Crítica | 1941 – Uma Guerra Muito Louca

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Duas horas de atrocidade cômica atrás de atrocidade cômica. Este é o resumo básico do que significa 1941 – Uma Guerra Muito Louca, possivelmente o pior filme dirigido por Steven Spielberg (ou um dos 3 piores, vá lá). Com um time bastante confuso de roteiristas e um elenco que parece se divertir muito em cena (bom, pelo menos alguém se divertiu aqui!), esta sátira ao modelo de filmes de guerra produzidos nos Estados Unidos e na Europa tenta passar para o espectador alguma coisa como… “decisões ruins e pessoas loucas em cargos importantes, especialmente quando lidam com armas e vidas, podem tornar situações inicialmente ruins em um cenário ainda pior”. Diante dessa visão brincalhona sobre como a História da Segunda Guerra Mundial poderia ser vista de uma maneira escrachada, o diretor colocou americanos e japoneses em cena (Toshiro Mifune faz parte do elenco!) e os deixou brigando como se estivessem possuídos por um nível de comédia à la programas de TV brasileiros. Não tinha como dar certo.

Vindo depois dos excelentes Tubarão (1975) e Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), obras que mostraram a capacidade de Spielberg em trabalhar com eventos grandiosos e conseguir o tom certo de tensão para segurar o espectador, 1941 parece um desafio de mal gosto feito ao cineasta, algo do tipo “a gente já sabe que você dirige bem. Mas o quão mal você pode tornar um filme?“. A resposta é este épico repleto de insanidades, com uma duração excessiva e que parece o triplo do que realmente é, recheado de piadas de mal gosto (e não no bom sentido de serem piadas dentro de um cenário de humor negro ou sátira — e Spielberg reconheceu muito bem disso, quando falou a respeito, anos depois, dizendo o quanto falhara ao tentar aludir Mel Brooks) e que não consegue se manter nem mesmo como comédia porque lhe falta o básico, até mesmo dentro de sua concepção de filme nonsese do mais alto nível. Lhe falta foco.

Espectadores mais afeitos ao espetáculo pelo espetáculo, poderão defender 1941 como sendo uma obra que entrega aquilo que seu meio pede: pura loucura. E em partes, isso é verdade. O roteiro é repleto de loucura e até existem mínimos momentos onde é possível ver algo bom na execução delas. Mas são tantos personagens e tantas situações desconexas, fragilmente penduradas por uma malha de invasão nipônica que fica difícil ver um trabalho positivo dos roteiristas na estrutura da história ou no desenvolvimento dos personagens, isso porque no filme não existe nenhuma das duas coisas. Na década seguinte a 1941, o cinema ganharia de presente algumas obras dentro desse mesmo tipo de comédia, e algumas delas conseguiriam sustentar com excelência a sua própria insanidade, como é o caso de Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu (1980) e Corra Que a Polícia Vem Aí! (1988). Ou seja, é possível fazer algo cômico, nonsense e que tenha foco narrativo sim. O que falta em 1941 é o estabelecimento de situações onde a comédia também desse espaço para que os personagens tivessem algo a mais do que apenas uma piada física ou textual em absolutamente todas as cenas que aparecem.

Dessa forma, não adianta muito destacar a criação de atmosferas feita pela boa trilha de John Williams, pela hilária escolha dos figurinos, por uma parte da direção de arte (a casa à beira-mar e o local do baile se destacam, nesse setor) e pela ótima fotografia noturna de William A. Fraker. Todas essas coisas se diluem com grande velocidade porque o enredo do qual fazem parte é composto apenas de clímax, de piadas incessantes, de gags que não dão nenhuma trégua para o público, escolha que boicota o filme porque, se tudo é engraçado, nada é engraçado. É preciso ter um ponto onde a trama avance sem necessariamente depender do riso, onde os personagens chamem a atenção do espectador por coisas além de piadas com ovo, perseguições amorosas (a propósito, o personagem de Treat Williams age de maneira abominável na parte final, quando enfim “pega” a garota que estava perseguindo) e cenas clichês de filmes de guerra.

Em meio a tanto horror, Spielberg consegue alguns segundos de tolerância ao fazer referências a filmes de outros gêneros, como Aconteceu Naquela Noite (1934), O Mágico de Oz (1939), Deu a Louca no Mundo (1963) e O Poderoso Chefão (1972), cabendo também recriações de cenas de dois de seus filmes anteriores, Encurralado (1971) e Tubarão; isso sem contar a homenagem ao clássico da Disney, Dumbo (1941), cuja primeira inserção no filme é muito boa, mas depois perde totalmente o seu poder de divertir porque é repetitivo, e em cada nova cena, com o militar assistindo à animação, não há nada de interessante servindo de adendo cômico para aquela situação. É preciso estar em um daqueles dias de muita “bobice” na vida para rir com 1941 e considerar o filme, sob o mais simples aspecto cinematográfico, como sendo um filme bom. É preciso ter muita coragem, assim como Spielberg, porque noção não tem.

1941 – Uma Guerra Muito Louca (1941) — EUA, 1979
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Robert Zemeckis, Bob Gale, John Milius
Elenco: Dan Aykroyd, Ned Beatty, John Belushi, Lorraine Gary, Murray Hamilton, Christopher Lee, Tim Matheson, Toshirô Mifune, Warren Oates, Robert Stack, Treat Williams, Nancy Allen, Lucille Benson, Jordan Brian, John Candy, Elisha Cook Jr.
Duração: 118 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.