Crítica | 1,99 – Um Supermercado Que Vende Palavras

Desde que a humanidade criou os mecanismos da chamada era da reprodutibilidade técnica, somos seduzidos pelas imagens publicitárias que funcionam menos pela solicitude e mais pela exposição de elementos da teatralidade hollywoodiana para ter a nossa atenção calorosa e assim, por meio de sua ludicidade superlativa, vender não apenas produtos necessários para demandas cotidianas de qualquer ser humano, mas também fornecer os trajes simbólicos para sobrevivência suportável em nossa sociedade das aparências. Tendo dito isto, em paralelo com as considerações de Gilles Lipovetsky em seu “clássico” O Império do Efêmero, adentro nesta breve, mas pontual reflexão sobre a urgência das discussões sobre consumo e consumismo no bojo de nossa sociedade, pontos expostos em 1,99 – Um Supermercado Que Vende Palavras, produção com quase duas décadas de lançamento e, infelizmente, atualíssima.

O ponto de partida é a fuga de qualquer interesse comercial no desenvolvimento de sua proposta, haja vista a estrutura experimental que foge das convenções e apresenta ausência de narrativa, algo que por sinal, impede o filme de ir mais além de suas possibilidades, haja vista a importância da mensagem veiculada. A ação não é permeada por diálogos, interações conflitantes e necessidades dramatúrgicas tradicionais, mas pela exposição de personagens circundantes num supermercado que vende emoções, slogans, palavras fabricadas para representação de pessoas que perderam qualquer partícula de individualidade para se tornar uma massa gigantesca guiada pelo fascínio diante das marcas, algo ainda mais gritante na era das redes sociais. Em muitos casos, veste-se Lacoste não apenas porque o tecido é bom, mas por causa da representação do jacaré nas camisas masculinas de cores variadas. E isso segue por tantas outras marcas.

Diante da situação exposta, ilação de ideias de quem vos escreve com as questões interpretadas com base no filme em questão, passeamos pelo supermercado branco, captado pelas imagens em steadicam de Hélcio Alemão que transmitem, em seu movimento sofisticado, a embalada experiência do consumo por prazer, não por necessidade. Surge, no entanto, uma questão problemática: o prazer não é uma necessidade a ser contemplada em nossas vidas? A resposta é positiva, a grande crise, neste caso, é que vem acompanhada do “querer mais” incessante. As pessoas compram sem cansar, mesmo que estejam atoladas em dívidas e façam parte da lista de assinantes da destruição do planeta em sua microfísica antiecológica, perpetrada cotidianamente pela compulsão por compras diante do esvaziamento de suas perspectivas de vida.

Dirigido por Marcelo Masagão, conhecido por Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos, a abstração no terreno do simbólico supermercado não é um documentário, tampouco uma narrativa com elementos dramáticos convencionais, como já apontado. É como uma instalação audiovisual que não se permite fixar-se em padrões rígidos. Os personagens circulam em busca de suas necessidades, os únicos dois negros trabalham, ou seja, são os empregados da sociedade contemporânea com toques escravocratas, e atendem aos demais clientes que buscam slogans e conceitos para definição de suas vidas, incessantemente em busca por alguma satisfação num panorama onde o consumo define quem você é e o quão legal é se tornar o seu aliado. Ser inteligente, na concepção do filme, não é um uma necessidade de sobrevivência, mas determinante para você ser considerado “chique”.

Do gozo psicanalítico do cartão de crédito em fricção com a fenda da máquina aos displays expostos num cenário iluminado pela direção de fotografia de Alemão, responsável por captar os espaços erguidos pela direção de arte de Marcelo Masagão, em jornada múltipla como editor, roteirista, diretor, dentre outras funções, as esquetes do filme revelam as ideias do realizador depois da leitura de Sem Logo, livro de Naomi Klein, publicação inspiradora que reflete sobre a necessidade das marcas para alguns consumidores e cidadãos, imagens que agregam valor aos seus produtos, nem sempre tão interessantes ou revestidos do valor que supostamente aparentam. É uma sociedade fetichizada, tal como a crítica de Romero com os seus zumbis no clássico Despertar dos Mortos, apocalipse que volta o seu olhar para um shopping center, espaço que se torna o microcosmo de nossa sociedade de consumo.

Lançado em 2003, 1,99 – Um Supermercado Que Vende Palavras é um filme com amplas possibilidades interpretativas, pecaminoso por não ser um pouco mais próximo do comercial, algo que lhe permitiria ir além e ganhar maiores dimensões. Mas, como tenho dito, temos que julgar uma obra pelo que ela é, não pelo que poderia ser. Louvável abordagem de um tema polêmico e muito atual, em minha experiência, mesmo como um amante do cinema que filosofa demais, acredito que faltou mais ritmo para fisgar. Talvez tenha sido essa uma das intenções de Masagão ao longo de seus 72 minutos, ao causar estranhamento e manter o filme em nossas memórias, uma experiência que independe “do que falta” para ser importante e necessária nunca sociedade cada vez mais alienada como a nossa.

Ademais, num contexto de autoimagem mergulhada nas ansiedades de um estilo de vida inalcançável, não há como deixar de traçar paralelos com a concepção de “consumo ostentatório”, isto é, a ideia sobre adquirir um objeto por critérios de diferenciação social. Se o meu notebook é de uma marca melhor, sou mais evoluído que o “outro” que não dispõe da mesma tecnologia. É o mesmo lance da camisa Lacoste, citado anteriormente. Nas palavras de Baudrillard em A Economia Política de Signos, “são os homens da opulência que não se encontram rodeados de outros homens, como sempre acontecera, mas sim por objetos”. Pode parecer radical, mas é real. E nessa terrível realidade, consumimos o planeta em exaustão, com demandas que esgotam recursos irreversíveis, causadores de problemas que já podem ser observador por agora, basta olhar envolta e sentir o caos que domina a nossa existência, aliviada pelos bálsamos ofertados pela cultura do consumo e da ostentação.

1,99 – Um Supermercado Que Vende Palavras — (Brasil, 2003)
Direção: Marcelo Masagão
Roteiro: Marcelo Masagão
Elenco: Márcio Camargo, Giseli Duarte, Sergio Capezzuto, Patrícia Gordo, Chico Neto, Dan Nakagawa
Duração: 72 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.