: O filme contém simplesmente quatro finais alternativos. Para esta resenha, foi levada em conta o final exibido no cinema e nas cópias de DVD.

1408 (1408)- EUA, 2007.
Direção: Mikael Håfström
Roteiro: Matt Greenberg, Scott Alexander, Larry Karaszewski (Baseado em conto de Stephen King)
Elenco: John Cusack, Samuel L. Jackson, Mary McCormack, Tony Shalhoub, Jasmine Jessica Anthony, Len Cariou, Isiah Whitlock JR, Kim Thompson, Benny Urquidez
Duração: 104 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.